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As subversivas mensagens ocultas no clássico filme 'O Mágico de Oz'

Nicholas Barber - BBC Culture

25/08/2019 15h52

O longa é há muito tempo festejado como um clássico infantil, mas, com seus líderes enganadores, seguidores tolos e heróis que não merecem suas recompensas, serve ao mesmo tempo como uma paródia e uma crítica do mundo moderno industrializado.

Em dezembro de 1937, a Walt Disney Productions lançou seu primeiro desenho animado, Branca de Neve e os Sete Anões, que se tornou o maior sucesso do cinema americano de 1938.

Isso não apenas levou a empresa a produzir outros desenhos baseados em contos de fadas nas décadas seguintes, como levou outro estúdio, o Metro-Goldwyn-Mayer (MGM), a criar seu próprio longa musical sobre uma garota órfã e uma bruxa malvada: O Mágico de Oz.

Apesar das semelhanças com o filme da Disney, a produção da MGM é mais um anticonto de fadas do que um conto de fadas propriamente dito.

Basta olhar para o trio de desajustados que acompanha a heroína ao longo de sua viagem pela estrada de tijolos amarelos. Nenhum deles é o que você chamaria de um belo príncipe.

No entanto, Dorothy (Judy Garland) é tão boa de coração, as músicas são tão agradáveis e as aventuras em technicolor são tão empolgantes que fazem O Mágico de Oz até parecer um filme tradicional para a família.

Mas, o longa lançado em agosto de 1939 subverte de tal maneira as convenções de uma narrativa do bem contra o mal que seria capaz de deixar Walt Disney furioso.

Um líder falsário

Nas cenas de abertura, somos avisados de que a magia que estamos prestes a testemunhar pode não ser exatamente mágica.

No início do filme, após fugir de sua casa no Kansas para impedir que seu cachorro de estimação fosse sacrificado, Dorothy conhece um vidente viajante, o professor Marvel (Frank Morgan). O personagem do filme não existe no livro original de L. Frank Baum e foi criado pelos roteiristas Noel Langley, Florence Ryerson e Edgar Allan Woolf.

Por mais simpático que seja, o professor não passa de um enganador que finge ter dons psíquicos ao espiar uma foto que Dorothy está carregando. Ele é interpretado pelo mesmo ator que faz o Mágico de Oz, e acaba sendo o mesmo personagem: um showman de parque de diversões que se esconde atrás de uma cortina, mexe em alavancas e usa truques mecânicos para manter seus súditos leais e amedrontados.

Ele admite que foi parar na terra de Oz quando seu balão foi levado pelo vento até lá - até mesmo aquele balão estava além de seu controle. Em um floreio final gloriosamente gonzo, ele sobe ao céu enquanto grita: "Não posso voltar. Não sei como funciona!". Não há muitos filmes que mostrem políticos sendo tão descaradamente incompetentes assim.

Antes que o Mágico desapareça, ele entrega ao Espantalho (Ray Bolger), ao Leão Covarde (Bert Lahr) e ao Homem de Lata (Jack Haley) seus prêmios: um pergaminho, uma medalha e um relógio, enquanto assegura que eles são tão capazes quanto qualquer um "de onde venho".

Acadêmicos e filantropos são ridicularizados. Os veteranos de guerra são retratados como pessoas que "resgatam suas forças da naftalina e desfilam pela rua principal da cidade" uma vez por ano, mas "não têm mais coragem do que você".

É verdade que não podemos aceitar nada do que o "falsário" diz muito a sério, mas esses sentimentos são extremos demais para qualquer filme de Hollywood, ainda mais um filme para crianças.

Uma paródia do presente

O roteiro debocha da ideia de que poder e prosperidade vêm para aqueles que merecem, mesmo em relação à própria Dorothy.

Ela mata uma bruxa malvada ao cair em cima dela com sua casa, e outra (Margaret Hamilton) jogando água. Ambos os casos são acidentes, fruto de mero acaso e não da coragem ou do valor de Dorothy. (Qualquer bruxa solúvel que deixa baldes d'água em seu castelo está pedindo para desaparecer.)

Mas, nas duas ocasiões, Dorothy é instantaneamente aclamada como heroína, assim como o Mágico quando pousa em Oz. A mensagem é que as pessoas vão seguir qualquer figura de autoridade que cause impacto, por mais indigna que seja. É uma ideia subversiva em 2019, e foi ainda mais em 1939, quando ditadores fascistas estavam por toda a Europa.

O romance de Baum pode ter sido publicado na virada do século passado, mas o filme dirigido por Victor Fleming (juntamente com dois colegas, sem créditos) é um produto típico dos anos 1930. Foi lançado três anos depois de uma grande exposição do surrealismo no Museu de Arte Moderna de Nova York, e a maneira como o enredo se transforma em um sonho frenético com macacos voadores e guardas de rosto verde é surrealista.

Ele também tem pontos em comum com outras obras-chave da cultura da era da Depressão. No mesmo ano em que Dorothy deixou sua casa no Kansas e viajou para uma cidade cintilante, Tom Joad e sua família partiram do Oklahoma Dust Bowl em direção à Califórnia, em As Vinhas da Ira, de John Steinbeck.

E apenas um ano antes, Clark Kent - que, como Dorothy, era um órfão criado por fazendeiros idosos do Kansas - se reinventou na cidade grande como o Super-Homem.

Tom Joad acha que as condições não são melhores na Califórnia e se torna um ativista do movimento proletário. O Super-Homem, em suas primeiras aparições nos quadrinhos, é estopim de uma revolução anarquista e não luta contra supervilões, mas contra os responsáveis por favelas e minas inseguras.

Dorothy não chega tão longe, mas viaja do interior árido dos Estados Unidos para um centro urbano cintilante, mas chegando lá, descobre que o lugar é governado por falsários e habitado por tolos.

Também é significativo que a Cidade Esmeralda de Oz não seja um reino medieval como o de Branca de Neve, nem tenha uma paisagem de cúpulas e torres inspiradas em Istambul, como nas ilustrações do livro original.

Em vez disso, é uma cidade modernista de arranha-céus com listras neon - e, como quase tudo na terra de Oz, é escancaradamente artificial. O filme não leva o público além do arco-íris para um passado mítico, mas para uma paródia colorida de um presente barulhento e industrializado.

Se O Mágico de Oz tivesse surgido nas patrióticas décadas de 1940 ou 1950, seria difícil imaginar que esse clássico da contracultura tivesse escapado ileso. Mas Fleming e sua equipe criaram o mais poderoso dos filmes infantis: ele nos leva a um mundo de dificuldades e caos, de líderes inúteis e de seguidores crédulos e, depois, nos lembra que é esse mesmo mundo em que vivemos.

Leia aqui a versão original deste texto, em inglês, na BBC Culture.


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