Acusação de sexismo abala partido de Merkel

Rahel Klein (md)

Política jovem provoca controvérsia interna ao denunciar ambiente sexista na CDU e afirmar que já foi alvo de comentários machistas e difamações. Alguns a apoiam, outros a acusam de divulgar "falsidades e intrigas".É uma manhã de sexta-feira (23/09) quando um artigo da revista online Edition F provoca alvoroço. A autora do texto é Jenna Behrends, de 26 anos, estudante de Direito, há um ano e meio integrante do partido da chanceler federal Angela Merkel, a União Democrata Cristã (CDU), e recém-eleita para a câmara distrital do bairro de Mitte, em Berlim. "Caro partido, cara CDU de Berlim: nós precisamos conversar", diz o texto. "Sobre a forma como você lida com as mulheres e põe em risco seu futuro", prossegue. A jovem política denuncia no artigo haver sexismo em seu novo lar político. Ela escreve sobre difamação ("a jovem mulher que é constantemente confrontada com rumores sobre seus supostos casos, ela de fato existe") e sobre um político local, correligionário de Behrends, que a chamou de grosse süsse Maus [algo como "camundongo grande e docinho". Em alemão, camundongo é uma expressão usada para se referir a crianças ou à pessoa querida] e que também perguntou a um colega se ele teria tido relações sexuais com Behrends, usando uma palavra de baixo calão. Dias depois, ficou claro que ela se referia a Frank Henkel, na época do ocorrido ainda secretário do Interior de Berlim. Mas as acusações de Behrends não são dirigidas apenas contra os homens de seu partido. A política delata que é vista pela Frauen-Union, grêmio representativo das mulheres da CDU, como uma "carreirista gananciosa", como ela afirma. "Embora eu, no início, me incomodasse mais com as acusações de ter subido na carreira usando a cama como trampolim, estou hoje incerta se não devo achar ainda mais aniquiladoras a acusação 'você é muito ambiciosa', vinda de outra mulher." Reações opostas Desde então, dezenas de artigos foram publicados na imprensa alemã sobre a jovem política, algumas entrevistas com ela e inúmeras reações. Algumas de apoio, mas também críticas sobre essa maneira direta e pública de debater um tema. Henkel, por sua vez, expressou surpresa e se disse "um pouco decepcionado sobre o conteúdo e estilo desta carta aberta". Ele não negou as acusações e anunciou que sua porta está aberta para uma conversa com Behrends. Sandra Ceg?a, presidente da Frauen-Union em Berlim, apimentou ainda mais a história ao classificar Behrends como uma "personalidade duvidosa", que divulga "falsidades e intrigas". Em resposta, foi muito criticada nas redes sociais. De acordo com o jornal Berlin-Kurier, Ceglam ficou indignada por Behrends estar se apresentando como uma combatente do sexismo. "Justamente Jenna, que usa seus encantos femininos sobre os homens e quase senta no colo deles – isso é um escárnio", afirmou Ceg?a, segundo o periódico. O caso Behrends parece dividir a CDU berlinense em dois campos: aquele que coloca a credibilidade da jovem em dúvida, acusando-a de ter sede de poder e de produzir intrigas, e outro que apoia Behrends e que leva a sério sua causa. O político da CDU berlinense Florian Noll disse, logo após a publicação da carta, que a situação "é, na verdade, ainda pior". Apoio do secretário-geral O secretário-geral da CDU, Peter Tauber, sinalizou apoio. Ao jornal Bild am Sonntag, ele declarou no domingo que repetidamente ouve histórias do tipo sem que nomes sejam citados, o que torna difícil fazer algo contra a situação. "Tanto mais importante que agora haja esse debate", comentou, acrescentando que o sexismo não é apenas um problema no meio político. Porém, na terça-feira, o jornal Süddeutsche Zeitung publicou que o próprio Tauber já participou de conversas por e-mail nas quais foram usadas expressões pouco lisonjeiras para se referir a mulheres de seu partido. Em 2012, numa troca de e-mails com correligionários, estes se referiram a colegas mulheres como "pseudoengajadas" e "do ponto de vista ótico, um ganho". Tauber não os repreendeu. Além disso, Ceglam declarou que Behrends contou a ela, numa conversa privada, ter tido um caso com o secretário-geral e afirmou que a própria jovem espalha que teve relacionamentos com colegas de partido. Behrends nega. Já Tauber afirmou ao Bild am Sonntag que apenas flertou com Behrends e que logo ficou claro, para ele, que ambos não seriam mais do que amigos. A blogueira e feminista Anne Wizorek disse ser "muito importante" que Behrends tenha dado esse passo e iniciado o debate. Ela saudou o apoio de Tauber, mas sublinhou que não basta reconhecer que o problema existe e que soluções concretas devem ser apresentadas. Wizorek escreve há anos sobre sexismo na sociedade alemã. Behrends disse ao jornal Die Welt que não esperava tanta ressonância e acrescentou que diversas vezes tentou debater o problema dentro do partido, mas não obteve sucesso. Ela enfatizou que não pretendia atingir uma pessoa específica. "O problema não foi um comentário que eu ouvi, isso eu posso simplesmente ignorar. Eu estava me referindo a um clima generalizado."

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