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'Queremos respostas': parentes de vítimas da covid-19 na Itália vão à Justiça contra autoridades

Membros do Noi Denunceremo mostram as queixas formais que apresentaram à Justiça em Bergamo - AFP via BBC
Membros do Noi Denunceremo mostram as queixas formais que apresentaram à Justiça em Bergamo Imagem: AFP via BBC

Juliana Gragnani

Da BBC News Brasil em Londres

15/07/2020 16h35

Stefano Fusco diz ser teimoso como o avô. "Quando decido fazer algo, vou até o fim, haja o que houver", afirma.

Pena que o avô não pode ver o que ele aprontando está desta vez, diz ele. Antonio Fusco morreu aos 85 anos no dia 11 de março, vítima de um infarto dias após ser diagnosticado com covid-19 no norte da Itália.

Agora, os italianos Stefano, de 31 anos, e seu pai, Luca, de 58, estão liderando um movimento de denúncia contra a omissão das autoridades em seu país frente à maior pandemia desta geração.

A Itália foi o segundo epicentro da pandemia, com uma rápida ascensão de casos e histórias de pessoas que morreram por falta de respiradores disponíveis para todos. Foram quase 35 mil mortos.

Dias depois da morte de Antonio, Luca criou um grupo no Facebook com o objetivo de compartilhar a história de vida de seu avô: um contador dedicado ao trabalho e à família, bastante ativo, um "verdadeiro gentleman", nas palavras do neto.

A ideia era juntar ali histórias de vida como essa, convidando familiares que perderam seus entes queridos a contarem outras histórias das vítimas da pandemia.

Mas, além de compartilhar essas histórias, participantes passaram a se queixar da negligência de autoridades. Para eles, isso contribuiu para a perda de vidas no norte da Itália que poderiam ter sido salvas. O grupo virou então o "Noi Denunceremo", ou "Nós denunciaremos".

"Para garantir que, se alguém tem responsabilidades, se alguém pode agir e não o fez, ele (ou eles) pagará criminalmente por suas ações e responderá por sua negligência", diz a descrição do grupo.

Familiares defendem que locais onde o vírus circulava deveriam ter sido isolados mais cedo.

Hoje, o "Noi Denunceremo" tem 60 mil membros, e essas denúncias chegaram até o primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte.

O líder italiano foi questionado durante três horas em junho como parte de uma investigação sobre supostos erros cometidos por autoridades.

A investigação, liderada pelo Ministério Público de Bergamo, nasceu exatamente por causa de queixas dos familiares das vítimas da covid-19.

O ministro da Saúde, Roberto Speranza, e a ministra do Interior (responsável pela segurança interna e proteção civil contra catástrofes e terrorismo), Luciana Lamorgese, também foram ouvidos.

Bergamo fica no norte da Itália, na região da Lombardia, a Província do país mais atingida pelo coronavírus. A região é governada por Attilio Fontana, membro do partido de extrema direita Liga, enquanto o governo da Itália é formado por uma coalizão entre o Partido Democrático, de esquerda, e o Movimento 5 Estrelas.

Como no Brasil, o governo central e autoridades regionais estão brigando sobre em quem recai a responsabilidade pelas ações - ou falta delas - durante a pandemia.

Respostas

O "Noi Denunceremo" deixou de ser só online e virou uma instituição sem fins lucrativos, que hoje está coletando as histórias para transformá-las em queixas formais e disponibilizá-las ao Ministério Público.

Quase 150 já foram enviadas com a ajuda de sete advogados atuando de forma pro bono, segundo Stefano.

"Milhões de pessoas querem respostas sobre o que aconteceu. Nós queremos respostas", diz ele.

O grupo não está pedindo compensação financeira, diz (embora outros familiares possam pedir isso individualmente), mas que haja uma investigação e, caso houver denúncia do Ministério Público, que os acusados sejam julgados.

"Todos têm sua própria opinião sobre o que aconteceu. Para mim, as responsabilidades eram da região. As autoridades da região tinham que ter imposto um lockdown", opina Stefano.

O grupo também enviou uma carta à Comissão Europeia e ao Tribunal Europeu de Direitos Humanos pedindo que supervisionem a investigação na Lombardia, onde teria havido "sinais de crimes indizíveis contra a humanidade", segundo o texto.

Caso o Ministério Público aponte que os erros foram políticos, a conclusão será a de que foi "uma decisão deliberada para sacrificar vidas, dezenas de milhares de vidas, para evitar uma repercussão política de um lockdown em três cidades economicamente produtivas no norte da Itália", diz a carta.

A reclamação encontra eco em queixas de parentes de vítimas em outros países. Stefano diz ter sido contatado por pessoas na França, Espanha, Estados Unidos, Chile e Reino Unido.

"Isso confirma que há muitas pessoas ao redor do mundo que pensam que seus líderes subestimaram o problema", diz o líder do "Noi Denunceremo".

No Reino Unido, uma petição pedindo uma investigação sobre por que mais de 40 mil pessoas morreram pela covid-19 tem mais de 155 mil assinaturas. Também há um grupo no Facebook com cerca de 1.200 membros.

Demora para lockdown

As histórias contadas por parentes de vítimas da covid-19 mostram que muitos pensam que "houve erros na administração da pandemia", diz Stefano.

Muitos reclamam, por exemplo, da forma como a crise foi gerida em Alzano Lombardo, uma área de Bergamo com 12 mil habitantes. Ali, por causa da presença da indústria e de fábricas e, portanto, "por causa da economia, eles nunca impuseram um lockdown", opina Stefano.

A demora ou mesmo ausência de lockdown em Alzano Lombardo, assim como na cidade de Nembro, são objetos de investigação do Ministério Público.

"De 23 de fevereiro, quando o primeiro caso foi descoberto ali, até dia 8 de março, quando houve uma restrição parcial, as pessoas foram fazer compras no shopping, foram para restaurantes. Nossa vida estava normal. Se tivessem fechado tudo, talvez essa tragédia não fosse tão grande", diz.

Um dos outros grandes problemas relatados no grupo é sobre como a internação de algumas pessoas se deu com atraso - chegavam no hospital com 60%, 65% de saturação de oxigênio no sangue, relata Stefano.

Por fim, no grupo há também relatos anônimos de médicos. Eles contam como era a situação de quem estava trabalhando na linha de frente do então epicentro da pandemia, e reclamam principalmente da falta de equipamentos de proteção.

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