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Discurso de ódio no Facebook alimenta ataques a refugiados na Alemanha

5.out.2015 - Manifestante exibe cartaz com a frase "Islã e o suicídio da Europa" durante protesto em Dresden, Alemanha, contra a entrada de refugiados no país. O protesto reuniu quase dez mil pessoas e foi convocado pelo movimento Pegida (Patriotas Europeus contra a Islamização do Ocidente, em alemão) - Tobias Schwarz/AFP
5.out.2015 - Manifestante exibe cartaz com a frase "Islã e o suicídio da Europa" durante protesto em Dresden, Alemanha, contra a entrada de refugiados no país. O protesto reuniu quase dez mil pessoas e foi convocado pelo movimento Pegida (Patriotas Europeus contra a Islamização do Ocidente, em alemão) Imagem: Tobias Schwarz/AFP

22/08/2018 16h02

Pesquisadores alemães analisam milhares de crimes cometidos contra migrantes no país e sugerem que publicações inclinadas à extrema direita tornam comunidades mais propensas à violência contra estrangeiros. Mensagens de ódio compartilhadas no Facebook funcionaram como combustível para crimes cometidos contra refugiados na Alemanha. A conclusão é de um estudo realizado recentemente por dois pesquisadores alemães na Universidade de Warwick, no Reino Unido.

Para o trabalho, Carlo Schwarz e Karsten Müller analisaram todos os 3.335 ataques perpetrados contra migrantes durante um período de dois anos em território alemão. 
Em cada caso, examinaram a comunidade local onde o crime ocorreu por meio de diversas variáveis, como o número de refugiados residentes na região, a economia, a demografia, o apoio a políticas de extrema-direita, o histórico de crimes de ódio e o número de protestos contra refugiados.

Os pesquisadores concluíram que opiniões de direita anti-imigração proliferadas no Facebook alimentaram crimes violentos contra refugiados em cidades onde seus habitantes utilizam com frequência a rede social – nos municípios onde o uso do Facebook é maior que a média, houve proporcionalmente mais ataques contra migrantes.

Segundo o estudo, esse padrão foi observado em praticamente qualquer tipo de comunidade, seja ela uma cidade grande ou pequena, desenvolvida ou em desenvolvimento, conhecida por seu histórico liberal ou de extrema-direita. "Nossos resultados sugerem que as mídias sociais podem funcionar como um mecanismo de propagação entre o discurso de ódio online e crimes violentos na vida real", diz a pesquisa, publicada na revista científica Social Science Research Network (SSRN).

A pesquisa também menciona a popularidade do partido populista de direita Alternativa para a Alemanha (AfD), que desenvolveu uma importante presença no Facebook desde que passou a integrar o Parlamento alemão, no ano passado. "É surpreendente que a AfD tenha conseguido essa quantidade significativa de seguidores", afirmou Schwarz, um dos autores do estudo, em entrevista à DW. "Ainda não sabemos por que esses partidos populistas são particularmente fortes no Facebook. O que sabemos é que muitas pessoas são muito ativas na página da AfD."

Portanto, acrescenta o pesquisador, fica claro que a legenda de direita "oferece um fórum para pessoas que podem estar frustradas com o momento atual e a política na Alemanha". Ele deixa claro, porém, que a pesquisa não distinguiu as páginas ou perfis cujas mensagens de ódio podem ter influenciado os crimes contra refugiados analisados.

Um dos milhares de incidentes aconteceu na cidade de Altena, a cerca de 100 quilômetros de Düsseldorf, no oeste da Alemanha. Ali, um bombeiro em treinamento tentou pôr fogo num centro para refugiados. No celular do agressor, a polícia encontrou indícios de uso assíduo do Facebook e, mais especificamente, de exposição a conteúdos de direita e antirrefugiados.

Os pesquisadores alertam, no entanto, que nem todos os crimes analisados foram incitados por mensagens de ódio na internet. "O discurso de ódio online pode não ser nem o fator mais importante. Nós apenas queríamos mostrar que ele é um fator em meio a outros", diz Schwarz.

Segundo o jornal americano The New York Times, o Facebook se recusou a comentar o estudo. Por e-mail, uma porta-voz afirmou: "Nossa abordagem sobre o que é permitido no Facebook evoluiu com o tempo e continua mudando conforme aprendemos com especialistas na área". A empresa endureceu uma série de restrições ao discurso de ódio na plataforma, incluindo aqueles que atingem refugiados, durante e após o período de amostragem do estudo.

Ainda assim, os especialistas acreditam que grande parte do vínculo com a violência não se deva ao discurso de ódio explícito – mais facilmente detectado pela rede social –, mas a formas mais sutis de propagação desses discursos, como as notícias falsas.

EK/dw/ots

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