UE e Japão aproximam-se de acordo de livre-comércio

Julian Ryall (de Tóquio, ca)

Carros, agricultura e barreiras não tarifárias continuam sendo maiores obstáculos às negociações. Pacto deve resultar em um trilhão de euros adicionais no comércio anual entre europeus e japoneses.O Japão e a União Europeia (UE) estão mais próximos de um acordo de livre-comércio. Espera-se que os últimos obstáculos que ainda restam para que o pacto entre dois dos maiores blocos econômicos do mundo seja fechado possam ser superados antes que o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, viaje à Europa na próxima semana para o encontro do G20, grupo que reúne as mais importantes economias do mundo. Entre o punhado de questões que ainda precisam ser resolvidas, as principais preocupações do Japão giram em torno de tarifas impostas sobre veículos exportados para a UE, enquanto o bloco europeu defende que taxas semelhantes para produtos agrícolas e alimentícios europeus sejam suspensas pelo Japão. Outra área de preocupação para os negociadores europeus são as barreiras não tarifárias sobre exportações para o Japão, enquanto questões circundam inevitavelmente as futuras relações entre a UE, o Japão e o Reino Unido, depois que Londres se retirar completamente do bloco europeu. Comércio adicional Uma indicação de que o acordo, que poderá elevar em um trilhão de euros o comércio anual entre os dois blocos, está bem próximo de ser fechado ficou evidente nesta semana em Tóquio, no encontro entre Abe e o primeiro-ministro tcheco, Bohuslav Sobotka. "Para que o Japão e a União Europeia continuem a levantar a bandeira do livre-comércio, o Japão e a República Tcheca vão trabalhar juntos em direção a um amplo acordo o mais rápido possível", declarou Abe em entrevista coletiva após reunir-se com Sobotka. O líder japonês deverá se reunir com Donald Tusk, presidente do Conselho da União Europeia, e com Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, no próximo dia 6 de julho em Bruxelas, um dia antes da abertura do encontro do G20 em Hamburgo. Queijos europeus "Para a Europa, o principal foco de negociações tem sido o setor de alimentos e exportações agrícolas, e há grandes esperanças de que esse acordo leve a um aumento significante das exportações para o Japão – em até 50% – em relação aos níveis atuais", informou Martin Schulz, economista-sênior no Instituto de Pesquisa Fujitsu. Um campo dentro desse setor que está causando problemas são as tarifas impostas a queijos europeus, com o Japão resistindo às reivindicações para uma suspensão em larga escala de limites de importação, devido a preocupações com o impacto sobre os produtores nacionais de laticínios. O consumo de queijo está aumentando rapidamente no Japão, com a valorização cada vez maior da cozinha estrangeira pelos japoneses. As 320 mil toneladas consumidas em 2015 representam um aumento de 20% em relação a dez anos antes, sendo 85% desse total provenientes do exterior. A Europa é responsável por 20% das importações japonesas de queijo, e espera-se que o consumo acelere com a eventual queda de preços resultante do acordo comercial com Tóquio. Desacordo no setor de laticínios Yuji Yamamoto, ministro da Agricultura do Japão, sugeriu nesta terça-feira (27/06) que os dois lados ainda estão distantes de uma solução para a questão, ao instar a UE a ceder em sua demanda de que o Japão abra o seu mercado de laticínios. "O Japão ainda precisa de um pouco mais de tempo de preparação para criar condições que o permitam competir com empresas europeias", declarou o ministro em Tóquio, após conversa telefônica com Phil Hogan, comissário europeu da Agricultura. Da mesma forma, a Europa espera que o Japão adote os mesmos padrões referentes a aditivos alimentares que os europeus, como também aceite as mesmas normas para produtos farmacêuticos, algo que vai pôr fim às necessidades de tempo e custo devido aos testes pelos quais tais mercadorias têm que passar antes que possam ser vendidas no mercado japonês. Esses tipos de barreiras não tarifárias são uma grande preocupação para a Europa, explicou Schulz. Por outro lado, o Japão está instando a UE a suspender a taxação de 10% sobre veículos japoneses, como também a tarifa de 3% sobre peças importadas. Vontade política e sinal para os EUA "Em sua maioria, essas coisas parecem ter sido largamente resolvidas desde que os dois lados deram início às negociações em 2013, então gostaria de sugerir que o passo final é uma questão de vontade política", acrescentou o economista do Instituto Fujitsu. Outros analistas acreditam que o acordo com a UE é, em parte, concebido a fim de sinalizar para os EUA a importância que o Japão confere a acordos multilaterais e multissetores, como a Parceria Transpacífica (TPP, na sigla em inglês). Uma das primeiras decisões do presidente americano, Donald Trump, foi retirar o seu país das negociações sobre a planejada parceria, considerando que ela não seria benéfica para companhias americanas. "Eu consideraria esse acordo com a Europa como parte de uma grande estratégia de Abe com vista a pressionar os EUA sobre a TPP, demonstrando a habilidade e vontade de Tóquio para alcançar acordos com outros países e blocos", aponta Stephen Nagy, professor de Relações Internacionais na Universidade Cristã Internacional de Tóquio.

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