Bibliothek: Dois autores de língua alemã incontornáveis

Ricardo Domeneck

Nascidos na década de 1920, a austríaca Friederike Mayröcker e o alemão Hans Magnus Enzensberger estão entre os nomes de maior destaque da literatura contemporânea em alemão. Ainda vivos, eles continuam produzindo.Dois dos meus escritores germânicos favoritos estão entre os mais longevos e prolíficos da literatura do pós-guerra: a austríaca Friederike Mayröcker e o alemão Hans Magnus Enzensberger. Nascida em 1924, Mayröcker caminha para os 93 anos de idade, e segue produzindo. No ano passado, a editora Suhrkamp lançou o volume fleurs (Berlin: Suhrkamp Verlag, 2016). Ela vem publicando um livro quase todo ano desde o começo deste século, marcado pela perda de seu grande companheiro, Ernst Jandl, também austríaco e um dos mais populares escritores de língua alemã, morto no ano 2000. Enzesnberger, por sua vez, nasceu em 1929 e caminha para os 88 anos de idade. Seus últimos lançamentos foram o volume em prosa Immer das Geld!, em 2015, e a coletânea de poemas Blauwärts, em 2013, ambos pela Suhrkamp. Mayröcker e Enzesnberger colecionam os prêmios mais importantes da língua alemã, como o Georg-Büchner-Preis, concedido a ele já em 1963, aos 34 anos de idade, e a ela, em 2001. Enzensberger faz parte da geração que teve que lidar com uma língua marcada pelo regime nazista, um país e uma sociedade em frangalhos. Foi uma geração um pouco distinta da que viveu os horrores da guerra como adultos e produziu a chamada Literatura dos Escombros, como o poeta Günter Eich ou o romancista Wolfgang Koeppen. A geração de Enzensberger, à qual poderíamos unir o dramaturgo e poeta Heiner Müller, também nascido em 1929, teria que lidar com a história do país de outra forma, e passaria a destrinchar de forma crítica o passado em seus poemas, peças e romances. O trabalho desses autores concentrava-se talvez menos em relatar o período nazista do que em investigar o que restava dele na sociedade afluente da Alemanha do pós-guerra. Enzensberger atingiria o sucesso e se tornaria uma das estrelas literárias das décadas de 1950 e 60 já com sua estreia, a coletânea de poemas die verteidigung der wölfe (1957). Seu Der Untergang der Titanic (1978) talvez seja o mais importante poema longo da língua alemã no pós-guerra, e o autor, um dos poucos a arriscar-se na forma. Enzensberger pode ser de certa forma comparado, na geração equivalente no Brasil, ao poeta Ferreira Gullar, nascido em 1930, com sua obra marcada pelos embates políticos da Guerra Fria, tendo um análogo na forma do poema longo em seu Poema sujo (1976). No Brasil, foram lançados alguns volumes de Enzensberger. Entre eles estão a antologia poética Eu Falo Dos Que Não Falam (Editora Brasiliense, 1985), com seleção e tradução de Kurt Scharf e Armindo Trevisan, e a tradução completa do poema longo de 1978 pela Companhia das Letras, com o título O Naufrágio do Titanic, traduzido por José Marcos Mariani de Macedo. Já Mayröcker é praticamente desconhecida no Brasil. Não há volumes lançados. Figura marginal do chamado Grupo de Viena, com H.C. Artmann, Gerhard Rühm e outros, a austríaca é uma pessoa discreta que jamais reivindicou para si a posição de intelectual pública como foi o caso de Enzensberger. Como ele, Mayröcker lançou prosa e poesia, mas as obras dos dois contemporâneos são radicalmente diferentes. Se por vezes a voz lírica da austríaca pode ser tão acessível quanto a do alemão, sua escrita em geral é marcada por um vocabulário sofisticado e especializado, tirado em muitos casos da botânica, uma de suas paixões. Lendária hoje entre os poetas de língua alemã, ela vive em