"Qualquer ataque significará uma resposta imediata da Coreia do Norte"

Diego Zúñiga (md)

Em entrevista à DW, Alejandro Cao de Benós, presidente da Associação de Amizade com a Coreia, adverte que um ataque contra o país pode causar uma resposta nuclear de Pyongyang contra as bases americanas no Pacífico.

A imprensa o chama de "embaixador ocidental" da Coreia do Norte, embora Alejandro Cao de Benós não tenha esse cargo. Mas possui nacionalidade norte-coreana, além da espanhola, é apresentado como "representante especial" desse país e há quase 30 anos vem divulgando as virtudes que vê no regime de Pyongyang.

Benós também é presidente da Associação de Amizade com a Coreia, entidade que o permitiu viajar constantemente entre seu país natal e a terra de Kim Jong-un. Isto, até a Justiça espanhola confiscar-lhe o passaporte, devido a suposto envolvimento em tráfico de armas. Em entrevista à DW, Cao de Benós diz que a Coreia do Norte "não é a Síria", e que está pronta a retaliar, caso seja agredido pelos EUA.

"Qualquer ataque, por menor que seja, significará uma resposta imediata, com mísseis nucleares", afirma.

DW: Fala-se de guerra nuclear. Não parece algo um tanto duro neste momento da história?

Alejandro Cao de Benós: Duro é um império como os Estados Unidos, de forma unilateral e quando bem entende, massacrar civis em qualquer lugar do mundo. E o mais incrível é que ninguém lhe põe freios. A primeira potência mundial, a que tem mais mísseis nucleares, a única que usou bombas atômicas contra civis na história, se coloca como vítima. O que faz a Coreia do Norte é usar seu poder de dissuasão para avisar que não é a Síria e que qualquer ataque, por menor que seja, significará uma resposta imediata, com mísseis nucleares. 

Por menor que seja?

Vamos ver. Se for um tiroteio na fronteira, não vai levar a uma escalada total. Mas algo no estilo "mãe de todas as bombas" ou 50 mísseis Tomahawk, obviamente, sim. A primeira coisa que a Coreia do Norte faria era destruir as bases dos EUA no Pacífico, e isso exige mísseis nucleares poderosos.

E eles os têm?

Eu pergunto, porque sempre há dúvida sobre isso, além dos testes nucleares. Sem dúvida, porque a Coreia [do Norte] já fez cinco testes nucleares confirmados pelos próprios cientistas americanos. E sobre os mísseis, também não há dúvida, porque nós colocamos vários satélites em órbita, e a tecnologia para colocar satélites em órbita é basicamente a mesma usada num míssil intercontinental. A única diferença é que, em vez de se colocar um satélite na ponta desse míssil, se coloca uma ogiva nuclear.

Qual é o risco de uma guerra realmente começar?

Acho que só há uns 5% de chance, porque os EUA não vão se atrever a tocar na Coreia do Norte. Bem, na verdade eles estão fazendo um papel ridículo diante do mundo, porque o porta-aviões nuclear Carl Vinson, que supostamente ia em direção à Coreia, estava na realidade indo para a Austrália. Portanto, o presidente Donald Trump ou não sabe onde estão seus porta-aviões ou tem medo. O que está claro é que há muito de Hollywood em Trump.

Será que vamos ter que nos acostumar a essas ameaças de guerra?

Acho que vai ser uma política habitual. Não esperávamos que Trump se comportasse assim, mas parece que o declínio da sua popularidade o está levando a ter de se apresentar como um presidente mais ao estilo [Ronald] Reagan, não é? Essa fórmula sempre funciona nos Estados Unidos, para ganhar votos. Nos últimos anos, a Coreia do Norte se abriu ao turismo internacional.

Por quê?

A Coreia do Norte sempre foi muito aberta a turistas estrangeiros, mas a contrapropaganda, mentiras e sensacionalismo são tão grandes que a maioria das pessoas não sabe que você pode visitar o país a qualquer momento, até mesmo os americanos.

Quais atrações turísticas o país possui?

Em primeiro lugar, é um país completamente seguro, e as pessoas são fantásticas. É uma sociedade que conserva sua cultura há 500 anos. Não está globalizada, não há McDonald's nem KFC. E tem monumentos como o Arco do Triunfo e o maior estádio do mundo e uma natureza realmente intocada. Lá existem pequenos templos budistas nas montanhas, e se pode até mesmo chegar a ter um encontro com tigres em estado selvagem.

Eu mesmo posso ir, alugar um carro e viajar livremente?

Não, não. Em matéria de turismo, é necessário preparar um itinerário. Você terá um guia. Não pode dirigir seu próprio veículo, mas pode escolher os lugares do país que pretende visitar. Se quiser, pode ir às fazendas cooperativas para ver a vida rural ou até mesmo passar uma noite com uma família no campo.

Por que não posso viajar sozinho?

Há várias razões. A principal é a segurança, tanto do próprio país – estamos oficialmente em guerra contra os EUA desde os anos 50 –, como a sua. Se você entrar numa zona militar e tiver um problema, ele se agrava se você não fala coreano. E a responsabilidade recai sobre o próprio país, se algo acontecer com você.

Quanto do que é dito sobre a Coreia do Norte na imprensa internacional é real, do seu ponto de vista?

Cerca de 90% é mentira ou mito absoluto. Na maioria das notícias, sequer há fontes ou é citado alguém que disse algo aos serviços de inteligência da Coreia do Sul, porque uma outra fonte anônima disse algo na China. É sempre assim: é uma criação constante de histórias de terror que só servem para alimentar o sensacionalismo. Os órgãos de inteligência cobram por isso, por gerar esse tipo de notícias falsas.

E quanto aos 10% restantes?

Por exemplo, quando se fala da execução de Jang Sung-taek, que era tio do nosso líder, Kim Jong-un. É verdade que ele foi executado, mas por um pelotão de fuzilamento, segundo a lei militar, depois de ter roubado 4 milhões de euros de fundos públicos e tentar um golpe de Estado. Mas a imprensa disse que ele havia sido devorado por 120 cães ou bobagens assim. É verdade que esse senhor recebeu a pena de morte, mas não porque era mais feio ou mais alto, mas porque tinha roubado e tentou um golpe usando sua posição militar. E para isso é estipulada a pena máxima.

O senhor esteve no Chile em 2014. Como são as relações com a América Latina? A região interessa à Coreia do Norte?

Fui convidado pelo Partido Comunista Ação Proletária para dar palestras em diversas universidades. Há muito interesse na Coreia do Norte em se desenvolverem boas relações com a América Latina, mas o país tem sofrido anos muito duros. De 1994 a 2000, tivemos uma onda de fome e problemas econômicos, mas agora já estamos recuperados. No entanto, não temos acesso a divisas estrangeiras, que nos permitam realizar mais atividades no exterior. Antes, só tínhamos embaixadas em Cuba e no Peru, agora temos no Brasil e na Venezuela.

Quando foi sua última ida à Coreia do Norte?

Em abril do ano passado. Isto é devido a circunstâncias excepcionais, porque a cada mês eu tenho que estar na república. Mas por causa das artimanhas de algumas autoridades franquistas do governo da Espanha, tive o passaporte retido [devido a investigações sobre um caso de suposto tráfico de armas], e até que consiga resolver, não posso deixar o país.

O senhor vê alguma solução rápida para esse problema?

Pois imagine que o caso não tem um promotor de Justiça, e por não ter um promotor, está em suspenso. O que eles querem é deter o meu trabalho. Já se vê como funciona a Justiça na Espanha..

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