O que Trump vê de errado no acordo com Irã?

Chase Winter (jps)

Presidente americano não esconde ceticismo com pacto nuclear de 2015, uma visão compartilhada pelas monarquias árabes do Golfo e pelo poderoso lobby israelense nos EUA. Entenda os motivos e as objeções."O pior negócio da história." É assim que o presidente dos EUA, Donald Trump, descreve o acordo nuclear do Irã, de 2015. Ele repetidamente sinalizou que os Estados Unidos vão se retirar ou revisar o pacto – uma ameaça reiterada durante o discurso de terça-feira (19/09) na Assembleia Geral da ONU. Tanto o Departamento de Estado americano quanto a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) confirmaram que o Irã cumpriu sua parte. Especialistas em não proliferação nuclear e outros poderes internacionais que negociaram o acordo estão pressionando a Casa Branca para que ela não mude de ideia. Por que então o governo Trump é contra o acordo nuclear? A resposta está nas fraquezas alegadas do acordo e, igualmente importantes, em questões não relacionadas à energia nuclear, que o governo Trump agora gostaria de trazer para a mesa de negociação, como o programa de mísseis balísticos do Irã e a crescente influência da república islâmica no Oriente Médio. No âmbito do acordo de 2015 negociado entre o Irã e o P5 + 1 (EUA, Reino Unido, França, China, Rússia e Alemanha), Teerã concordou em desmantelar seu programa nuclear em troca do fim de uma série de pesadas sanções internacionais e do descongelamento de bilhões de dólares em ativos iranianos. Pelo acordo, o Irã tem permissão para desempenhar pequenas atividades nucleares e manter estoques de urânio para fins de pesquisa e medicina. Essas quantidades de urânio estão muito abaixo do necessário para o desenvolvimento rápido e sem aviso prévio de armas nucleares. Com efeito, ao Irã é permitido a pesquisa nuclear pacífica, assim como qualquer outro país. Objeção: atrasa, mas não impede À época do fechamento do acordo, agências de inteligência ocidentais estimaram que o Irã só estava a um ano de produzir uma arma nuclear. O acordo de 2015 restringiu as atividades relacionadas ao programa nuclear do Irã por 10 a 15 anos. Depois que este período expirar, o acordo precisará ser renegociado ou o Irã teoricamente poderá reiniciar o seu programa de armas atômicas. Se o Irã escolher então produzir armas nucleares, começaria a partir de um ponto de partida mais abaixo, o que poderia dar tempo à comunidade internacional. Mas o governo Trump acha esta "cláusula de temporização" – essencialmente a data de validade do acordo – problemática porque, em sua opinião, simplesmente atrasaria o desenvolvimento de uma bomba nuclear, em vez de impedir. As preocupações da Casa Branca reverberam a posição de Israel, que argumenta que a questão nuclear não pode ser somente adiada. Objeção: atividade nuclear secreta? O acordo também permite que os inspetores da AIEA monitorem as instalações nucleares declaradas, as instalações de armazenamento e as cadeias de abastecimento. No entanto, o governo Trump argumenta que o acordo nuclear não fornece acesso a instalações militares restritas que poderiam ser usadas ??para um programa de de armas secreto. O presidente exigiu que os inspetores também tenham acesso a essas instalações, algo rejeitado pelo Irã. Os apoiadores do acordo argumentam que qualquer programa secreto seria detectado por meio das normas vigentes de monitoramento das instalações e cadeias de abastecimento existentes. Objeção: mísseis balísticos A redação da resolução das Nações Unidas que autoriza o acordo nuclear é vaga na questão dos mísseis balísticos. O acordo "exorta", mas não exige o fim da pesquisa "relacionada a mísseis balísticos capazes de lançar armas nucleares". O Irã diz que seus mísseis balísticos são armas convencionais que não foram projetadas para transportar ogivas nucleares, mesmo que sejam capazes disso. Como o Irã não está buscando produzir armas nucleares, argumenta Teerã, a resolução da ONU não se aplica ao seu programa de mísseis balísticos. Mas o governo Trump argumenta que o programa de mísseis viola a natureza do acordo e constitui uma ameaça para seus aliados árabes do Golfo e Israel. Os EUA já voltaram atrás em uma série de sanções contra o Irã, fazendo com que Teerã, por sua vez, acusasse os EUA de sabotar o espírito do acordo. Objeção: verbas para "atividades desestabilizadoras" O acordo nuclear fez com que uma grande parcela dos ativos internacionais do Irã – um total de 100 bilhões de dólares – fosse descongelada. O governo Trump argumenta que isso foi ruim porque o dinheiro pode ser usado para financiar as "atividades desestabilizadoras do Irã" no Oriente Médio e grupos terroristas. As queixas dos EUA incluem ainda a hostilidade do Irã em relação a Israel, o seu envolvimento na Síria e no Iraque e o amplo apoio regional da república islâmica para vários grupos radicais xiitas, incluindo o Hisbolá no Líbano e os rebeldes Houthi no Iêmen, bem como para o Hamas na Faixa de Gaza. Além disso, Washington e Israel estão preocupados com o fato de que a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), uma organização de segurança e militar que funciona separadamente das forças armadas regulares, e o Hisbolá estejam estabelecendo bases conjuntas no sul da Síria, nas cercanias de Israel. Quem se opõe à visão de Trump? Internacionalmente, a visão de Trump reflete como as monarquias árabes do Golfo e o poderoso lobby israelense nos EUA enxergam o acordo. Tanto as monarquias do Golfo quanto Israel estão preocupadas com a crescente influência do Irã no Oriente Médio. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, criticou repetidamente o acordo nuclear e pressionou o governo Trump a se retirar dele. No entanto, membros da inteligência e militares israelenses disseram que, embora o acordo não seja perfeito, o Irã não cometeu nenhuma violação. Eles também afirmaram que a saída dos EUA seria contraproducente. Nos EUA, os críticos do acordo incluem o embaixador dos EUA na ONU, Nikki Haley, o chefe da CIA, Mike Pompeo, e o assessor de política da Casa Branca Stephen Miller. O secretário de Defesa, James Mattis, o conselheiro de segurança nacional H.R. McMaster, o chefe de gabinete da Casa Branca, John Kelly, e o secretário de Estado, Rex Tillerson, defendem que os EUA permaneçam no acordo, ao mesmo tempo adotando uma posição forte contra o Irã. Como Trump poderia rever "o negócio"? Trump tem até 15 de outubro para informar o Congresso dos EUA se o Irã está cumprindo sua parte do acordo nuclear. Se ele não atestar isso, o Congresso pode voltar a impor sanções, efetivamente matando o pacto de 2015. No entanto, não está claro como o Congresso controlado pelos republicanos responderia a essa questão.

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Newsletter UOL

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos