Câncer é contagioso em certas espécies animais, dizem cientistas

Pesquisa com mexilhões mostra que contágio interespécies é frequente no ambiente marinho e levanta a questão se o mesmo pode acontecer com seres humanos.

Cientistas dos Estados Unidos constataram que uma forma de câncer similar à leucemia pode passar de certos mexilhões para outras espécies animais. Os resultados dos estudos da equipe da Universidade de Colúmbia, em Nova York, liderada pelo microbiólogo e imunologista Michael Metzger, foram publicados nesta quarta-feira (22/06) na revista especializada Nature.

Segundo os pesquisadores, os tumores em questão demonstram notável capacidade de assegurar a própria sobrevivência e disseminação. Os experimentos se concentraram em três tipos de moluscos bivalves: Mytilus trossulus, Cerastoderma edule (mija-mija) e Polititapes aureus.

Quando o molusco contrai câncer, há células alteradas no seu sistema circulatório. Assim, a hemolinfa (equivalente ao sangue dos vertebrados) se adensa e se turva, e os tecidos ficam obstruídos.

Após a coleta dos espécimes na Espanha e no Canadá, os cientistas fizeram o diagnóstico oncológico e analisaram o material genético de células cancerosas e do tecido saudável para verificar se determinadas características genéticas coincidiam entre os dois.

Os pesquisadores constataram que não havia essa coincidência entre o tecido alterado e o saudável. Já os tumores em espécimes diferentes tinham as mesmas características genéticas. A conclusão é que as células cancerígenas se transmitiram de um animal para outro.

Na Polititapes aureus, Metzger e equipe encontraram até a assinatura genética de uma outra espécie, a Venerupis corrugata, na qual nunca foi constatado câncer em condições naturais.

Transmissão mais frequente do que se pensava

Os cientistas deduzem que, ao longo da evolução, a Venerupis encontrou mecanismos para combater o câncer, fazendo o tumor se transferir para outra espécie. "Nossos experimentos sugerem que a transmissão de células cancerígenas contagiosas é um fenômeno muito difundido no ambiente marinho", concluem os especialistas da Universidade de Colúmbia.

Até então, a transmissão interespécies de tumores era considerada uma exceção. Apenas oito linhas de contágio no mundo animal eram conhecidas: uma em cães, duas no marsupial australiano demônio-da-Tasmânia e cinco em quatro espécies de mexilhões.

A descoberta desse potencial das células cancerígenas, de se transformarem em agentes infecciosos autônomos, levanta a questão do papel desse mecanismo no contágio entre humanos, escreve Elizabeth Murchison, da Universidade de Cambridge, num comentário ao artigo na Nature.

Atualmente só se conhece esse tipo de transferência em situações específicas, como em transplantes de órgãos ou na gestação. Trata-se, contudo, sempre de casos isolados, nunca indo além dos dois indivíduos envolvidos. Ainda assim "o risco de câncer é inato nos organismos pluricelulares" e o "impulso evolutivo fundamental" da doença não respeita "limites individuais e nem mesmo limites entre as espécies", resume Murchison.

Nas últimas décadas, a pesquisa médica tem investigado, cada vez mais, até que ponto os tumores são provocados por infecções. Certos tipos de câncer têm como causa não só a transferência celular, mas também a por bactérias e vírus. Uma infecção com a bactéria Helicobacter pylori, por exemplo, pode gerar úlceras e câncer gástrico. Aos vírus da hepatite B ou C atribui-se o desenvolvimento de câncer hepático.

AV/dw/dpa/fs/cb

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