Brigas de galos na Guatemala, um duelo de vida ou morte pelo orgulho

Patricia Pernas.

Cidade da Guatemala, 11 jul (EFE).- Uma estrada sinuosa, por vezes com subidas, conduz a uma moradia com um grande portão azul da qual saem intensos cacarejos. Uma melodia que soa como grito de guerra com dezenas de galos de briga treinando para ganhar e para sobreviver nestes duelos de vida ou morte nos quais está em jogo o orgulho.

Um sol com uma luz primitiva que chega de longe anuncia uma tarde escura. Na casa de Juan José, um guatemalteco afável com sapatos vermelhos e calças de vestir cinzas impecáveis, vai começar a festa. Ele é o anfitrião do evento. O dono do palanque.

Um clamor entusiasta e acalorado vai se apossando da multidão no município de Villa Nueva, um dos mais violentos da Cidade da Guatemala. No centro da arena, sobre uma tapeçaria de cor vinho, dois rapazes jovens agarram pelas penas seus galos. Erguem-nos para o céu.

Assim que põem as patas no chão, começa a luta com movimentos que parecem um código de honra, quase uma dança. As asas batem e os bicos afiados reluzem mais com os pobres raios de sol.

Não há rounds. Somente 15 minutos nos quais vence o galo mais forte, o que representa, senão houver mpate ou não se renderem, acabar com a vida do adversário. Rara vez acontece, mas podem ficar cegos ou sucumbir a hemorragias.

Entretanto, Juan José contou à Agência Efe que esta tradição, legal no país, vem de antes, da Espanha. Daí precisamente são alguns dos melhores exemplares: galos com mais coragem, mais leves e ágeis. Finos.

Mas são bons também os orientais, com uma cabeça mais redonda e pequena, e os peruanos e argentinos, com uma grande resistência. O importante, disse, é "misturá-los" para conseguir a melhor qualidade, e cuidar de sua estética: com menos plumas são mais parrudos e velozes. Grandes gladiadores. Pugilistas.

Nestas lutas, narra este homem que passa dos 30 anos e que leva toda a vida no ofício - seu pai e seu avô eram "galleros" da mesma forma que seus filhos -, se o galo "baixar a crista" é uma "humilhação". Todo o trabalho preparatório, de criação e adestramento, cai por terra.

"Este é meu hobby, a minha profissão e a minha vida", acrescentou com orgulho enquanto não tira os olhos da briga que há no clássico: "Tenho que ver meus oponentes".

Com as asas estendidas, as aves se lançam umas contras as outras enquanto as apostas sobem: "500 (quetzais, quase US$ 100) pelo espanhol", grita um homem careca da arquibancada com uma pistola nas costas. Se levanta e agita os braços. Anotam sua aposta. Aceitam a aposta.

Nestas lutas se mede tudo. Os galos têm que ser de igual tamanho e força. "Não é uma crueldade. É um galo de briga. É uma maneira de desafogar, uma maneira saudável de sair da rotina. Faz parte da nossa história e tradição".

A violência é "controlada". Isso também vale para os presentes, uma grande família proveniente dos Estados Unidos, Nicarágua, Honduras e El Salvador. Os resultados são deixados no local do evento: "Somos todos grandes amigos".

Um homem de camisa branca e boné vermelho grita: "Volta. Mata ele..." O galo ataca a cabeça de seu oponente, mas ele resiste, se encolhe e se curva por momentos, mas continua de pé.

O outro treinador se abaixa juntamente com seu galo, com sangue correndo pelos olhos, e de cócoras diz: "Assim meu filho, assim. Vamos". O animal levanta, olha fixamente, soa o sino e ataca novamente. Um menino de uns cinco anos o encoraja: "Dá-lhe, dá-lhe".

"Vai ganhar", diz Juan José convencido, apesar de seu débil estado. Tem certeza. "Este é um esporte de cavalheiros", grita um senhor de camiseta azul da outra ponta.

O homem da pistola chupa a cabeça de seu galo. Tira o sangue de seu pescoço para que possa respirar melhor. Cospe os restos no chão. Enfia o dedo entre os dentes para tirar o que resta e olha para o vazio.

Soa o sino. A briga acabou. Uma das aves cai inerte no chão. A multidão que observa o duelo explode, metade com gritos de vitória, metade com de fracasso: "Às vezes se gasta mais do que se ganha", conta Juan José.

Sobre a tapeçaria persistem as marcas de uma luta com ponto final. Penas e restos de sangue da batalha. Logo dois homens limpam tudo para o combate seguinte.

Proibidas em vários países do mundo, as brigas de galos são uma realidade legal na Guatemala, apesar da oposição de vários setores contra o que qualificam como violência animal.

Mas de forma profissional ou improvisada, em bairros habitualmente marginais, os patrocinadores destas práticas são "os ditadores do silêncio". Não pelo medo que possam infudir, mas porque os seus "jogos" são quase um segredo que começa e termina no ringue. EFE

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(foto) (vídeo)

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