"Mudança do clima propicia alastramento do terrorismo"

Irene Baños Ruíz (av)

Em contextos de instabilidade, as alterações do clima podem contribuir para a emergência de grupos armados não estatais. Em entrevista à DW, coautor de estudo sobre o tema aborda essa correlação.Os rios e reservas d'água da Síria sob controle da organização jihadista "Estado Islâmico" representam um exemplo tão dramático quanto atual da combinação entre conflitos violentos e elementos ambientais de importância vital, cuja disponibilidade vem sendo diretamente afetada pela progressiva alteração do clima global: recursos naturais estão sendo usados como armas de guerra. O Ministério alemão do Exterior encomendou um relatório analisando as correlações entre a mudança climática e o crescimento dos grupos armados não estatais em cenários de instabilidade e conflito, como o Afeganistão ou a Bacia do Chade. Em entrevista à DW, um dos autores, Lukas Rüttinger, expõe algumas das principais constatações. DW: O que se quer dizer ao descrever a mudança do clima como um "multiplicador de ameaças"? Lukas Rüttinger: A mudança climática interage com outras pressões que afetam as sociedades e os Estados, aumentando os riscos existentes de fragilidade e conflito. Ela pode, por exemplo, exacerbar a insegurança de subsistência e contribuir para conflitos em torno de recursos naturais como água e terras. Em suma, a alteração do clima multiplica riscos de segurança existentes e aumenta a complexidade de situações instáveis, uma vez que fatores ambientais interagem com fatores sociais, políticos e econômicos. Mais concretamente: como a mudança climática está conectada ao terrorismo? A mudança do clima não gera terroristas ou rebeldes, mas cria um ambiente que lhes permite emergir e crescer. Em áreas onde falta ao Estado autoridade ou capacidade de prover segurança e serviços básicos, grupos armados não estatais operam com maior liberdade. Eles aproveitam os pontos fracos do Estado e os minam ainda mais. Por outro lado, o impacto da mudança climática ou de recursos naturais, como terra ou água, aumenta a insegurança subsistencial das populações locais, sobretudo das que dependem de setores sensíveis ao clima como a agricultura. Quem perde seus meios de subsistência se torna mais vulnerável ao recrutamento por grupos terroristas, que podem oferecer incentivos econômicos em forma de pagamento ou atender às queixas das populações locais. Entre as que se sentem excluídas ou marginalizadas pelo governo, os terroristas podem oferecer, por exemplo, perspectivas aos jovens que não têm emprego e acreditam que o Estado não os ajuda. De que modo recursos naturais podem ser usados como "armas de guerra"? Como a mudança do clima tem impacto negativo crescente sobre os recursos naturais, eles se transformam numa valiosa fonte de poder. Nessas situações, os terroristas podem usar a água como tática, por exemplo, controlando as reservas hídricas, causando enchentes ou ocupando infraestruturas cruciais, como as represas. O "Estado Islâmico" (EI), por exemplo, controla os rios e reservas d'água na Síria. Sua equipe analisou a ligação entre mudança climática e conflitos violentos na Bacia do Chade, Síria, Afeganistão e Guatemala. Quais são as semelhanças entre esses casos? A mudança age de maneira similar, ao gerar fragilidade e minar a subsistência. Esses mecanismos criam um ambiente em que podem se desenvolver grupos armados muito diversos. Os do crime organizado na América Central são muito diferentes do EI ou do Boko Haram, mas as causas primeiras têm semelhanças, no tocante ao impacto da mudança climática. Então o esquema também se aplica à violência fora dos conflitos armados? A palheta dos grupos armados não estatais é muito ampla, incluindo organizações como o Boko Haram ou o "Estado Islâmico", rebeldes como os talibãs no Afeganistão ou os grupos criminosos na América Central, onde representam séria ameaça à segurança. Em alguns países centro-americanos, o número de mortes causadas por esses grupos à comparável aos das vítimas de conflitos armados pelo mundo. Olhando a partir da Europa, esses problemas podem parecer um pouco longe demais para nós. Por que nós deveríamos importar com eles? Os grupos terroristas não estão tão longe de nós, na realidade, e têm alcance global. As crises do planeta, seja no Chade ou na Síria, chegam até nós através dos refugiados; mas também nossos interesses internacionais são afetados em termos de segurança e desenvolvimento econômico. O número de crises cresce, e já estamos tendo dificuldade de lidar com elas. Se não levarmos em consideração a complexidade dos problemas, não conseguiremos prevenir novas crises, ou sequer dar conta das que já estamos presenciando. Na Europa, a discussão atualmente não é se esses problemas nos interessam, e sim sobre o que se pode de fato fazer para encará-los. O que se pode fazer para encarar esses problemas? No momento, as ameaças à segurança, em geral, e o terrorismo em particular, são bastante centrais. Não há uma compreensão profunda e abrangente da dinâmica e interação dos diferentes fatores por trás desses fenômenos. Para projetar estratégias que realmente os abordem e lidem com eles, precisamos ampliar nossa perspectiva e compreensão dos fatores ambientais, políticos, econômicos e sociais. As soluções devem igualmente refletir a multidimensionalidade dos riscos. Na prática, isso significa que, ao incrementarmos os fundos humanitários em reação às crises, nós realmente temos que assegurar que esses fundos sejam sensíveis em termos de conflitos e do clima, e que levem em consideração ambos os lados da medalha. As soluções não se atêm ao campo da segurança: se quisermos abordar esses problemas, temos que nos assegurar que a cooperação para o desenvolvimento e a assistência humanitária estejam atacando o problema correto.

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