"Faça você mesmo" e sua história na Alemanha

Matilda Jordanova-Duda (ca)

Além de economizar, bricolagem e outros trabalhos caseiros têm cunho político e ecológico. Historiador pesquisa movimento importado dos EUA, hoje apoiado por iniciativas sociais e unindo todas as classes e gêneros.

São bicicletas com marchas defeituosas, cadeiras quebradas, notebooks que se recusam a inicializar. Uma frequentadora trouxe uma máquina de café, na esperança de encontrar alguém que "tenha alguma noção". Em todo o mundo são cada vez mais numerosos os Cafés Conserto e oficinas abertas, onde voluntários ajudam gratuitamente a reparar e montar objetos úteis.

Toda casa tem um objeto defeituoso, que é uma pena jogar fora, mas cujo reparo sairia caro demais, se executado por um profissional. Mas a felicidade é grande quando tais coisas voltam a funcionar, confirma Ulrich Buchholz da Transition Initiative Bonn im Wandel, iniciativa cofundadora de um dos "Repair Cafés" locais. "E, assim, também consertamos um pouco a sociedade", assegura.

Para se opor à tendência da obsolescência programada - a breve vida útil de eletrodomésticos e outros aparelhos na era digital -, também no Brasil foi aberto em 2012 o primeiro Café Conserto do país, na cidade de Santos, sob iniciativa da Agência Nacional de Desenvolvimento Eco-Social (Andes) e com autorização da Repair Café Foundation da Holanda, pioneira nesse tipo de projeto.

Na Alemanha, a tendência do upcycling, o "reciclar para melhor", também está levando os cidadãos às lojas de ferragens e materiais de construção. De acordo com a Associação Comercial de Trabalhos Caseiros, Construção e Jardins (BHB), um quinto dos alemães já reformou algum objeto antigo.

"A Alemanha sempre será o país do 'faça você mesmo': é algo que economiza dinheiro, poupa recursos e proporciona àquele que executa um sentimento de satisfação após o trabalho concluído", resume Kai Kächelein, da diretoria da BHB. O ano 2015 foi bom para o setor de bricolagem, com volume de negócios de quase 18 bilhões de euros - um aumento de 2,4% em relação ao ano anterior.

Da necessidade ao lazer

No entanto, a Alemanha nem sempre foi um país de bricoleiros. Em sua tese de doutorado, Jonathan Voges, da Universidade de Hanover, pesquisou a história do "faça você mesmo" no país: "No pós-guerra, era inevitavelmente preciso reconstruir tudo por conta própria",mas nunca como forma de lazer, apenas com o fim de se divertir: para fazer reparos a sério, havia a mão-de-obra especializada.

O historiador registra que a moda do do it yourself (DIY) chegou dos Estados Unidos, nos anos 1950. "As primeiras notícias da imprensa sobre os trabalhadores caseiros americanos soavam totalmente incrédulas: nos EUA - uma sociedade geralmente percebida na Alemanha como da abundância, que tudo tem e de nada carece -, as pessoas partiram agora para fazer as coisas por conta própria!"

Ao longo dos anos 60, lançaram-se pela primeira vez na Alemanha livros descrevendo o "faça você mesmo" como uma prática não só aceitável, mas, cada vez mais, desejável. Vieram então as primeiras lojas de varejo de material de construção, assim como os primeiros artigos destinados ao consumidor privado, como, por exemplo, cola vendida em tubos menores.

Em sua edição de aniversário, a revista alemã de bricolagem Selbst atribui o surgimento da tendência de embelezar as próprias quatro paredes, no final da década de 50 e início de 60, também ao fato de que grande parte da vida familiar e do lazer passou a se desenrolar ali: a novidade da programação de rádio e TV incentivava os alemães a ficarem em casa à noite.

"Faça você mesmo" com subtexto político

Os anos 1970 testemunharam uma onda de proliferação dos mercadões de construção civil. Ao ponto de os encanadores, eletricistas e marceneiros, que perdiam sua clientela, conclamarem a um boicote das lojas. "Foi uma tentativa patética de se opor ao boom", define Voges. Ao lado das atividades clássicas de pintura e instalação de piso, agora os entusiastas do "faça você mesmo" não hesitavam em reformar edifícios antigos inteiros ou projetar e montar o próprio mobiliário.

Na antiga Alemanha Oriental (RDA), onde não havia oferta de materiais e ferramentas em grande de escala, os pequenos aparelhos de construção eram artigos cobiçados no mercado negro. Para os alemães sob governo comunista, "faça você mesmo" era antes uma necessidade do que um hobby.

Na Alemanha Ocidental, porém, "consertar um pouco a sociedade" já era uma motivação: grupos de jovens acadêmicos, geralmente de esquerda, descobriram o DIY como veículo de protesto. "Acima de tudo, eles queriam que sua prática fosse entendida como movimento de oposição à sociedade consumista e industrial, e como protesto político." Segundo o historiador da Universidade de Hanover, até hoje a atividade tem muitas vezes um caráter político, e é impulsionada pela internet.

E as mulheres?

Até boa parte da década de 1980, o "faça você mesmo", em especial o manuseio de máquinas, permaneceu domínio de robustos machos de camisa quadriculada. "Pelo menos nas fontes da época, são exclusivamente homens a praticar essas atividades", confirma Jonathan Voges. "As mulheres prestam antes serviços de apoio: se o homem martela alguma coisa, elas podem segurar a peça."

Até mesmo a revista Selbst se chamava originalmente Selbst ist der Mann (algo como "O homem é dono de si"). Sua rubrica para as mulheres não continha mais do que dicas de decoração e trabalhos manuais para um lar acolhedor.

A publicação feminista Emma, por sua vez, conclamava as leitoras a porem mãos à obra - e às furadeiras. Hoje os mercados de material de construção organizam eventos exclusivos para mulheres, apresentando, por exemplo, uma chave de fenda elétrica ergonomicamente otimizada para a mão feminina.

De meados dos anos 1980 - o primeiro ápice do movimento de bricolagem na Alemanha - para cá, o entusiasmo nunca mais arrefeceu, observa o historiador: "As receitas das lojas de material de construção podem não crescer mais na ordem de dois dígitos, mas ainda assim aumentam de 2% a 3%. Para muitos, já é hábito passar os sábados nas lojas de ferragens. E eles consideram perfeitamente normal que não haja distinção de classes e, cada vez mais, de gêneros."

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