"Ainda é difícil lidar com os atentados de Breivik"

Wulf Wilde (fc)

Há cinco anos, o extremista norueguês Anders Breivik matou 77 pessoas em Oslo e na ilha de Utoya. Em entrevista, especialista lembra a perplexidade com que se reagiu aos ataques no país, considerado aberto e tolerante.

Há exatos cinco anos, o extremista de direita norueguês Anders Behring Breivik matou um total de 77 pessoas ao detonar um carro-bomba na capital Oslo e, em seguida, atirar em crianças e adolescentes num acampamento na ilha de Utoya.

Para a jornalista alemã Hannelore Hippe, que vive durante parte do ano na Noruega desde 1996 e pesquisou a fundo sobre os atentados de Breivik para uma grande reportagem, os noruegueses não esperavam que um compatriota fosse realizar um ato do tipo.

"Os noruegueses não conseguiam entender por que tal ato foi cometido justamente em seu país [...] Porque, em suas cabeças, a sociedade norueguesa é aberta e tolerante", afirma Hippe. Segundo a jornalista, ainda é difícil lidar com os ataques no país.

Deutsche Welle: Em 22 de julho de 2011, no dia dos ataques perpetrados por Anders Behring Breivik, você estava na Noruega. Como você e seus amigos noruegueses reagiram aos incidentes?

Hannelore Hippe: Naquela época, assim como todos os noruegueses, eu fiquei em estado de choque. Ficamos perplexos e realmente não compreendemos o que estava acontecendo naquela ilha. Os noruegueses não conseguiam entender de jeito nenhum por que tal ato foi cometido justamente em seu país e, ainda, por um de seus compatriotas. Porque, em suas cabeças, a sociedade norueguesa é aberta e tolerante.

Há uma resposta à pergunta: por que em um país, onde vigem a abertura e a tolerância, aconteceu um ato como esse?

Por conta da ocupação nazista na Segunda Guerra Mundial não há praticamente neonazistas na Noruega. Contudo, existe uma assim chamada cena anti-jihadista, que, em primeiro ligar, é islamofóbica. Jornalistas da Noruega que lidam de forma intensiva com a cena de extrema direita são da opinião de que foi mais por acaso que tal ato aconteceu na Noruega.

Eles acreditam que o caso de Breivik deva ser visto no contexto de uma cena de extrema direita muito maior, que dispõe de contatos em toda a Europa e também nos EUA. Isso significa que um ato do tipo pode acontecer novamente a qualquer momento e em outros lugares.

Se o ato de Breivik foi motivado por nacionalismo e xenofobia, por que então ele escolheu como alvo o acampamento da ala jovem do Partido Trabalhista na ilha de Utoya e matou crianças e adolescentes?

Na opinião dele, os então governantes social-democratas promoveram uma política de esvaziamento dos valores cristãos ou europeus por meio da igualdade de direitos dada a outras culturas e religiões, especialmente ao islã. Para ele, o Partido Trabalhista foi responsável pela chegada de imigrantes ao país. Ao matar membros da ala jovem dos social-democratas, Breivik queria impedir que eles mais cedo ou mais tarde pudessem ascender a posições de liderança do partido para continuar com a mesma política.

Quais efeitos os ataques tiveram sobre a sociedade norueguesa? O país mudou desde então?

A sociedade norueguesa não mudou de forma maciça ou evidente. Como antes, ela continua muito aberta. E nos últimos dois ou três anos a mídia pública abordou poucos temas que pudessem ofuscar essa imagem. Vozes críticas a assuntos como imigração, requerentes de asilo e sociedade multicultural desapareceram da mídia, e esses temas foram empurrados para a internet, ou melhor, para a darknet.

No entanto, o populista de direita Partido do Progresso, do qual Breivik foi membro por um longo tempo, está presente no governo desde a última eleição, em 2013. Naquela altura, houve uma guinada à direita na Noruega?

A mídia na Noruega nega isso e acredita que Breivik tenha unido a sociedade norueguesa na luta contra a extrema direita e a favor da democracia, transparência e abertura.

Como a Noruega lida com a memória sobre esse terrível evento?

Neste 22 de julho ocorrem homenagens em Oslo e na ilha de Utoya, e provavelmente também em outros lugares do país. Mas não é uma coisa enorme. Na vida cotidiana, o massacre de Utoya está muito pouco presente. A sentença sobre as condições de detenção de Breivik, proferida em abril, aflorou as memórias. Houve novamente um grande debate público.

Como foi a reação à decisão do Tribunal de Oslo, que determinou que as condições prisionais de Breivik violam o artigo 3º da Convenção Europeia dos Direitos Humanos, que proíbe tratamento desumano e degradante?

Houve uma enorme indignação. Perguntamo-nos: como este assassino em série, que matou friamente 77 pessoas, entre elas crianças e adolescentes, pode se atrever a falar em dignidade humana? E isso levando em conta que ele tem à disposição uma cela especial de três cômodos.

Há também um debate público sobre o memorial planejado para a ilha de Utoya. Por que a construção foi novamente adiada?

Há críticas maciças ao conceito do artista sueco Jonas Dahlberg, que quer abrir uma brecha num pontal da ilha e criar, assim, uma ferida simbólica. Os moradores da ilha, especialmente, se incomodam com o conceito. Eles dizem: "Nós vivemos com essas lembranças, mas não queremos ter que ver isso todos os dias."

Eles querem outro tipo de memorial, e essa controvérsia não foi resolvida até hoje. Aparentemente, ainda é difícil lidar com os ataques e fazer jus a todas as vítimas e envolvidos.

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