Viena em dois apartamentos abarrotados de manuscritos e livros, e raramente faz leituras públicas. Quando o faz, percebe-se visivelmente como ela detesta fazê-lo. Um pouco de sua intimidade foi devassada em 2008 pelo documentário Das Schreiben und das Schweigen, de Carmen Tartarotti, no qual é possível ver seu lendário apartamento-depósito e acompanhá-la pelas ruas de Viena. Considero tanto o alemão quanto a austríaca autores incontornáveis da literatura contemporânea em língua alemã. Encerro este texto convidando-os a conhecê-los ou relê-los, com duas pequenas amostras, traduzidas por mim. Manchmal bei irgendwelchen zufälligen Bewegungen streift meine Hand deine Hand deinen Handrücken oder mein Körper der in Kleidern steckt lehnt fast ohne es zu wissen einen Augenblick gegen deinen Körper in Kleidern diese kleinsten beinahe pflanzlichen Bewegungen dein abgewinkelter Blick und dein Auge absichtlich ins Leere wandernd deine im Ansatz noch unterbrochene Frage wohin fährst du im Sommer was liest du gerade gehen mir mitten durchs Herz und durch die Kehle hindurch wie ein süszes Messer und ich trockne aus wie ein Brunnen in einem heiszen Sommer (Friederike Mayröcker) : Às vezes por quaisquer movimentos acidentais roça minha mão sua mão o dorso de sua mão ou meu corpo enfiado em roupas encosta-se quase sem saber um piscar-de-olhos em seu corpo de roupa estes minúsculos movimentos quase vegetais seu olhar de ângulos e suas pupilas de propósito vagam no vazio sua pergunta logo de início interrompida aonde você viaja no verão o que você está lendo atravessam-me o peito em cheio e através da garganta como uma doce faca e eu resseco por completo como um poço num verão escaldante § Die Dreiunddreißigjährige Hans Magnus Enzensberger Sie hat sich das alles ganz anders vorgestellt. Immer diese verrosteten Volkswagen. Einmal hätte sie fast einen Bäcker geheiratet. Erst hat sie Hesse gelesen, dann Handke. Jetzt löst sie öfter Silbenrätsel im Bett. Von Männern läßt sie sich nichts gefallen. Jahrelang war sie Trotzkistin, aber auf ihre Art. Sie hat nie eine Brotmarke in der Hand gehabt. Wenn sie an Kambodscha denkt, wird ihr ganz schlecht. Ihr letzter Freund, der Professor, wollte immer verhaut werden. Grünliche Batik-Kleider, die ihr zu weit sind. Blattläuse auf der Zimmerlinde. Eigentlich wollte sie malen, oder auswandern. Ihre Dissertation, Klassenkämpfe in Ulm, 1500 bis 1512, und ihre Spuren im Volkslied: Stipendien, Anfänge und ein Koffer voller Notizen. Manchmal schickt ihr die Großmutter Geld. Zaghafte Tänze im Badezimmer, kleine Grimassen, stundenlang Gurkenmilch vor dem Spiegel. Sie sagt: Ich werde schon nicht verhungern. Wenn sie weint, sieht sie aus wie neunzehn. : Ela, aos trinta e três Ela imaginara tudo bem diferente. Ainda este Volkswagen enferrujado. Certa vez, quase casou-se com um padeiro. Antes, costumava ler Hesse, depois, Handke. Agora ela prefere resolver charadas na cama. De homens, não tolera abusos. Por anos foi trotskista, mas à sua maneira. Jamais tocou num cupom de racionamento. Quando pensa no Camboja, passa mal. Seu último namorado, o acadêmico, gostava de apanhar. Vestidos de batique esverdeados, largos demais para ela. Parasitas nas plantas à janela. Na verdade, queria pintar, ou emigrar. Sua tese, Luta de classes em Ulm, 1500 a 1512, e suas marcas no cancioneiro: bolsas, começos, e uma maleta cheia de notas. De vez em quando, a avó manda-lhe dinheiro. Danças acanhadas no banheiro, caretas, horas de hidratante ao espelho. Ela diz: pelo menos não morrerei de fome. Quando chora, fica com cara de dezenove.

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