Opinião: Tempo para as vítimas do atentado em Berlim

Naomi Conrad

Suposto autor de ataque a feira natalina foi morto pela polícia italiana. Até as investigações oficiais estarem concluídas é cedo demais para especulações, e é hora de pensar nas vítimas, opina a jornalista Naomi Conrad.Está morto o homem cujas impressões digitais foram encontradas no volante do caminhão com que foram mortas 12 pessoas e dezenas, feridas, numa feira de Natal em Berlim – detonando, assim, nossa agitada e alegre época pré-natalina. Como já confirmaram o ministro italiano do Interior e o procurador-geral da Alemanha, ele foi abatido a tiros por um policial de Milão. O tunisiano Anis Amri era considerado o principal suspeito do atentado – era considerado, devemos sempre lembrar, pois as investigações continuam transcorrendo. Ainda não há certeza de que Amri foi o autor do ataque, embora muito aponte nessa direção. Por isso, ainda é cedo demais para perguntar por que um homem considerado uma ameaça pelas autoridades pôde se conectar em rede com outros fundamentalistas islâmicos e, segundo parece, escapar nas últimas semanas do radar das forças de segurança alemãs. É também cedo demais para se indignar por a Tunísia – que, afinal, já se comprometera a receber de volta seu cidadão, o qual tivera permanência negada na Alemanha – ter demorado tanto para enviar os documentos para a deportação. E é definitivamente cedo demais para exigir que se repense a política para refugiados como um todo, como se ela não tivesse ficado cada vez mais restritiva nos últimos meses. Claro, todas essas questões precisam em algum momento ser colocadas e discutidas objetivamente. Possivelmente será preciso tirar consequências e considerar como garantir mais segurança sem restringir liberdades fundamentais nem acirrar ressentimentos. Será um equilíbrio difícil de alcançar, no ano das eleições legislativas, e para muitos – não só do partido populista de direita Alternativa para a Alemanha (AfD) – será grande a tentação de rotular paulatinamente determinados grupos étnicos, os refugiados e os muçulmanos em si como criminosos e terroristas em potencial, incitando ao ódio. E também nós, a mídia, precisamos considerar nosso noticiário criticamente e nos perguntar por que, antes mesmo da confirmação oficial pelas autoridades, tantos de nós publicamos os nomes e fotos do primeiro e depois do segundo suspeito. Porque queríamos informar o público com fatos fundamentados? Ou porque queríamos ser os primeiros na febre de cliques e tweets? Todos teremos que nos dispor a uma discussão sóbria, a qual garanta que o nosso medo não descambe para algo que, no fim das contas, envenenará a sociedade, só exacerbando preconceitos e ódio. Pois supõe-se que tenha sido justamente isso o que o autor do atentado desejava. Portanto, nada de especular agora. Só quando as investigações estiverem concluídas, a base factual e os acontecimentos inteiramente esclarecidos, só aí será hora de se confrontar com questionamentos. Portanto empreguemos o tempo até lá para homenagear as vítimas, a fim de que elas não naufraguem no dilúvio de especulações, acusações e suspeitas. Elas não mereceram isso. Que nossos dias de Natal, portanto, sejam de contemplação, no melhor sentido da palavra.

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