Os caminhos da cocaína que sai do Brasil para a Europa

Clarissa Neher

  • Divulgação/Polícia Rodoviária Federal do Paraná - 22.mai.2015

    Polícia Rodoviária Federal apreende em carretas centenas de quilos de cocaína e de maconha, em Alto Paraíso (PR)

    Polícia Rodoviária Federal apreende em carretas centenas de quilos de cocaína e de maconha, em Alto Paraíso (PR)

Facções criminosas brasileiras lutam pelo controle de um mercado crescente, que movimenta bilhões de reais, tem participação do crime organizado de vários países e conta com rotas complexas por terra, ar e mar.

A onda de violência em penitenciárias, que deixou mais de cem mortos em motins no Norte e Nordeste do país no início deste ano, chamou a atenção para a força do narcotráfico no Brasil e para a guerra travada pelas facções pelo controle de um mercado crescente, estimado em bilhões de reais.

Nos últimos anos, o Brasil se tornou o principal país de trânsito para o escoamento da cocaína sul-americana para a Europa – a droga que vai para os EUA, outro grande mercado, passa sobretudo pela América Central.

Segundo levantamento de 2016 da Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados, a cocaína movimenta, por ano, R$ 4,6 bilhões no Brasil. "Há dez anos, o comércio entre a América do Sul e a Europa vem crescendo, e os traficantes usam essa oportunidade para esconder a cocaína entre as mercadorias", afirma Laurent Laniel, analista do setor de mercados, crimes e redução de fornecimento do Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência (EMCDDA).

Até 2008, a Venezuela era o principal país de trânsito da cocaína rumo à Europa, com 51% do volume transportado, como mostrou o relatório anual do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes (UNODC), publicado em 2010. Na época, o Brasil era responsável por apenas 10% do tráfico marítimo. Com o declínio da produção na Colômbia, maior produtora mundial, e o aumento na Bolívia e no Peru, o Brasil foi ganhando destaque nesse mercado ilegal.

Em 2012, a UNODC já indicava uma possível mudança nas rotas do tráfico, incluindo a África como ponto de trânsito. "Nesta época, a mudança indicava um controle maior na rota do Caribe, o que dificultou o transporte por lá. A África Ocidental é muito próxima da América do Sul, e a situação política em vários países da região facilitava o suborno de autoridades para que a mercadoria desembarcasse livremente", diz Judith Vorrath, pesquisadora do Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e de Segurança (SWP).

Em 2015, a UNODC apontou o Brasil como a principal porta de saída na rota de escoamento da cocaína sul-americana em direção à Europa e, em 2016, numa revisão dos dados, indicou que o Brasil já havia assumido essa posição em 2009. Laniel afirma que, além da proximidade do Brasil com regiões produtoras, a corrupção em portos e aeroportos nos dois lados do Atlântico contribui para impulsionar o tráfico de cocaína em direção à Europa.

Crime organizado internacional

Neste mercado, que movimenta pelo menos 5,7 bilhões de euros por ano na Europa, segundo uma estimativa do EMCDDA, traficantes brasileiros operam em conjunto com organizações criminosas internacionais, como a máfia italiana.

Em 2014, uma operação deflagrada pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal (MPF) revelou a ligação de traficantes com a máfia Ndrangheta, da Calábria, que contava, inclusive, com intermediadores no Brasil. O esquema usava o Porto de Santos para o escoamento da droga.

"A máfia italiana tem apenas players num mercado muito competitivo. Diferentes atores participam de uma ou duas fases na cadeia do tráfico. O mercado de drogas é um mercado aberto, onde é impossível estabelecer monopólios ou mesmo oligopólios", afirma Francesco Calderoni, pesquisador do Centro de Pesquisa sobre Crimes Transnacionais da Universidade Católica de Milão.

Além da Ndrangheta, há indícios de envolvimento da máfia Camorra, de Nápoles, no tráfico. O grupo é ativo especialmente na cidade portuária alemã de Hamburgo. "A máfia italiana tem capacidade de trazer grandes quantidades de drogas e distribuí-las na Europa, porque tem uma rede grande de contatos no Brasil e em países produtores de cocaína e cooperam com organizações criminosas de outros países europeus, como França, Alemanha, Holanda e Reino Unido", explica Laniel.

