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Por que a extrema-direita elegeu Paulo Freire como inimigo?

Método de Paulo Freire visava acabar com uma "lógica bancária" na educação e estabelecer um ensino baseado no diálogo - Márcio Novaes/Ocupação Paulo Freire
Método de Paulo Freire visava acabar com uma 'lógica bancária' na educação e estabelecer um ensino baseado no diálogo Imagem: Márcio Novaes/Ocupação Paulo Freire

Edison Veiga

17/09/2021 15h49Atualizada em 17/09/2021 16h46

Em dezembro de 2003, o então ministro da Educação Cristovam Buarque inaugurou, na frente da sede do ministério, em Brasília, um monumento em homenagem ao educador Paulo Freire (1921-1997).

O pedagogo era então aclamado como uma personalidade importante da história intelectual do país — nove anos mais tarde, uma lei federal o reconheceria como patrono da educação brasileira.

Em 2019, Abraham Weintraub comandava o mesmo ministério no primeiro ano da gestão do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Diante dos maus resultados obtidos pelo país no ranking Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), ele chamou o monumento a Freire de "lápide da educação" e afirmou que o pedagogo "representa esse fracasso total e absoluto".

O próprio Bolsonaro já criticou Paulo Freire, e em mais de uma oportunidade. Numa das ocasiões, referiu-se a ele como "energúmeno".

É um discurso recorrente: nos últimos anos, a extrema-direita brasileira tem usado Paulo Freire, cujo centenário de nascimento é celebrado no próximo domingo (19), como bode expiatório para a baixa qualidade do sistema educacional brasileiro.

Ex-ministro da Educação de Bolsonaro, Weintraub ameaçou retirar mural de Paulo Freire que fica em frente ao MEC - Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil - Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Ex-ministro da Educação de Bolsonaro, Weintraub ameaçou retirar mural de Paulo Freire que fica em frente ao MEC
Imagem: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

De acordo com especialistas ouvidos pela DW Brasil, o que incomoda reacionários e também alguns conservadores é o fato de a pedagogia freireana ser essencialmente política.

"A essência da obra de Freire é totalmente política, no sentido nobre do termo, não no sentido da política partidária", diz o sociólogo Abdeljalil Akkari, da Universidade de Genebra, na Suíça.

Por isso, em todas as regiões do mundo, sua obra é lembrada como algo muito interessante para refletir sobre o futuro da educação contemporânea. Abdeljalil Akkari, sociólogo

"O objetivo da pedagogia freireana é fazer com que cada uma e cada um aprendam a dizer a própria palavra, ou seja, tenham a capacidade de ler o mundo e se expressar diante do mundo", afirma o educador Daniel Cara, da USP (Universidade de São Paulo).

"É a pedagogia da autonomia, da esperança: libertadora no sentido de as pessoas terem as capacidades de se libertarem das opressões que buscam calá-las", completa ele, que também é dirigente da Campanha Nacional pelo Direito à Educação.

Professor do curso de pedagogia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Ítalo Francisco Curcio acredita que parte dessa controvérsia seja por desconhecimento do que é, enfim, o método Paulo Freire.

"A maior parte dos que dizem rejeitá-lo nem é especialista em educação, acaba repetindo frases apregoadas por líderes com os quais se identifica", comenta. "Isso é muito ruim. Quem padece é a própria população, desde a criança até o adulto", completa.

Se estivesse vivo, Patrono da Educação Brasileira completaria 100 anos no próximo domingo (19) - Reprodução - Reprodução
Se estivesse vivo, Patrono da Educação Brasileira completaria 100 anos no próximo domingo (19)
Imagem: Reprodução

Diálogo em vez de lógica bancária

A pedagogia de Paulo Freire foi desenvolvida por ele no início dos anos 1960. Em 1963, ele trabalhou na alfabetização de adultos no Rio Grande do Norte — e conseguiu resultados muito eficientes com a abordagem.

Em linhas gerais, ele defendia que a educação não poderia obedecer a uma "lógica bancária", em que o conhecimento era simplesmente depositado na cabeça dos alunos.

Assim, clamava por um ensino baseado no diálogo, em que professor e estudante constroem o conhecimento em conjunto. Por princípio, é uma pedagogia inclusiva. E saberes específicos, de acordo com contextos particulares, são valorizados.

"Ele ressaltou no meio educacional, especialmente na formação de professores e gestores escolares, que é imprescindível considerar os conhecimentos e saberes que o educando já possui, ao ser recebido como aluno", diz Curcio.

"É célebre sua frase: 'Ninguém ignora tudo, ninguém sabe tudo'", pontua.

