Descontentamento social na Rússia pode se tornar problema para Putin

Fiona Clark

  • AFP PHOTO/ RIA-NOVOSTI / POOL / ALEKSEY NIKOLSKY

No cenário internacional, presidente russo obteve grandes êxitos. Mas, internamente, 2017 poderá ser difícil para ele, devido ao aumento da parcela da população que vive abaixo da linha da pobreza e ao avanço da Aids.

Este foi um grande ano para o presidente da Rússia, Vladimir Putin. A única coisa que ele tem a lamentar é não ter sido escolhido mais uma vez a pessoa mais influente do ano pela revista Time, quando provavelmente deveria ter sido. Afinal, o presidente eleito dos EUA, Donald Trump, possivelmente não estaria onde está hoje sem a ajuda do Kremlin.

Mas Putin colecionou grandes êxitos consecutivos: a tomada do controle da cidade síria de Aleppo, a desintegração da Europa no momento em que o bloco deveria estar mais unido e a eleição do homem que ele queria como o líder do mundo livre. Como não celebrar?

Contudo, há uma série de ingredientes que não farão parte do brinde de Ano Novo do presidente russo: óleo de verbena, água, removedor de esmalte, enxaguante bucal e limonada. Mas para um número cada vez maior de seus compatriotas, esses são exatamente os itens que farão parte da lista de compras.

Ao longo das últimas semanas, dezenas de pessoas morreram na Rússia ao beber uma loção de banho. Ela geralmente contém álcool etílico, também conhecido como etanol, e custa 18 rublos (cerca de 1 real) por litro – muito mais barato que uma garrafa de vodca (200 rublos ou cerca de 11 reais). Mas, de alguma forma, o etanol foi substituído pelo tóxico metanol, o que levou à morte de 60 pessoas de uma mesma cidade em uma semana.

São 60 pessoas a mais para se somar à taxa de 15 mil mortes anuais por envenenamento por álcool. E esse número corresponde apenas às pessoas que morreram por intoxicação após consumirem álcool, não inclui as mortes relacionadas, como acidentes de carro, violência e afogamentos acidentais.

Aumento da população pobre

Assim como aqueles que beberam a loção de banho, nessa estatística estão frequentemente os mais pobres da Rússia – e seu número está crescendo rapidamente. Em 2014, antes de sanções serem impostas à Rússia após a anexação da Crimeia, cerca de 16 milhões de pessoas viviam abaixo da linha da pobreza do país. No primeiro trimestre de 2016, esse número havia aumentado para quase 22 milhões – ou 15,7% da população de cerca de 140 milhões de pessoas. 

Uma pesquisa com 1.500 russos no início deste ano mostrou que 70% consideram a inflação e o aumento de preços os problemas mais agudos, segundo a agência de notícias Interfax. Já 66% dos entrevistados afirmaram estar preocupados com a pobreza e os baixos salários, e 41% apontaram o desemprego como maior problema.

Outro levantamento realizado em julho pela Escola Superior de Economia de Moscou mostrou que 41% das famílias russas lutavam para conseguir dinheiro para comprar comida ou roupas, sendo que 23% descreveram sua situação como "ruim" ou "muito ruim".

Além do problema da pobreza, o Estado virou as costas para aqueles que sofrem de doenças consideradas socialmente inaceitáveis, como a aids. Recentemente, a cidade de Yecaterimburgo afirmou que vivia uma epidemia de HIV, com uma em cada 50 pessoas sendo testadas como soropositivas.

No início de 2016, a Rússia registrou 1 milhão de pessoas infectadas pelo HIV. De acordo com o chefe do Centro Federal de Aids no país, Vadim Pokrovsky, pode haver entre 1,4 e 1,5 milhão de pessoas infectadas – ou cerca de 1% da população. E ele advertiu que, sem uma estratégia séria de combate, o número poderia subir para 3 milhões em 2020.

Tapar o sol com a peneira

O governo lançou uma estratégia contra o HIV que está muito aquém da meta de tratamento 90-90-90, do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids): até 2020, 90% das pessoas infectadas pelo HIV estarem diagnosticadas, 90% destas estarem em tratamento com antirretrovirais e 90% daqueles que recebem drogas antirretrovirais terem supressão viral (quando a carga viral torna-se indetectável).

Em vez disso, a Rússia optou pela meta de tratamento 60-60-60 e recusou a permissão de programas de metadona (para tratar a dependência de heroína) ou apoiar oficialmente programas de troca de seringas. Em vez disso, o Ministério da Saúde falou sobre como auxiliar seus jovens a escolher estilos de vida moralmente corretos.

Com a estratégia de tapar o sol com a peneira, a Rússia deve se tornar um dos poucos países onde o crescimento do HIV é, atualmente, mais rápido entre os heterossexuais que não são dependentes de drogas. Eles terão relações sexuais com um viciado em drogas e, quando forem para casa, vão infectar seus parceiros ou parceiras.

Para piorar, os conservadores russos classificaram o uso a camisinha como uma das principais razões para o aumento das taxas de HIV, dizendo que elas encorajam a promiscuidade.

Assim, enquanto Putin desfila no cenário mundial como o homem do ano, em 2017 ele pode ter que voltar sua atenção para problemas mais perto de casa. Ainda que não exista oposição política de mérito na Rússia, neste momento, certamente há descontentamento social – e isso pode transformar 2017 num annus horribilis para Putin.

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