Hitler foi acusado de crimes de guerra antes de morrer, revela livro

  • Getty Images/ Hulton Archives

    Hitler em foto de 1936

    Hitler em foto de 1936

Publicação mostra que comissão das Nações Unidas determinou responsabilização do ex-ditador nazista por extermínio de judeus ainda antes do fim da Segunda Guerra. EUA e Reino Unido sabiam do Holocausto, mas não agiram.

Um livro recém-lançado pela Universidade de Georgetown revela que o ex-ditador nazista Adolf Hitler foi acusado de crimes de guerra quando ainda era vivo, e denuncia que os Estados Unidos e Reino Unido quase nada fizeram para impedir o Holocausto, apesar de saberem dos horrores dos campos de concentração.

A revelação feita pelo acadêmico britânico Dan Plesch no livro "Diretos humanos depois de Hitler" muda drasticamente o entendimento histórico sobre a condenação do extermínio de judeus europeus durante a Segunda Guerra Mundial.

"Os documentos derrubam uma das verdades mais aceitas em relação ao Holocausto, a de que, apesar dos esforços heroicos de quem conseguiu fugir da Europa ocupada pelos nazistas, os Aliados nunca aceitaram oficialmente a realidade do Holocausto e, assim, nunca condenaram a prática até a liberação dos campos de concentração no fim da guerra", escreve o diretor do Centro de Estudos Internacionais e Diplomacia da Universidade de Londres.

O escritor teve acesso a arquivos restritos da Comissão de Crimes de Guerra das Nações Unidas, estabelecida durante a Segunda Guerra. O nome de Hitler aparece na primeira lista de criminosos de guerra da organização, produzida em dezembro de 1944 como resultado de acusações trazidas pela Tchecoslováquia, na época sob ocupação nazista.

De acordo com o livro, a comissão determinou que Hitler fosse responsabilizado pelos atos do regime nazista nos territórios ocupados. Em março de 1945, um mês antes da morte do ditador, "a comissão aprovou ao menos sete acusações contra ele por crimes de guerra".

Plesch liderou uma campanha para garantir acesso irrestrito aos arquivos da comissão. Em entrevista à agência de notícias Associated Press, o escritor afirmou que os documentos mostram que "os Aliados estavam preparados para acusar Hitler como chefe de Estado". "E isso muda boa parte do que pensávamos que sabíamos sobre ele", ressaltou.

O livro inclui uma cópia de um documento de 15 de dezembro de 1944 entregue à comissão pela Tchecoslováquia, que acusa Hitler e cinco membros do Terceiro Reich de crimes como "assassinatos e terrorismo de massacres sistemáticos". Entre eles estão Rudolf Hess e Heinrich Himmler, dois dos nazistas mais responsáveis pelo Holocausto.

Resposta ao Holocausto

A Comissão de Crimes de Guerra das Nações Unidas foi estabelecida em outubro de 1943 por 17 países aliados para produzir listas de criminosos de guerra, analisar as denúncias e garantir a prisão e julgamento dos acusados. Os documentos reúnem 37 mil nomes.

Os arquivos que não possuíam restrições dão conta de 10 mil casos de crimes de guerra e foram disponibilizados na internet pela Corte Penal Internacional em julho de 2013. Três meses depois, a embaixadora americana Samantha Power anunciou que os arquivos restritos, que contêm 30 mil documentos submetidos por cortes nacionais e militares, seriam entregues ao Museu do Holocausto, em Washington.

No livro, Plesch afirma categoricamente que documentos legais e entrevistas com vítimas de tortura "provam sem sombra de dúvida" que os governos dos Estados Unidos e do Reino Unido sabiam da existência de campos de extermínio desde os primeiros anos da Segunda Guerra. No entanto, não fizeram praticamente nada para impedir as mortes em massa.

As primeiras condenações públicas sobre as atrocidades cometidas pelos nazistas foram feitas numa declaração conjunta entre os governos da Tchecoslováquia e Polônia em novembro de 1940. Em 1942, os governos americano, britânico e soviético expressaram junto com aliados uma declaração pública que "condenou explicitamente o extermínio de judeus europeus em curso por Hitler".

O livro também documenta que detalhes do extermínio eram de conhecimento das autoridades, como o uso de gás letal e o principal palco das execuções: a Polônia.

Falta de punição

Apesar de não ser o objetivo principal do livro, Plesch questiona por que as condenações do extermínio de judeus não são amplamente trazidas a público e não estão presentes na maioria das narrativas de acadêmicos sobre o Holocausto.

Uma possibilidade, ele diz, é que "setores significativos dos governos dos Estados Unidos e Reino Unido se opunham diretamente a fazer qualquer coisa para ajudar os judeus ou a dar suporte a processos por crimes de guerra".

Além de membros da cúpula nazista, centenas de soldados alemães que conduziram as atrocidades foram acusados pela comissão das Nações Unidas ainda durante o Holocausto.

O autor coletou acusações apresentadas no início de 1944 país a país: 372 casos foram submetidos contra a Alemanha pela Polônia, 110 pela Holanda, 91 pela França, 52 pela Tchecoslováquia, 30 pela Iugoslávia, 21 pelo Reino Unido, 18 pela Bélgica, 14 pela Dinamarca e 12 pela Grécia. Também há casos submetidos pelo Japão e Itália.

"Milhares de soldados foram julgados por crimes de guerra depois da Segunda Guerra Mundial", diz o livro. No entanto, "os arquivos da comissão contêm acusações contra milhares de nazistas que ficaram sem punição".

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