O polêmico caso de preso que virou parlamentar mais bem votado e levou Reino Unido a mudar lei para barrar condenados

Luis Barrucho - @luisbarrucho - Da BBC Brasil em Londres

Da BBC Brasil em Londres

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    Parlamento britânico, em Londres

    Parlamento britânico, em Londres

Bobby Sands morreu em 5 de maio de 1981, mas seu nome é até hoje lembrado como símbolo da luta por autonomia da Irlanda do Norte, um dos países que formam o Reino Unido.

Sua morte, aos 27 anos, resultado de uma greve de fome iniciada por ele e por nove outros companheiros de cela, gerou forte repercussão nacional e internacional, dividindo opiniões e acirrando tensões.

Também acabou resultando em uma mudança nas leis eleitorais britânicas.

Sands pertencia ao Exército Republicano Irlandês (IRA), grupo paramilitar católico que pretendia separar a Irlanda do Norte do Reino Unido e recorria a métodos extremistas, como explosões e emboscadas. O IRA foi desmantelado em 2005 após um acordo de paz. Estima-se que a luta armada tenha causado 3,5 mil mortes desde sua fundação, em 1919.

Sua figura já era bastante conhecida no movimento, mas foi sua eleição de dentro da prisão - em meio à greve de fome que então durava dois meses, que provocou polêmica - fazendo com que o Reino Unido acabasse proibindo pessoas condenadas a penas superiores a um ano de se candidatarem a cargos políticos.

Do nascimento à prisão

Nascido em Belfast, capital da Irlanda do Norte, Sands se tornou membro do IRA em 1972 e passou um terço de sua vida na prisão.

Ele foi preso pela primeira vez em outubro de 1972, com apenas 18 anos, pela posse de quatro armas descobertas na casa onde estava.

Anos antes, o governo norte-irlandês, que apoiava a unificação com o Reino Unido, suprimiu o movimento nacionalista e desencadeou um grande conflito civil. O Exército britânico chegou a ser enviado ao país para, inicialmente, "garantir a paz", mas a população católica alega que a repressão cresceu ainda mais. Como resultado, a solução idealizada pelo IRA foi recorrer às armas.

Tratado como prisioneiro de guerra na prisão, Sands foi libertado em 1976. No entanto, um ano depois, acabou preso novamente, dessa vez por posse de arma.

Ele havia planejado a explosão de uma loja de móveis. O showroom foi destruído, mas quando Sands e outros cinco companheiros deixavam o local, se depararam com a polícia. Houve troca de tiros e dois integrantes do grupo ficaram feridos. Os outros quatro, incluindo Sands, tentaram escapar de carro, mas foram presos. Um dos revólveres usados no ataque foi encontrado no veículo. Em 1977, os quatro homens foram condenados a 14 anos de prisão, mas não foram acusados de terrorismo.

Logo depois de sua condenação, Sands envolveu-se em uma confusão na cadeia e passou seus primeiros 22 dias atrás das grades sem qualquer móvel em sua cela, 15 dias desses dias nu e à base de uma dieta de pão e água a cada três dias.

No final de 1980, ele foi nomeado oficial-comandante dos prisioneiros do IRA na prisão, que vinham protestando para ganhar de volta uma espécie de status especial - isso lhes permitiria, por exemplo, deixar de cumprir algumas regras impostas a outros presos.

A manifestação começou com o "protesto dos lençóis" em 1976, no qual os detentos se recusaram a vestir os uniformes e passaram a usar lençóis como vestimenta.

Dois anos depois, em retaliação ao tratamento cada vez mais duro dentro do presídio, eles passaram a realizar um "protesto sujo", em que se recusaram a tomar banho e lançaram suas próprias fezes contra as paredes de suas celas.

Greve de fome e eleição

Em março de 1981, Sands começou uma greve de fome. Ele também decidiu que outros prisioneiros deveriam deixar de comer para que o protesto recebesse o maior destaque possível na imprensa.

A greve de fome só terminaria caso fossem atendidas cinco exigências: 1) o direito dos presos a não usar uniforme, 2) o direito a não fazer trabalhos dentro da prisão, 3) o direito de livre associação com outros prisioneiros e de se organizar com fins recreacionais e educacionais, 4) o direito de uma visita, uma carta e uma encomenda por semana e 5) a restauração completa do "status especial" perdido durante a manifestação.

Para Sands e outros membros do IRA presos, a greve de fome tinha como objetivo mostrar que eles eram prisioneiros políticos, e não criminosos comuns. Sendo assim, deveriam ser tratados de forma diferente.

Logo após o ínicio da greve, um parlamentar norte-irlandês morreu de ataque cardíaco repentinamente.

Sua morte levou a eleições e foi vista como uma oportunidade pelos apoiadores de Sands para "aumentar a conscientização pública" sobre a prisão dele e de outros membros do IRA.

De dentro da prisão, o nome de Sands acabou sendo lançado. Somou-se à essa iniciativa a declaração da então primeira-ministra do Reino Unido, Margaret Tatcher, ferrenha opositora da independência da Irlanda do Norte. Ela questionou: "como posso falar com eles (prisioneiros) se eles não têm apoio, não têm mandato?".

Sands acabou sendo eleito por uma margem apertada de votos.

Apesar disso, Thatcher recusou-se a negociar e mudou a lei, de forma a impedir que qualquer outro prisioneiro com uma condenação superior a um ano de prisão pudesse se candidatar.

No entanto, pouco depois da eleição, Sands morreu no hospital da prisão. Ele estava em greve de fome havia 66 dias. No curso de sete meses, outros nove membros do IRA também teriam o mesmo fim.

Thatcher descreveu as mortes como a "última cartada do IRA". Na ocasião, ela disse que "Sands era um criminoso condenado. Ele escolheu tirar sua própria vida. Foi uma escolha que a organização à qual ele pertencia não permitiu a muitas de suas vítimas".

Repercussão

Mas, diferentemente do que pensava a então primeira-ministra britânica, a morte de Sands gerou um crescimento estrondoso do apoio ao IRA, com mais pessoas se voluntariando para serem recrutadas como membros do grupo. Houve protestos violentos por toda a Irlanda do Norte.

A repercussão também foi internacional, com manifestações de apoio sendo realizadas ao redor do mundo.

Em Oslo, na Noruega, manifestantes jogaram um tomate na rainha Elizabeth 2ª, do Reino Unido, durante uma visita ao país, mas ela não foi atingida. Na União Soviética, o jornal Pravda descreveu a morte de Sands como "outra página trágica na crônica sombria de opressão, discriminação, terror e violência" na Irlanda.

Nos Estados Unidos, entidades homenagearam Sands. Já a imprensa americana expressou opiniões divididas sobre o caso. O jornal The New York Times publicou na ocasião que Thatcher estava certa em se recusar a conceder status político a Sands, mas acrescentou que ao se mostrar "insensível e indiferente", o governo britânico estava dando a ele "a coroa de mártir".

Após a greve de fome, o Reino Unido reconheceu o status político dos prisioneiros e acabou concedendo sua libertação antecipada em 1998, no que ficou conhecido como Acordo de Belfast ou Acordo da Sexta-Feira Santa.

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