"Seu método não fala em ideologias, mas em formas de ensinar e aprender. Não é um instrumento proselitista", acrescenta.

Quem faz proselitismo é a pessoa, por meio de seus atos e discursos, e não o método. Eu posso utilizar uma faca tanto para cortar o pão ou a carne e me alimentar quanto para matar alguém. Ítalo Francisco Curcio, professor

O educador Cara argumenta que Freire não é bem aceito pela extrema-direita justamente porque sua filosofia não admite a doutrinação. "O sectarismo do autoritarismo impede o reconhecimento de uma pedagogia verdadeiramente libertadora", afirma.

Então, Freire se tornou inimigo dos ideólogos de direita porque busca uma pedagogia libertadora, enquanto o modelo tradicional é uma pedagogia opressora. Daniel Cara, educador

"Quando a extrema-direita chegou ao poder no Brasil, precisava agir no campo da educação. E a figura de Freire se mostrou fácil de ser atacada, porque era algo comum nas comunidades educacionais do Brasil", diz Akkari.

Para o professor, conservadores tendem a acreditar que os problemas educacionais podem ser corrigidos com base em aspectos instrumentais, ou seja, mais tecnologia, equipamentos e carga horária, e não com uma mudança de abordagem.

Além disso, existe um tabu sobre politização e formação crítica — ele lembra o movimento Escola Sem Partido, criado nos anos 2000 e que ganhou notoriedade no país após 2015.

Paulo Freire é o oposto de tudo isso, com uma obra baseada na formação crítica do aluno, pontuou. "Ele é o pedagogo da politização da educação", define Akkari.

'Seu método não fala em ideologias, mas em formas de ensinar e aprender', diz Curcio - Divulgação - Divulgação
'Seu método não fala em ideologias, mas em formas de ensinar e aprender', diz Curcio
Imagem: Divulgação

Mazelas do ensino

Outro mito que os especialistas combatem é o de atribuir à Paulo Freire a culpa pelos problemas educacionais brasileiros. O principal argumento contrário, ressaltam eles, é que a pedagogia dele nunca foi implementada de modo amplo e irrestrito no Brasil.

E há ainda o aspecto oposto: o método freireano é muito disseminado em países que costumam se destacar em avaliações educacionais, como a Finlândia.

"Não faz o menor sentido culpar o Paulo Freire pelas mazelas educacionais brasileiras", diz Cara.

"Ele não é responsável pelo subfinanciamento da educação, pelos péssimos salários dos professores, pelo fato de que o Brasil só passou a colocar a educação como questão nacional a partir dos anos 1930", acrescentou.

"E, na prática, mesmo em governos alinhados à esquerda não se fez uma pedagogia freireana no país", pontuou Cara. "Até porque, é uma pedagogia que demanda investimentos sólidos em formação e um replanejamento de todo o sistema de ensino", completou.

Akkari observa que essa negação de Paulo Freire por um viés ideológico só ocorre no Brasil. "Se você observar o resto do mundo, a obra dele é consensual", diz.

Escola em Oulu, no norte da Finlândia; método freireano é amplamente disseminado no país - Giles Clarke/Getty Images - Giles Clarke/Getty Images
Escola em Oulu, no norte da Finlândia; método freireano é amplamente disseminado no país
Imagem: Giles Clarke/Getty Images

Isso fica claro no amplo reconhecimento que Paulo Freire recebeu.

Em vida, foi homenageado por pelo menos 35 universidades de todo o mundo — entre as quais as de Massachusetts e a de Illinois, nos Estados Unidos; a de Genebra, na Suíça; a de Estocolmo, na Suécia; a de Bolonha, na Itália; e a de Lisboa, em Portugal.

O brasileiro também foi reverenciado pela Unesco, a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciências e Cultura, com o Prêmio Educação para a Paz, em 1986.

"Particularmente, entendo que, por ele ter se tornado uma celebridade internacional, identificado historicamente com uma educação socializante, acaba incomodando algumas pessoas que vêm em sua obra alguma possibilidade de doutrinação", avalia Curcio.

"E isso faz com que pessoas que desconhecem o método acabam por dispensar-lhe a mesma conotação", afirma.

Curcio ressalva que Paulo Freire não é criticado pela direita, "mas por certas pessoas de direita".

Denominando a si mesmo conservador e mencionando que tem muitos amigos educadores também conservadores, ele afirma que, mesmo que haja críticas ao método Paulo Freire, é dispensado "o mais profundo respeito pelo trabalho dele", que continua sendo estudado.

"É apenas uma questão de identificação. Não de rejeição ou abominação", diz.