Processo de paz e refugiados dividem a Colômbia

Astrid Prange (av)

Há muito, o drama dos migrantes venezuelanos se transformou em crise para toda a região. E concentra atenções às vésperas do pleito presidencial colombiano, enquanto o país ainda se debate com o fim da guerra civil.O acordo de paz fechado há um ano e meio não é o tema central da campanha eleitoral na Colômbia. Mais destaque cabe a segurança, educação, sistema de saúde, economia – e os refugiados da vizinha Venezuela. Segundo a agência estatal Migración Colombia, mais de 800 mil deles se encontram atualmente no país. Sobretudo às vésperas das eleições venezuelanas de 20 de maio, o número de cruzamentos de fronteiras cresceu 40%.

Com vista ao pleito presidencial colombiano deste domingo (27/05) o diretor do escritório da Fundação Konrad Adenauer em Bogotá, Hubert Gehring, comentou à DW: "Estou convencido de que os refugiados da Venezuela vão ser o tema político mais importante na política interna, depois das eleições."



Ele traça um paralelo com a evolução da política para refugiados na Alemanha: "O 2017 na Colômbia era semelhante ao 2015 na Alemanha. Começou com uma cultura de boas vindas", mas nesse ínterim foi ultrapassado um certo limite."

Para Gehring, tudo depende de uma política de integração bem-sucedida. "Acredito que uma das primeiras tarefas do novo presidente colombiano vá ser aplicar soluções práticas concretas in loco." Pois as classes alta e média da Venezuela já abandonaram o país nos últimos anos, e "agora vêm os pobres".

Posições conflitantes

Até pouco tempo atrás, a migração entre as duas nações vizinhas ainda transcorria na direção contrária: durante a guerra civil na Colômbia, centenas de milhares deixaram o país natal, para ir ganhar bom dinheiro na vizinha rica em petróleo.

Os posicionamentos dos dois candidatos mais promissores sobre o tema imigração não poderiam ser mais díspares. O conservador Iván Duque, seguidor político do ex-presidente Álvaro Uribe e concorrendo pelo partido Centro Democrático, promete proteger melhor os mais de 2 mil quilômetros de fronteira verde da Colômbia com a Venezuela.

O ex-prefeito de Bogotá Gustavo Petro, liberal de esquerda do Movimento Colômbia Humana, por sua vez, pleiteia o acolhimento sem burocracias. "Na Venezuela impera uma ditadura com consequências devastadoras para a população. O primeiro dever do governo colombiano consiste em ajudar os venezuelanos", declarou ao jornal El País.

Buscando exemplo na Turquia

O atual de governo, de Juan Manuel Santos, já tenta há um ano controlar a imigração a partir do país vizinho. Em maio de 2017, o presidente enviou seu assessor de segurança, Juan Carlos Restrepo, à Turquia, onde ele visitou campos de refugiados e se informou sobre o acordo entre o país e a União Europeia.



Desde já, está óbvio que os efeitos da crise na Venezuela se transformaram numa problema de toda a região. Numerosos refugiados seguem da Colômbia para o Equador, Panamá, Chile, Peru e Brasil. Segundo fontes oficiais, somente nos primeiros cinco meses de 2018, mais de 286 mil venezuelanos já atravessaram a Ponte Internacional de Rumichaca para o Equador.

Também para o político social-democrata alemão Kurt Beck, a questão dos refugiados é extremamente premente. O presidente da Fundação Friedrich Ebert, igualmente representada na Colômbia, que viajou recentemente ao país para se informar sobre o processo de paz, registra: "A crise dos refugiados é parte da infinita divisão da sociedade colombiana", os migrantes "acirram os problemas dos colombianos empobrecidos".

"Agora é a nossa vez"

Mesmo em meio à crise migratória sul-americana, ainda sobra bastante espaço campanha eleitoral para o futuro do histórico acordo de paz entre o governo e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), criticado tanto por Duque quanto por Petro.



"Indagaram-me repetidamente como a Alemanha conseguiu se reerguer depois de 1945 e após a Reunificação", conta Beck. Ele considera importante sempre frisar que "que depois de uma situação bem difícil se pode concluir com sucesso um processo de reconciliação".

Na opinião do ex-integrante da resistência clandestina Gustavo Petro – segundo lugar nas sondagens, com 27% dos votos, dez pontos percentuais atrás de Iván Duque –, o fim da guerra civil está longe de representar paz. "Para uma paz verdadeira, não devemos negociar só com a guerrilha, mas com toda a sociedade, sobre distribuição de terras, saúde, educação e justiça", declarou à imprensa nacional.

Ele parece ter tocado um ponto sensível junto à população. Muitos desejam mais investimentos em programas sociais, educação e saúde, confirma Gehring. "Os colombianos dizem: 'Agora é a nossa vez, e não a dos 8 mil ex-guerrilheiros.'"

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