"Vulcão Kilauea pode ter explosões que não se veem desde 1924", diz sismóloga

Conor Dillon

  • Mario Tama/Getty Images

    27.mai.2018 - Lava do vulcão Kilauea avança em área residencial em Leilani Estates, no Havaí

    27.mai.2018 - Lava do vulcão Kilauea avança em área residencial em Leilani Estates, no Havaí

Iniciada há semanas, erupção no Havaí tem feito muitos se perguntarem sobre o futuro dos habitantes da região. Em entrevista à DW, sismóloga fala sobre os riscos envolvidos e explica o que há de particular no fenômeno. Em erupção há mais de três semanas, o vulcão Kilauea, no Havaí, tem rendido imagens impressionantes de lava e chamas, além de deixar um rastro de destruição por onde passa e forçar milhares de moradores a deixarem suas casas. Junto com ele, apareceram também receios sobre o futuro das comunidades que vivem em Ilha Grande (Big Island, em inglês).

O impacto observado se deve sobretudo ao fato de estar em uma área residencial, embora as cinzas provocadas pelas explosões também interfiram no tráfego aéreo e ofereçam riscos à saúde.

A fim de esclarecer que riscos são esses, assim como para saber por até quanto tempo deve durar a atual erupção, a DW conversou com a sismóloga Jessica Johnson, professora de Geofísica na Universidade East  Anglia, no Reino Unido.

DW: O que há de novo em torno da erupção do Kilauea?

Jessica Johnson: A principal diferença é que, desta vez, é em uma área residencial. Desta vez, temos fissuras abertas em estradas residenciais, fluxos de lava passando pelas casas das pessoas. O impacto dessa erupção particular é bem diferente. A outra diferença é que o lago de lava que está no cume – ou que estava no cume – diminuiu. O magma recuou tanto que agora está abaixo do lençol freático. E isso significa que as interações de água e magma podem causar explosões no cume, algo que não vemos desde 1924.

DW: Quão grandes seriam essas explosões?

Jessica Johnson: Bom, a maior que tivemos até agora, creio eu, lançou cinzas a cerca de 9 quilômetros na atmosfera. Quanto às mais recentes, vimos algumas lançando cinzas a uma distância de três a quatro quilômetros. Elas são, portanto, consideravelmente grandes. Elas definitivamente têm um impacto sobre o tráfego aéreo, mas devido ao fato de o cume não ser uma área residencial – é dentro do parque nacional –, não são muitas as pessoas afetadas pelas explosões. Mas as cinzas criadas por essas explosões têm afetado aqueles que vivem na direção do vento do vulcão.

DW: Desde a erupção do Kilauea, temos ouvido algumas novas palavras, como "vog" e "laze". O que significam esses termos e quão perigoso é respirar o ar havaiano neste momento?

Jessica Johnson:
"Vog" é um nevoeiro vulcânico que normalmente consiste de dióxido de enxofre e é emitido pela lava quando entra em erupção. O dióxido de enxofre no ar é tóxico. Quando alguém é exposto a ele em pequenas quantidades, distingue claramente seu cheiro e seu gosto. Já em grandes quantidades, ele pode tornar a respiração bastante difícil, provocar ardência nos olhos e também causar uma espécie de corrosão ao se misturar com a água e produzir um ácido.

Já "laze" é uma mistura da palavra lava e neblina [em inglês]. É um produto da lava, mas, neste caso, a lava quando encontra o oceano, provoca uma reação química e produz pequenas gotículas de ácido clorídrico em combinação com minúsculas partículas de vidro vulcânico. Quando encontra a água, a lava pode causar explosões muito pequenas ao transformar a água em vapor. Essas partículas são então empurradas pelo calor e provocam uma névoa, que é, por sua vez, composta de partículas de ácido clorídrico e vidro vulcânico. E isso, mais uma vez, é extremamente tóxico. É muito perigoso respirar esse ar e, de fato, acho que foi em 2000 que duas pessoas inclusive morreram por estarem expostas a um bolsão de "laze".

DW: O que as pessoas devem fazer caso sejam confrontadas com vog, laze ou cinzas?

Jessica Johnson: A recomendação é ficar dentro de casa e manter as janelas fechadas. Quem está dirigindo, pode manter as janelas fechadas, principalmente quem estiver dirigindo em meio às cinzas. Pare em algum local seguro e simplesmente espere o perigo passar, pois isso pode limitar a visibilidade, além de deixar as estradas escorregadias.

DW: Na internet, circulou um vídeo do Kilauea que pensei ser falso. Havia chamas azuis escuras queimando sobre a paisagem carbonizada. O que está acontecendo por lá?

Jessica Johnson: Quando a lava flui sobre a vegetação, esta queima, mas não tem acesso ao oxigênio, e os gases não conseguem escapar. Isso cria metano, e esse metano escapa descendo pelas rachaduras no solo. Debaixo da terra, ele segue alguns caminhos, de modo que é capaz de escapar através de outras rachaduras no solo que ainda não foram cobertas pela lava. Esse metano, obviamente, é muito, muito quente e inflamável. Essas chamas azuis, portanto, são metano criado a partir de vegetação varrida pela lava.

DW: O que os vulcanólogos esperam do Kilauea a partir de agora?

Jessica Johnson: O fato de ainda acontecerem pequenos terremotos e de ainda existirem deformações terrestres é um sinal de que ainda há magma sendo fornecido para a zona leste da fenda. Logo, não esperamos que essa erupção termine tão cedo. Além disso, nós também procuramos padrões anteriores para ver se é possível traçar semelhanças com o que o vulcão possa fazer a seguir, as erupções passadas aconteceram na área de Puna, tendo uma delas durado várias semanas, e a outra, alguns meses. Pensávamos, portanto, que isso poderia ser uma escala de tempo razoável. Porém, ao mesmo tempo, temos visto desde erupções que duraram apenas alguns dias até a erupção do Puu, que fica a meio caminho da zona da fenda e que durou 35 anos. Então, definitivamente, não é uma ciência exata.

DW: Se você pudesse pegar um voo para Kilauea agora, o que você gostaria de ver, fazer ou pesquisar por lá? Existe algo absolutamente novo?

Jessica Johnson: Absolutamente. Como sismóloga, o fato de estarmos tendo esses terremotos na zona leste da fenda é muito interessante para mim, afinal, trata-se de uma área geralmente muito calma em termos sísmicos. O fato de termos terremotos lá irá nos permitir imaginar o subsolo. Eu inclusive escrevi uma proposta a fim de angariar fundos para ir ao Havaí agora mesmo e trazer mais alguns sismógrafos. [O objetivo é] tentar capturar esses dados para que possamos criar imagens melhores do terreno nessa área.

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