PUBLICIDADE
Topo

Reaproximação diplomática enche de esperança a fronteira sul-coreana

Jang Seok-gwon, prefeito de Myeongpa-ri, o vilarejo mais ao norte da Coreia do Sul - DW/F. Kretschmer
Jang Seok-gwon, prefeito de Myeongpa-ri, o vilarejo mais ao norte da Coreia do Sul Imagem: DW/F. Kretschmer

Fabian Kretschmer

26/04/2018 11h24

O cotidiano é pacato e sem perspectivas nos vilarejos do lado sul da fronteira entre as Coreias. Mas o iminente encontro dos líderes dos dois países, fomenta um otimismo na região

Quando o primeiro morteiro explode à distância, seguido por uma longa rajada de metralhadora, Jang  Seok-gwon fica impassível. "O Exército tem um campo de tiro atrás da montanha. Exercícios militares fazem parte de nosso dia a dia", diz estoicamente o homem de 64 anos.

Jang é prefeito de Myeongpa-ri, o vilarejo mais ao norte da Coreia do Sul. Em apenas algumas centenas de metros adiante transcorre a fronteira entre as Coreias por meio de uma pitoresca cadeia de montanhas na costa leste da península coreana.

Há dez anos, a vida no vilarejo litorâneo de Myeongpa-ri era próspera, com restaurantes de frutos do mar ao longo da rua principal. Vinha gente de todas as partes da Coreia do Sul visitar a cidade fronteiriça. Mas, desde que o conflito com a Coreia do Norte se intensificou, o turismo caiu.

As constantes novas regulamentações militares dificultam cada vez mais a vida cotidiana dos cerca de 300 habitantes: exercícios regulares de evacuação; toque de recolher às oito horas da noite; longos controles de passaporte.

"Quase todas as famílias já se mudaram para as cidades ao redor. Para trás, ficaram apenas os idosos", diz o prefeito. "Nossa esperança está agora nas próximas conversações com a Coreia do Norte. Estamos cansados de viver em constante tensão."

A vida de Park Gyeong-suk também está profundamente ligada à divisão das Coreias. Ela nasceu ao norte do Paralelo 38, a linha imaginária 38 graus ao norte da Linha do Equador e que estabeleceu, num primeiro momento, a divisão das Coreias, acertada por EUA e União Soviética no fim da Segunda Guerra. Mas, durante a guerra, sua família fugiu dos soldados chineses para o sul da península coreana.

Saudosismo da velha geração

Em uma manhã de primavera, a senhora de 72 anos está sentada num banco de madeira em frente ao seu restaurante, no qual é servida a especialidade local – sundae, uma espécie de morcilha.

Park mora no vilarejo de Abai, também chamado de aldeia dos pais, na costa leste. Há 70 anos, cerca de quatro mil norte-coreanos se estabeleceram na região para estar o mais perto possível de sua terra natal.

As ruas bastante estreitas e as cabanas provisórias testemunham o fato de que nenhum dos habitantes pretendia permanecer ali para sempre. Atualmente, apenas algumas dezenas de pessoas da primeira geração de residentes do vilarejo ainda estão vivas.

"Até a morte, meus pais falavam sobre sua aldeia natal, as montanhas e os córregos. Eu realmente podia sentir o quanto eles sentiam falta de sua terra natal", afirma Park. Quando criança, ela cresceu na pobreza da Coreia do pós-guerra. Com amigos, ela saqueava latas de lixo de uma base militar americana próxima em busca de alimentos e doces.

"Às vezes, eu mesmo sonho em ir à Coreia do Norte. Em princípio, minha casa fica a apenas uma caminhada da fronteira", diz Park. A geração de seus filhos, por outro lado, não possui a conexão emocional com o Norte. "Eles sabem muito pouco ou não se interessam por isso."

Otimismo com os diálogos políticos

"A Coreia do Norte e os EUA nutrem uma profunda desconfiança mútua, e como mediador a Coreia do Sul recuperou um papel importante no conflito", diz Cheong  Seong-chang, assessor político do presidente sul-coreano, Moon  Jae-in.

Recentemente, o governo de Seul anunciou que a Coreia do Norte está disposta a desarmar completamente seu programa nuclear. Da mesma forma, Pyongyang não insistirá que os quase 30 mil soldados americanos tenham que deixar o sul da península coreana. As notícias boas, porém, são unilaterais: a mídia estatal da Coreia do Norte ainda não comentou a divulgação do governo Moon.

No entanto, o assessor Cheong está otimista de que a reaproximação política progrida rapidamente. "A desnuclearização da Coreia do Norte deve ser finalizada na legislatura de [Donald] Trump", afirmou.

Nesta quinta-feira, foi anunciado que o ditador norte-coreano, Kim Jong-un, atravessará a pé a fronteira com a Coreia do Sul, para um encontro histórico com o presidente sul-coreano, Moon Jae-in.

Caso a Coreia do Norte destrua cerca de metade de seu arsenal nuclear no próximo ano, um relaxamento das sanções econômicas pode ser levado em consideração. Seul sonha com uma possível reunificação? "Ainda é muito cedo para falar sobre isso, mas o que é possível é fortalecer o comércio e o intercâmbio", diz Cheong.

Um exemplo de como isso poderia ser visto, na prática, está no departamento de trânsito intercoreano perto da costa leste: uma estação ferroviária de vidro construída durante a Política do Sol, a política externa da Coreia do Sul para a Coreia do Norte de 1998 a 2008, que rendeu o Prêmio Nobel da Paz de 2000 ao ex-presidente sul-coreano Kim Dae-jung.

A estação foi erguida depois da virada do milênio, numa área rural intocada da zona desmilitarizada. A obra futurista custou 13 milhões de dólares ao contribuinte sul-coreano. O piso de azulejos no avantajado salão de espera brilha sob a luz solar nos fins de tarde. As paredes cheiram a recém-pintadas. Mas o silêncio fantasmagórico revela que nos últimos anos, com exceção de patrulhas de soldados uniformizados, praticamente ninguém passou pelos detectores de metal da fronteira.

"No momento, estamos apenas fazendo a manutenção da instalação, mas entre 2003 e 2008, quase dois milhões de sul-coreanos viajaram para o Norte", diz o chefe do departamento de trânsito, Woo Gye-geun. "Em princípio, tudo ainda está intacto. Quando vier a ordem de cima, os trens podem viajar novamente aqui em um mês."