Berlim abre albergue para refugiados homossexuais que se sintam ameaçados

Noelia López

Em Berlim

  • Fabrizio Bensch/Reuters

    Refugiados fazem fila para entrada na Agência de Saúde e Assuntos Sociais (LaGeSo, na sigla em alemão) em Berlim, onde conseguem registro para entrar na Alemanha

    Refugiados fazem fila para entrada na Agência de Saúde e Assuntos Sociais (LaGeSo, na sigla em alemão) em Berlim, onde conseguem registro para entrar na Alemanha

Berlim abre nesta terça-feira seu primeiro albergue para refugiados homossexuais e transexuais, um projeto que receberá pessoas que fugiram de seu país e que, ao chegar à Alemanha, se sentem ameaçadas em alojamentos massificados devido a sua orientação sexual.

A iniciativa partiu da Assessoria para os Homossexuais de Berlim, uma organização que há décadas trabalha com este coletivo na capital alemã e onde nos últimos meses se começaram a acumular pedidos de ajuda de solicitantes de asilo.

Alguns casos são graves, envolvendo de discriminação à violência, segundo afirmou em uma coletiva de imprensa o diretor da organização, Marcel de Groot.

Os homossexuais e transexuais normalmente chegam à Alemanha sozinhos, sem família e sem laços com as pessoas de sua região de origem, com o que estão "isolados social e culturalmente".

Apenas Berlim recebeu no ano passado 79 mil solicitantes de asilo, motivo pelo qual a cidade-estado teve que recorrer a todo tipo de instalações para alojá-los, desde pavilhões esportivos aos hangares do antigo aeroporto de Tempelhof.

A falta total de privacidade afeta todos os refugiados, mas para o coletivo LGBT a situação pode resultar dramática.

"Recebemos muitos relatos de gays, lésbicas e transexuais sobre experiências de violência nos albergues comunitários, onde são ameaçados, em algumas ocasiões agredidos. Têm muito medo e estão em risco", afirmou à Agência Efe Stephan Jäkel, diretor do departamento encarregado dos refugiados LGBT.

Seu relato é confirmado por Mahmoud Hassino, trabalhador sírio do departamento que chegou há dois anos a Berlim e viveu em primeira pessoa o longo processo que é preciso percorrer até conseguir os papéis que ratificam a condição de asilado.

O principal problema, afirmou, é o medo: "Há pessoas que sofrem assédio verbal, outras físico, algumas são atacadas, sei inclusive de um caso de estupro", contou Hassino, que lembrou que ele também abandonou seu albergue quando seus companheiros souberam de sua condição de ativista homossexual.

De setembro até agora, detalhou, seu trabalho se centrou em buscar "locais de emergência" para pessoas cuja situação de risco era considerada alta e que precisavam abandonar os albergues.

"Muitos refugiados chegam fugindo de sua própria gente e quando são alojados em um albergue com cidadãos de sua mesma nacionalidade se sentem ameaçados", comentou.

Após meses de negociações com a administração pública berlinense e após buscar diferentes alojamentos privados para os casos mais graves, hoje chegarão ao albergue as primeiras 17 pessoas.

O aluguel será pago pelo Senado de Berlim e a gestão do centro será assumida pela Assessoria, que não duvida que nas próximas semanas estejam ocupadas as 122 vagas que o albergue tem distribuídas em 29 imóveis.

Pelos expedientes analisados até o momento, tanto denúncias particulares como relatórios elaborados por assistentes sociais de diferentes albergues, sua estimativa é que dois terços das vagas sejam ocupadas por gays, um terço por transexuais e serão poucos os casos de lésbicas.

No último final de semana foi realizada uma jornada de portas abertas para que os vizinhos e as organizações do bairro de Treptow conhecessem o projeto.

A recepção, segundo Jäkel, foi boa e não se deve temer que o albergue possa ser alvo de um ataque xenófobo, mas precauções foram tomadas e endereço do local não está sendo divulgado na imprensa. 

 

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