O duelo final entre o europeu e a anti-UE

Jean-Philip Struck

França terá embate entre duas visões totalmente opostas sobre a União Europeia: enquanto Emmanuel Macron defende uma integração ainda maior entre as nações, Marine Le Pen propõe um referendo para sair do bloco.Emmanuel Macron e Marine Le Pen, que passaram para o segundo turno da eleição presidencial francesa, têm em comum o fato de se venderem como outsiders, ou políticos de fora do sistema dos partidos tradicionais. Mas as semelhanças praticamente acabam por aí. Os dois candidatos promovem duas visões totalmente opostas sobre os papéis da França e da União Europeia (UE). "No fundo é uma disputa entre a França otimista e a França pessimista, entre um candidato cultural e economicamente aberto e uma candidata fechada", afirma Martial Foucault, professor de ciência política na Sciences Po, de Paris. Numa perspectiva europeia, o próprio Macron colocou a disputa como sendo entre "patriotas e nacionalistas", distante da velha briga esquerda versus direita, que nasceu na própria França. O otimismo europeu de Macron Durante a campanha eleitoral, o jovem e ambicioso Macron se definiu como nem de esquerda, nem de direita. Ele prefere a expressão "progressista" a "centrista". Também foi chamado pejorativamente de "internacionalista" e "globalista" pelos adversários. Internamente, propõe reformas liberais para abrir e melhorar a eficiência do país. Na sua passagem pelo ministério da Economia, quis acabar com as travas que impedem o comércio de abrir aos domingos e defendeu extinguir monopólios. Não fala numa ideia mística de nação ou de república, afastando-se do discurso comum dos candidatos à presidência. Durante a campanha falou em diálogo e diversidade e provocou controvérsia ao dizer que "não existe uma cultura francesa, mas uma cultura na França", e que ela é diversa e múltipla. Algumas vezes também entra em contradição. Disse a uma rede de TV da Argélia que a colonização francesa no país africano foi um "crime contra a humanidade", mas alguns meses antes dissera a um jornal francês que a colonização também teve aspectos positivos, como a "criação de uma classe média". Seu programa é abertamente pró-europeu, o que o coloca como candidato favorito dos líderes do bloco. Em janeiro, declarou que "nós precisamos da Europa porque a Europa nos faz mais fortes". No domingo, durante a celebração da sua passagem para o segundo turno, seus apoiadores agitaram bandeiras da UE, algo inimaginável entre a base de outros candidatos. Seu programa é bem claro sobre como o seu governo pretende lidar com a UE: ele quer fortalecer o bloco. O primeiro ponto diz que "enfraquecer a Europa é deixar a França sozinha diante das ameaças do mundo atual". Lembra ainda que "a União Europeia continua sendo a melhor garantia de paz no continente". Em entrevistas, Macron citou que cresceu em Amiens, no nordeste do país, lugar que foi palco das batalhas mais sangrentas da Primeira Guerra Mundial. "Nacionalismo é guerra", disse. O centrista é um defensor do euro e afirma que é justamente a moeda comum que garante a influência da Franca, apontando que antes do seu estabelecimento, a França era uma "vassala" das decisões do Deutsche Bundesbank, o banco central alemão, cujas decisões solitárias sobre o antigo marco alemão tinham impacto em toda a Europa até o início dos anos 2000. "Foi o euro que nos devolveu a capacidade de influenciar as decisões da política monetária europeia." Mas a ideia de fortalecimento da UE passa pela constatação de que o bloco precisa de ajustes. No seu programa, Macron propõe criar comitês de cidadãos para discutir ideias sobre o aprimoramento do bloco. Há também uma proposta de um Conselho de Segurança Europeu, um quartel-general das forças da UE e o estabelecimento de um sistema de compartilhamento de informações entre os Estados. Ele quer aproximar a França ainda mais da Otan. No plano econômico, defende a criação de um cargo de ministro da Economia e das Finanças da Zona do Euro. Defende ainda um "Buy European Act", uma forma de preferência de acesso ao mercado europeu para indústrias estrangeiras que deslocarem parte da sua produção para algum país do bloco. Entre todos os candidatos, foi o único que defendeu o acordo de livre-comércio entre a UE e o Canadá, que ainda precisa ser ratificado. O pessimismo isolacionista de Le Pen O programa europeu de Le Pen usa termos bem mais duros ao falar sobre a UE. Não há elogios para o papel do bloco, mas um desejo de fazer o relógio voltar e restabelecer uma "Europa de nações independentes" e "devolver à França a sua soberania nacional". O ponto mais explícito é renegociar a posição da França, tirando o país da zona do euro e do espaço de Schengen. "É tempo de acabar com essa UE que tem a tentação de fusão que destrói a Europa das nações", disse em fevereiro. Se os termos não forem aceitos, propõe realizar um referendo sobre a permanência do país no bloco, um "Frexit". Para Marine, a UE deve se limitar a ser uma mera comunidade de cooperação entre nações, e não uma união. Mas ela deve ter dificuldade de vender todo esse pacote. Pesquisas indicam que mais de 70% dos franceses são contra a saída da zona do euro. Ela também é contra o acordo de livre comércio com o Canadá. Seu programa transmite uma ideia de que a França está experimentando um declínio. O discurso tem apelo nas regiões desindustrializadas do país, que antigamente preferiam os socialistas e comunistas, e nas áreas que experimentam choques sociais com imigrantes, como o sul. No mapa eleitoral do último domingo, Marine dominou o nordeste e o sul do país, enquanto Macron fez mais sucesso nos grandes centros e entre as classes mais educadas. Tal como Donald Trump nos EUA, Le Pen disse que pretende taxar produtos de empresas que se mudarem para o exterior. Em termos nacionais, Le Pen também é o oposto de Macron quando se trata de defender uma ideia de identidade nacional. Uma frase tipicamente francesa repetida por muitos de seus eleitores resume bem qual é o pensamento: On est chez nous. (estamos na nossa casa, em francês). A ideia é que os estrangeiros têm que se submeter completamente a uma receita francesa. Não é a França que deve mudar com os recém-chegados. Saem as ideias de diálogo e integração de Macron e entram políticas duras para lidar com os estrangeiros, como restringir as condições de concessão de refúgio, dificultar o reagrupamento familiar para migrantes e tornar impossível a naturalização de estrangeiros que estiverem em situação ilegal. Enquanto Macron fala em incentivar a imigração de talentos estrangeiros, como ocorre na Alemanha, e acelerar a análise dos pedidos de refúgio, Le Pen quer reduzir a entrada de migrantes a um limite líquido de 10 mil por ano. No plano social, ela é o oposto do liberal Macron, aproximando-se mais dos antigos socialistas e comunistas. Fala em reduzir a idade de aposentadoria de 62 para 60 anos e em aumentar benefícios sociais (mas só para os franceses). Também pretende governar diretamente, promovendo uma série de referendos regulares. "Os franceses vão ter que escolher entre uma França sem fronteiras e uma França que protege seus empregos, a segurança e a identidade nacional", disse no último domingo, após passar para o segundo turno.

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