Além de cooperações, as organizações criminosas de diversos países europeus também competem entre si neste mercado. Segundo Laniel, nos últimos anos, o crime organizado albanês vem ganhando espaço. O especialista acrescenta que a cadeia do tráfico é extremamente especializada, com organizações responsáveis por diferentes fases, desde a compra da cocaína junto ao produtor até a venda para o consumidor europeu. Essa divisão conta ainda com grupos que prestam serviços de segurança aos envolvidos no processo.

Principais rotas

Segundo a coordenadora da Câmara Criminal do MPF, a subprocuradora-geral da República Luiza Frinscheisen, há várias dinâmicas no tráfico da cocaína para a Europa, que incluem diferentes rotas e meios de escoamento. Autoridades internacionais identificaram duas rotas principais: a direta e a que passa por países africanos.

Na primeira, a droga chega em navios, aviões de carga ou com "mulas" – que levam a mercadoria escondida no corpo ou na bagagem. Apesar da vantagem do desembarque da mercadoria direito no país de destino, a via aérea é menos utilizada por traficantes brasileiros. Sua rota preferida é a marítima, pois possibilita o envio de um grande volume de drogas escondido em contêineres.

A cocaína costuma ser embarcada nos portos de Santos e Paranaguá, entre outros. Seu destino são portos em Portugal, Espanha, Alemanha, Holanda, Bélgica, Itália, França e Reino Unido, com destaque para o porto holandês de Roterdã, onde grandes apreensões foram feitas nos últimos anos.

"A princípio, tudo que não parece suspeito é usado com esconderijo para a droga. Na maioria das vezes, a cocaína é camuflada em outros produtos, como móveis, artigos de decoração, alimentos perecíveis, máquinas e também no próprio navio. Encontramos cocaína em todas as mercadorias clássicas que são transportadas", afirma Wolfgang Schmitz, porta-voz da Alfândega da Alemanha.

Com milhões de contêineres desembarcando anualmente e a grande concorrência entre portos, que procuram oferecer a liberação mais rápida dos produtos para atrair clientes, o controle minucioso das mercadorias é limitado na Europa. "Uma inspeção demora, e há muitas mercadorias perecíveis que precisam ser liberadas rapidamente, por isso, é preciso ter uma suspeita muito grande para que seja feita uma vistoria abrangente num contêiner", ressalta Laniel.

Rodovia 10

A segunda rota utilizada por traficantes brasileiros é mais sofisticada e inclui países da África Ocidental como pontos de trânsito. Através do caminho que ficou conhecido como Rodovia 10, em referência ao paralelo 10, a cocaína é transportada do Brasil à costa ocidental africana, e de lá segue para a Europa.

Assim como no caminho direto, a droga é escoada, principalmente, em navios, descarregada em portos ou na costa antes de atracar. Os países de entrada são, principalmente, Guiné, Guiné-Bissau, Gana e Nigéria, além de Cabo Verde e Ilhas Canárias.

"A Nigéria é importante na rota, porque, por um lado, há muito contrabando pelo país e, por outro, há redes de crime organizado nigerianas que alcançam a América do Sul e chegam até a Europa", conta Vorrath, que é especialista em crime organizado.

Dos países africanos, a mercadoria é transportada por navio, aviões e também por terra através do continente em direção ao destino europeu. A geografia é uma grande vantagem do transporte terrestre. Rotas de contrabando por meio do Saara são usadas por traficantes. Esses caminhos, em direção ao norte, exigem conhecimento local. Espanha e Itália são as principais portas de entrada europeia nesse percurso.

Já na Europa, tanto por uma ou pela outra rota, a droga é distribuída pelos países por via terrestre, escondida em caminhões e vans, mas há também quem use caminhos marítimos que levam a cocaína para outros portos da região.

E, nesse percurso todo, o valor da cocaína explode. O quilo, que no Brasil custava em média cerca 8,5 mil euros – segundo dados da agência da ONU de 2011 – chega à Alemanha, por exemplo, a 90 mil euros, dependendo da pureza da droga.

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