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O que é a recuperação econômica em forma de K prevista para os EUA pós-pandemia

Antía Castedo - @anticas - BBC News Mundo

21/09/2020 09h17

Quando ficou claro que a pandemia do coronavírus causaria uma recessão, os economistas começaram a debater que forma ela assumiria.

Seria um V, com uma queda rápida e uma recuperação igualmente rápida? Ou um U, com recuperação mais lenta? Ou melhor, um L, sem qualquer recuperação?

Agora, pelo menos nos Estados Unidos, especialistas dizem acreditar que nenhuma dessas suposições estava correta.

Segundo eles, a recuperação da economia global será em K, ou seja, um rápido declínio com uma subsequente divisão acentuada entre vencedores e perdedores.

"O que estamos vendo é uma recuperação que será vigorosa para alguns setores, enquanto outros permanecerão em queda livre", escreveu recentemente em um post Suzanne Clark, presidente da Câmara de Comércio dos Estados Unidos.

De um lado, estão os setores financeiro e de software, bancário, telecomunicações, imobiliário e alguns serviços de varejo, que já recuperaram amplamente os empregos perdidos no início da pandemia.

Também aqueles que oferecem serviços que estão em demanda neste novo contexto, como a marca de bicicletas ergométricas de alto padrão Peloton, cujas ações este ano mais que triplicaram e que já conta com mais de 1 milhão de assinantes.

De outro, os setores de lazer e hotelaria, viagens ou alimentação, que viram metade dos empregos perdidos em abril e, desde então, recuperaram apenas 50%, segundo reportagem recente da agência de notícias financeiras Bloomberg.

Um dos exemplos mais evidentes do impacto da pandemia está na capacidade dos trabalhadores de se adaptar à nova dinâmica de trabalho.

Quem conseguiu se ajustar à rotina do chamado "home office" rapidamente recuperou a confiança na economia e voltou a gastar.

Quanto ao restante, "não há sinais de recuperação e eles têm cada vez mais receio de que ela seja adiada", disse Peter Atwater, especialista que popularizou o termo "recuperação em forma de K" e professor-adjunto da Universidade de Delaware (EUA), à BBC News Mundo, o serviço de notícias em espanhol da BBC.

Além disso, os recursos públicos aprovados para mitigar os efeitos da crise, como o subsídio federal adicional de US$ 600 (R$ 3.240) para desempregados ou o programa de proteção salarial para pequenos negócios, já expiraram.

"Para os que estão no topo, a vida nunca foi melhor do que agora. Mas quem está na base da pirâmide, está à beira do desespero", diz Atwater.

Recuperação lenta

Os Estados Unidos entraram em recessão em fevereiro deste ano, encerrando uma expansão econômica de 11 anos.

E embora a recuperação tenha ocorrido já em maio, as perdas de empregos estão durando muito mais do que o esperado.

"E as primeiras pessoas a perderem o emprego geralmente são as últimas a recuperá-lo", diz Gregory Dac, economista-chefe da Oxford Economics para os EUA, à BBC News Mundo.

Como resultado, em agosto ainda havia 7,4 milhões de desempregados a mais do que em fevereiro, segundo dados oficiais do governo americano.

Não por menos, a economia está tendo um papel central na corrida presidencial dos EUA.

As eleições estão previstas para ocorrer no próximo dia 3 de novembro.

"Os economistas estão começando a chamar essa recessão de recessão em forma de K, que é uma forma elaborada de se referir a tudo que não está funcionando sob a presidência de Trump", disse o candidato democrata Joe Biden recentemente.

"Não podemos permitir que milhões de trabalhadores e amplas camadas de nossa economia fiquem para trás na recuperação da pandemia de covid-19", disse a presidente da Câmara de Comércio em seu post.

O problema, na opinião de muitos especialistas, é que as desigualdades que a recuperação em K está apresentando, no caso dos Estados Unidos, vêm de longe.

"O que está acontecendo nada mais é do que a continuação de quatro décadas de crescente desigualdade econômica nos Estados Unidos", diz Joe Brusuelas, economista-chefe da consultoria RSM, à BBC News Mundo.

Os especialistas entrevistados para esta reportagem concordam que a saída desta crise é muito semelhante à que aconteceu com a Grande Recessão de 2008, quando o governo apertou o cerco aos mercados financeiros.

Consequentemente, quem se beneficia com as políticas não passa de "10% da população", segundo Brusuelas.

Mas mesmo dentro dos próprios mercados financeiros, a situação não é a mesma para todas as empresas.

Os ganhos das bolsas americanas devem-se principalmente à boa saúde de algumas das maiores empresas do país.

Apple, Microsoft, Amazon, Alphabet e Facebook, as cinco maiores empresas do índice S&P 500 — que se baseia na capitalização de mercado das 500 maiores empresas listadas nas bolsas de Nova York (NYSE) ou NASDAQ (bolsa eletrônica) — são responsáveis por mais de um quarto dos incrementos de valor neste índice desde o final de março.

Além disso, enquanto "as grandes corporações tiveram acesso sem precedentes ao capital nos mercados de crédito durante esta crise, muitas pequenas empresas não sabem se vão ter acesso a algum tipo de financiamento", lembra Atwater.

Conflito social

Os impactos da crise no mercado de trabalho não afetaram igualmente homens e mulheres — elas foram, de longe, as mais afetadas.

Por um lado, porque elas têm participação maior em alguns dos setores mais afetados. Mas também porque, com o fechamento de muitos centros educacionais para evitar a propagação do vírus, as mulheres foram cuidar das crianças e, em muitos casos, abandonaram seus empregos.

Os trabalhadores latinos também foram duramente atingidos. Eles amargaram 20% de desemprego no auge da crise, diz Elise Gould, pesquisadora do Instituto de Política Econômica, à BBC Mundo.

E enquanto o desemprego entre os homens brancos, que chegou a 12,4% (maior até do que no pior da Grande Recessão), caiu novamente para 6,5%, para os homens negros "não houve muita recuperação até agora", diz Gould.

E para esses grupos, "é preciso levar em conta o contexto de desvantagem histórica", diz Gould, o que torna "sua capacidade de lidar com a perda de empregos muito reduzida".

Por isso, em sua visão, pode ser "enganadoso" falar de recuperação em forma de K, pois "parece que estamos dizendo que todos partem do mesmo ponto, quando, na verdade, são décadas de desigualdades".

Essas divergências nos impactos da crise e nas características da recuperação podem ter efeitos sociais perigosos, segundo Atwater.

"Em março, houve um sentimento de experiências compartilhadas, mas desde então as coisas têm caminhado em duas direções divergentes. Estou cada vez mais preocupado com a mudança através de protestos sociais", diz ele.

"Os protestos refletem a falta de esperança."

E quanto à América Latina e outros países?

Não foi apenas nos Estados Unidos que a forma que a recuperação está assumindo acendeu um sinal de alerta.

No Reino Unido, por exemplo, a economia começou a se recuperar em maio, mas a taxa de desemprego está no seu maior pico nos últimos dois anos.

Na maioria dos países latino-americanos, porém, é difícil falar em recuperação. O FMI (Fundo Monetário Internacional) prevê uma queda do PIB regional de 9,4% neste ano. Segundo a entidade, a recuperação só virá em 2021.

E a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) estima que 29 milhões de latino-americanos cairão novamente abaixo da linha da pobreza.

O think tank Economist Intelligence Unit (EIU) prevê que os países que poderiam recuperar seu nível de crescimento pré-pandêmico até o final de 2022 são Colômbia, Chile, Peru, Paraguai, Uruguai, República Dominicana, Costa Rica e Panamá.

Portanto, é muito cedo para saber como será a recuperação na região.