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Santa Cândida, Curitiba: chegada de Lula ao bairro onde fica a PF divide os novos 'vizinhos' do petista

Nathan Lopes
Bairro onde Lula está preso abriga manifestações contra e a favor do ex-presidente Imagem: Nathan Lopes

André Shalders (@shaldim) e Camilla Costa (@_camillacosta) - Da BBC Brasil em Curitiba

Da BBC Brasil em Curitiba

08/04/2018 19h15

A área em torno da Polícia Federal do Paraná, no bairro de Santa Cândida, em Curitiba, está dividida ao meio por um cordão de isolamento da Polícia Militar paranaense desde o começo da tarde de sábado: um lado para os apoiadores do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e outro para seus opositores.

Do lado "verde-e-amarelo", um homem anunciava com um megafone que Lula tinha deixado o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo (SP), por volta das 18h40 de sábado. "Aqui na 'república de Curitiba' é onde a caravana dele termina, e onde começa o cumprimento da pena!"

Enquanto isso, na área "vermelha", localizada logo do outro lado da rua, os apoiadores do ex-presidente dirigiam-se aos manifestantes rivais com uma provocação: "Bate panela, pode bater! Quem tira o povo da miséria é o PT!".

Era só o começo da tensão, que foi subindo até a chegada do petista à capital paranaense, por volta das 22h. Assim que o helicóptero pousou no prédio onde Lula iniciaria sua sentença, homens da PF dispersaram um grupo de cerca de 400 apoiadores do ex-presidente com bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha.

Desde então, os ânimos se acalmaram. Mas a paz não deve voltar tão cedo ao antes pacato bairro de Santa Cândida, que fica afastado do centro de Curitiba, em um morro.

O motivo é que, a alguns metros da PF, militantes pró-Lula montaram um acampamento e dizem não ter prazo para sair do local. O acampamento ocupa duas ruas inteiras e conta até com um "information center" (centro de informação, em inglês), para esclarecer dúvidas de eventuais visitantes estrangeiros.

"Nesse momento, estamos morando aqui", disse à BBC Brasil o deputado federal Décio Lima (PT-SC). Segundo os organizadores do acampamento, ônibus de militantes já estão à caminho de Santa Cândida e devem encorpar o movimento.

Um bairro polarizado

Na última sexta-feira, Lula vivia um impasse entre se entregar ou resistir - o juiz federal Sérgio Moro havia determinado que o ex-presidente se entregasse em Curitiba até às 17h daquele dia.

Enquanto isso, a rua em frente à casa do administrador de empresas Fabiano Cláudio Mocelim, de 41 anos, era ocupada por uma manifestação de apoio à Operação Lava-Jato. Assim, Mocelim se sentiu à vontade para pendurar uma bandeira do Brasil na sacada.

Mas no sábado, dia em que Lula chegou ao bairro de Santa Cândida, a situação de Mocelin se inverteu. Na separação feita pela Secretaria de Segurança Pública do Paraná, a casa do administrador ficou do lado "errado" da barreira policial: o imóvel de dois andares, a poucos metros da PF, está na parte da rua reservada aos apoiadores de Lula.

Mesmo assim ele manteve a flâmula verde e amarela. "Minha intenção era manter, mesmo que alguém reclamasse, mas até que foi tranquilo. Eles passaram olhando, mas ninguém falou nada."

E como é se tornar "vizinho" de Lula? "Espero que ele chegue logo", disse o curitibano na tarde deste sábado, antes que o helicóptero com o petista aterrissasse no prédio da PF. "Não só ele, mas todos os envolvidos em corrupção. Espero que ele (Lula), mas também o (senador) Aécio Neves (PSDB-MG), todos se reúnam aqui na carceragem", diz Mocelin.

A posição de Mocelin não é unanimidade no Santa Cândida. Ali, há também quem apoie Lula. Entre eles, o estudante de Direito Caio Wendeler, de 20 anos, que não esconde a admiração pelo ex-presidente Lula.

Wendeler mora no quarteirão ao lado da Polícia Federal. E se entristece por ter ganhado o novo e ilustre vizinho. "É uma tristeza. Ontem eu vi as coisas, fiquei até emocionado. É algo que me deixa triste, mas eu ainda acredito na Justiça, só não nessa justiça que tem viés político". Mas Wendeler acredita que a permanência de Lula em seu bairro será curta.

"Se o Lula estivesse apto a ser votado, com certeza eu votaria (nele). Foi um presidente que olhou para as minorias, para as pessoas das classes mais baixas. Ajudou o Brasil a crescer. E agora está passando por toda essa questão política", defende Wendeler. O estudante Wendeler explica que só não votou no petista em 2002 e 2006 (as eleições que Lula concorreu e venceu) porque ainda não tinha idade para ir às urnas.

Em Santa Cândida, Lula pode esperar um bairro "calmo" e "frio", segundo a aposentada Marlene dos Passos de Santana, de 69 anos, que mora na rua do prédio da PF. "Ele é que vai ser meu vizinho, não o contrário!", exclama, quando perguntada sobre a chegada do ex-presidente.

Marlene e seu marido, Cenivaldo, de 64 anos, são ex-eleitores de Lula, e se dizem tristes com a condenação do líder petista. "As pessoas que eu admiro são Requião aqui, Lula e Dilma. Mas admiro como pessoa, não fazendo coisa errada", disse Marlene à reportagem da BBC Brasil.

"Eu, que sempre votei, decidi que esse ano eu não voto (em ninguém). Se vou pagar uma multa, se não vou, não importa. Eu fiquei muito decepcionada."

