Opinião: Como manter viva memória do Holocausto?

Felix Steiner

Na cultura de lembrança alemã, surgiram rituais sólidos depois de 1945. Eles ainda continuarão a ser evidentes no futuro? A distância histórica e a mudança social forçam um repensar, opina jornalista Felix Steiner.O jornal de massas Bild e sua ramificação online bild.de não são conhecidos na Alemanha como leitura predileta da elite intelectual e da burguesia esclarecida. Ainda mais notável é o fato de justamente essas mídias estarem a serviço da campanha nas redes sociais deste ano do Congresso Mundial Judaico sobre o Dia em Memória das Vítimas do Holocausto.

#WeRemember convida as pessoas de todo o mundo a fazer o upload de uma foto de si mesmo segurando um cartaz com a etiqueta homônima, estabelecendo assim um sinal de lembrança. No campo de concentração de Auschwitz, cuja libertação pelo Exército Vermelho em 1945 ocorreu no dia 27 de janeiro, as imagens estão sendo exibidas nesse dia numa tela em grande formato. Os organizadores esperam a participação de meio milhão de pessoas.

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#WeRemember é a tentativa criativa de encontrar novas formas de lembrar o assassinato de judeus europeus pelos nazistas. Pois os relatos impressionantes das testemunhas oculares, em cerimônias memoriais ou diante de turmas de escola, pertencerão em breve à história. Quando na próxima quarta-feira (31) Anita Lassker-Wallfisch, o único membro que ainda vive da Orquestra de Meninas de Auschwitz, falar perante o Bundestag (câmara baixa do Parlamento alemão), seremos testemunhas, provavelmente, de uma das últimas descrições tão dramáticas dos fatos.

E então? A memória vai congelar no ritual anual, em que cada vez um novo professor oferece variações do mesmo tema? Isso seria fatal, porque tal cultura de lembrança iria antes repelir e provocar o oposto do que realmente pretende.

Alguns podem estar esperando justamente por isso. "Um fim ao culto alemão de culpa!" e outras coisas semelhantes e sem sentido também serão lidas sob esse texto nas redes sociais novamente. Não importa que o ex-presidente alemão Joachim Gauck tenha atestado há três anos que não há "nenhuma identidade alemã sem Auschwitz" – algo que não é de modo algum aceito por todos os que vivem neste país.

Pois cemitérios judeus continuarão a ser profanados na Alemanha; suásticas continuarão a ser pichadas nas paredes; "Ei judeu" continuará a ser um xingamento nos pátios de escola e muitas sinagogas vão continuar precisando de proteção policial. O "nunca mais" como lição fundamental de Auschwitz ainda não chegou, simplesmente, a todas as cabeças.

Além disso, vêm agora novas formas de antissemitismo – por meio migrantes do mundo islâmico. Este fenômeno não é certamente limitado à Alemanha. O fato de uma grande parcela de judeus franceses cogitar emigrar para Israel ou para os EUA também se deve principalmente a isso.

Mas também com vista a esse grupo, a Alemanha estabeleceu para si um objetivo elevado: "A memória do Holocausto continua a ser um tema para todos os cidadãos que vivem na Alemanha", disse o presidente alemão no 70º aniversário da libertação de Auschwitz. Joachim Gauck não precisou exatamente como isso poderia ser bem-sucedido.

Parece certo que um único dia do ano com rígidos rituais comemorativos não proporcionará qualquer compreensão de por que os ataques violentos contra judeus em plena rua na Alemanha são tão inaceitáveis, assim como atear fogo na Estrela de Davi ou atacar lugares de culto – independentemente da religião.

Os lugares de memória permanentemente visíveis irão se tornar cada vez mais importantes. Seja o memorial do Holocausto em Berlim (não um "monumento da vergonha", mas um "monumento de ações vergonhosas"), as milhares de "pedras de tropeço" colocadas em frente às casas em que os judeus viviam, ou os lugares históricos dos campos de concentração e extermínio.

Uma visita obrigatória a um campo de concentração durante os estudos escolares, como foi recentemente discutido na Alemanha, pode emocionar e impressionar muitos jovens de forma duradoura. Mas isso não é certamente uma vacina universal em termos de imunização contra o antissemitismo. Muito pelo contrário, uma vez que são necessárias estratégias muito mais complexas.

Em geral, o interesse pela história alemã não pode ser imposto àqueles que vivem aqui há pouco tempo. Professores que já ensinaram história ou estudos sociais numa turma com mais de 50% de migrantes (minha esposa é um deles) podem falar sobre isso com experiência.

Na sua forma atual, a cultura alemã da memória não permanecerá, para sempre, como algo evidente. Essa também é uma mensagem, 73 anos após a libertação de Auschwitz.

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