Artroscopia e aniversário salvaram Martinuccio e Boeck de tragédia aérea

Carlos Meneses Sánchez.

Chapecó, 30 nov (EFE).- Sem ainda acreditar, o goleiro Marcelo Boeck e o atacante argentino Alejandro Martinuccio se salvaram do acidente que matou quase todos seus companheiros da Chapecoense graças a uma série de casualidades que impediram ambos de subir no avião.

Há dois meses, problemas no joelho obrigaram Martinuccio, o único estrangeiro do elenco, a dizer adeus à temporada e não disputar a final da Copa Sul-Americana contra o Atlético Nacional, a primeira de um torneio internacional para a equipe de Santa Catarina.

"Fiz uma artroscopia no joelho e por isto não estava bem fisicamente e não viajei", afirmou o argentino à Agência Efe sobre o gramado da Arena Condá, na cidade de Chapecó, onde recebeu junto a familiares das vítimas as homenagens de uma torcida devastada pela notícia.

Uma sorte que compartilha com outros sete de seus companheiros, que também não viajaram no avião da companhia aérea boliviana Lamia que transportava seus outros 19 companheiros do elenco, além da comissão técnica, diretores do clube e 21 jornalistas.

O ex-jogador de Villarreal, Peñarol, Cruzeiro e Fluminense ficou desnorteado quando acordou ontem de manhã e viu as dezenas de ligações desesperadas que tentavam localizá-lo e se inteirou da notícia.

"Estou em choque, é difícil, triste. É chorar e não parar de chorar e lembrar-se de cada companheiro porque a equipe é pequenina e conquistou uma vaga em uma final que ninguém podia acreditar. Se formou uma família, uma união e agora nada", relatou o jogador, de 28 anos.

O avião, um Avro Regional RJ85, levava 77 pessoas a bordo e se declarou em emergência na noite de segunda-feira por falhas elétricas quando se aproximava ao Aeroporto Internacional José María Córdova de Medellín.

"Você se levanta na terça-feira pensando que tudo vai estar bem e no final acontece esta tragédia pela qual ninguém esperava", lamentou Martinuccio, contratado há um ano pela Chapecoense.

Com os olhos marejados, o jogador lembrou que "muitos dos jogadores tinham filhos e outros estavam prestes a ser pais", uma situação parecida com a sua, pois está casado e é pai de três filhos, mas com um desenlace muito diferente.

Por sua vez, o goleiro Marcelo Boeck foi salvo pela data de seu nascimento, 28 de novembro de 1984, o mesmo dia da tragédia.

Após nove anos como profissional em Portugal em clubes como Marítimo e Sporting, o goleiro contou à Efe que "há dois meses não jogava" por decisão de seu treinador, Caio Júnior, que estava a bordo junto com o resto da comissão técnica.

Boeck solicitou uma permissão do clube para comemorar seu aniversário, que lhe foi concedida e lhe permitiu ficar em casa e passar o dia com sua família.

"Neste momento está muito difícil porque quem sobreviveu tem um peso muito grande", declarou.

Apesar de ter chegado na última janela de contratações, Boeck disse ter deixado no avião "muitos amigos" que começaram sua trajetória junto com ele nas categorias de base de outros clubes.

"E agora que nos juntamos e formamos uma verdadeira família acontece isto...", constatou com tristeza.

O destino quis que se despedisse da maioria deles já que muitos de seus companheiros lhe felicitaram pelo Whatsapp em seu caminho sem volta rumo a Medellín.

"Eles me enviaram felicitações, me deitei e acordei às 3h30 da manhã com ligações em meu celular para saber se estava bem", contou Boeck.

Já o volante Andrei Alba retornou há pouco tempo de um empréstimo ao Concórdia, clube da segunda divisão do campeonato de Santa Catarina.

"Por estar emprestado, quando voltei não tinha espaço para disputar a Copa Sul-Americana e por isso fiquei em Chapecó", declarou o volante à Efe.

Alba representa hoje a esperança de um clube que o perdeu tudo no momento mais bonito de sua história desde sua fundação em 1973, assim como a integridade de uma torcida que encheu o estádio poucas horas depois da tragédia ao grito de "com muito orgulho e muito amor".

"Somos todos amigos, somos todos uma família", refletiu Alba.

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