Entenda por que a crise política na Itália tem potencial explosivo para a economia global

  • Alessandro Bianchi/Reuters

    O presidente italiano, Sergio Mattarella, fala com a mídia

    O presidente italiano, Sergio Mattarella, fala com a mídia

A Itália está envolvida em uma disputa de poder entre populistas eurocéticos - vencedores das eleições de março - e políticos pró-União Europeia.

Foram necessárias semanas de negociações para que uma coalizão populista se formasse, mas o presidente, Sergio Mattarella, a vetou de maneira controvertida e a situação voltou à estaca zero.

Agora, o país enfrenta um governo interino - ainda não empossado - antes de partir para novas eleições.

O que faz disso uma crise?

A economia da Itália - a terceira maior da zona do euro - está anêmica há anos.

A União Europeia e os mercados globais estão assistindo a isso nervosamente. A crise da dívida da zona do euro em 2010-2011 foi remendada, mas não resolvida.

A rejeição de Mattarella à escolha dos populistas para o Ministério da Economia - com o nome de Paolo Savona - expôs as tensões sobre o euro. O economista de 81 anos indicado para o cargo havia defendido um "plano B" para a Itália sair do euro.

Os populistas "antiestablishment", o Movimento 5 Estrelas e a Liga Norte (ou simplesmente A Liga), ficaram enfurecidos com o veto do presidente.

O recém-designado primeiro-ministro, Carlo Cottarelli, é um ex-funcionário do FMI (Fundo Monetário Internacional), próximo de tecnocratas de Bruxelas, pró-euro e pró-austeridade. Ele é conhecido na Itália como "Senhor Tesoura", porque foi responsável por rever as despesas públicas do país no governo de Enrico Letta, em 2013.

Quão grave é a crise?

Muito grave. Mas a Itália não está desacostumada à turbulência política. Desde a Segunda Guerra Mundial, o país já teve 64 governos.

O líder do Movimento 5 Estrelas, Luigi Di Maio, pediu o impeachment de Mattarella. O líder da Liga, Matteo Salvini, insinuou que a Alemanha esteja por trás do veto do presidente ao nome de Savona.

Apesar do histórico de crises, a atual tem traços relativamente novos para a Itália. Os populistas ganharam um mandato popular sem precedentes para governar - é a primeira vez que conseguiram isso desde a Segunda Guerra Mundial.

O governo provisório proposto terá de agir com cautela. Cottarelli diz que novas eleições serão realizadas no início de 2019, ou depois de agosto, se ele não sobreviver a um voto de confiança. Esta última hipótese parece a mais provável.

Alguns italianos já suspeitam de uma trama planejada pela UE, depois do que ocorreu em 2011. Naquela época, a Itália estava sendo punida pelos mercados globais - ela corria o risco de inadimplência à medida que as taxas de juros de seus títulos do governo disparavam. O então primeiro-ministro Silvio Berlusconi foi destituído e substituído pelo ex-comissário da UE Mario Monti.

O presidente pode cair?

Não imediatamente. O pedido de Di Maio para o seu impeachment dificilmente conseguirá apoio majoritário no Parlamento. A Constituição italiana prevê o impeachment apenas por "alta traição" ou por "agir contra a Constituição".

O presidente Mattarella certamente mostrou que seu trabalho é muito mais do que cerimonial.

Cabe a ele nomear o governo. Mas rejeitar a equipe da coalizão 5 Estrelas-Liga foi politicamente arriscado. O apelo "antiestablishment" dos eleitores dos populistas pode crescer ainda mais agora, com o discurso de que o governo interino cedeu à pressão de Bruxelas.

O que isso significa para o euro?

A Itália tem uma dívida pública de € 2,3 trilhões. Isso significa 132% do PIB e o segundo maior nível de endividamento da UE, depois da Grécia.

Salvini, da Liga, insiste que "ninguém jamais pensou em sair do euro - não estava em nossos manifestos, nem nos manifestos de Savona".

Seus parceiros do 5 Estrelas não gostam do euro, mas não planejam mais realizar um referendo sobre a moeda única.

A questão, no entanto, não está fora da mira dos populistas. Eles prometem uma renegociação dos principais acordos da zona do euro, como o Pacto de Estabilidade e Crescimento e o Pacto Fiscal. Esses documentos comprometem os Estados com a disciplina orçamentária e metas rígidas estabelecidas por Bruxelas.

Os populistas italianos querem deslocar as prioridades da UE do liberalismo de livre mercado para o bem-estar social.

Eles planejam injetar bilhões de euros em políticas sociais na Itália, como aumentar pensões e benefícios para os pobres.

Pesquisas de opinião indicam que a popularidade da Liga aumentou desde a eleição. Então, outra eleição dentro de alguns meses pode dar à legenda - de direita e anti-imigração - uma posição de comando.

A última correção rápida na política italiana não é suficiente para tranquilizar o restante da UE.

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