Já o filho do casal, Francisco Luiz, de 37 anos, é anti-Lula e diz estar contente com os rumos da Lava Jato. "Eu não posso dizer porque não vi nada, mas se ele fez isso mesmo, tem mais é que pagar."

Promoção em brechó e massagem na mulher de Cerveró

Nem só de manifestações políticas vive o Santa Cândida. Há quem tenha visto oportunidades de negócio na vizinhança inesperada trazida pela Lava-Jato.

Na rua que dá para o portão principal da Superintendência da Polícia Federal, a comerciante Mari de Aguiar, de 58 anos, aproveitou as manifestações para fazer promoções no seu brechó.

"Queria que Lula nem viesse, que ficasse como está, esse pessoal aí esperando (o ex-presidente chegar). Para mim, está ótimo", brincou na tarde de sábado, antes da chegada do petista, comemorando a quantidade de potenciais clientes em frente ao estabelecimento. Naquele dia, seu faturamento com roupas e sapatos usados aumentou.

Já o dia anterior - quando se esgotou o prazo para que o ex-presidente se entregasse, e o público no local era principalmente de manifestantes anti-Lula - não rendeu tantos clientes para o brechó.

O brechó, no entanto, é apenas uma das maneiras com as quais a família de Mari faturou com a movimentação em torno dos presos da Lava Jato.

Em uma sala simples nos fundos da casa onde fica o brechó, seu marido Ivo Stadler, de 69 anos, oferece massagens com hora marcada. Uma de suas clientes assíduas era Patricia Cerveró, a mulher de Nestor Cerveró. O ex-diretor da Petrobras foi preso em janeiro de 2015 e saiu da carceragem de Curitiba, com uma tornozeleira eletrônica, em junho de 2016, após acordo com o Ministério Público Federal.

"Ela já marcava de Brasília mesmo. Vinha a cada 15 dias, mas não falava nada sobre como era lá dentro (da carceragem da PF)", disse Mari à BBC Brasil.

Confusão na chegada de Lula

O clima no Santa Cândida pesou no sábado, quando Lula chegou à PF do Paraná.

Gás lacrimogêneo, ovos e latas vazias de cerveja foram o resumo da noite de Carlos Roberto Santos, de 54 anos. Morador de uma casa de dois andares em frente à Superintendência da PF, Carlos assistiu quando a polícia decidiu dispersar a multidão com bombas de efeito moral. "O pessoal (manifestantes) desceu aqui e quase invadiu a minha casa", diz ele.

Na confusão, um dos filhos de Carlos foi atingido por uma lata de cerveja que entrou pela janela do quarto.

A professora Eliane Murmel, de 53 anos, estava no telhado de sua casa filmando a chegada do helicóptero com o ex-presidente quando a confusão começou. Uma das bombas estourou perto do lugar onde estava seu marido, e ela própria teve dificuldades de descer do telhado por conta do gás lacrimogêneo.

"Quando teve o depoimento (de Lula ao juiz Sérgio Moro, em maio de 2017), eles (a polícia) fecharam várias ruas por aqui. Os moradores tiveram que usar credencial para chegar em casa. (Ontem) deveriam ter isolado a rua mais cedo. Os manifestantes estavam muito perto (da entrada do prédio)", critica Eliane, para quem houve falta de planejamento policial.

A confusão começou depois que o juiz substituto Ernani Mendes Silva Filho, da Justiça Federal do Paraná concedeu liminar à Polícia Federal, no final da tarde do sábado, estabelecendo um perímetro de segurança livre de manifestantes de cerca de uma quadra e meia ao redor do prédio.

A esta altura, porém, o acampamento de manifestantes pró-Lula já se organizava na entrada da Superintendência da PF.

Quando o helicóptero trazendo o ex-presidente chegou, por volta das 22h, grupos pró e anti-Lula soltavam fogos e rojões. Eles estavam separados pela Polícia Militar.

Do lado dos manifestantes pró-Lula, no entanto, a explosão de duas bombas teria dado início a uma ação de dispersão da polícia, que feriu levemente oito pessoas, incluindo três crianças e um policial, de acordo com a Polícia Militar.

Minutos depois da ação, o ex-deputado federal Dr. Rosinha, presidente do PT Paraná, disse à imprensa que estava dentro do prédio da PF com representantes dos movimentos contra Lula assinando um acordo em que ambos os grupos se comprometiam a obedecer a liminar da Justiça e protestar depois do perímetro estabelecido.

"Tinhamos nos comprometido a sair daqui quando o Lula chegasse. Mas aí a Polícia Federal começou a atirar. Mas só atirou do nosso lado. Quero que eles esclareçam o porquê disso", afirmou.

O tenente-coronel Mário Henrique do Carmo, comandante do 20º Batalhão da Polícia Militar, confirmou que o acordo estava sendo assinado e a Polícia Federal agiu para dispersar os manifestantes. "Houve duas explosões no chão, no meio dos manifestantes e como efeito dessa explosão, eles avançaram no portal da PF que, por sua vez, repeliu. Mas eu não creio que houve tentativa deliberada de invasão", explicou Carmo.

"No início, os dois movimentos (pró e anti-Lula) estavam se manifestando em paz e dentro da legalidade. Com a chegada do helicóptero, os ânimos foram acirrados. Ninguém sabe por que essas duas bombas explodiram."

Questionada, a Polícia Federal não se manifestou sobre o ocorrido até a publicação desta reportagem.