Israel retoma combate à poligamia, prevalecente entre os beduínos

Maya Siminovich.

Tel Aviv, 13 nov (EFE).- A poligamia, prevalecente no setor beduíno da população israelense, é ilegal em Israel, mas pouco era feito para acabar com esta prática, algo que aparentemente começa a mudar.

Em breve, um homem beduíno de 36 anos casado com duas mulheres será preso por ser polígamo, no primeiro caso há décadas e em cumprimento ao anúncio feito em 2015 pela ministra de Justiça, Ayelet Shaked, sobre a reativação da lei antipoligamia.

O homem, identificado pelo tribunal como A. e residente na área desértica de Neguev, no sul do país, se casou com sua primeira esposa em 2002 e em 2017 pediu ao pai de outra mulher permissão para se casar com ela. O pai aceitou sem informar sua filha.

"A poligamia se transformou em lei no Neguev", lamentou à Agência Efe Insaf Abu Shareb, beduína, advogada e diretora da Itaj, organização para a justiça social em Beersheva (Neguev).

Segundo o estudo "Redefinindo a poligamia entre os palestinos beduínos de Israel", de Rawa Abu Rabia, também beduína e especialista em gênero, este fenômeno leva à submissão e à anulação de uma das partes: a mulher.

Embora a poligamia seja ilegal desde 1977 e penalizada com um máximo de cinco anos de prisão e multa, poucas acusações chegaram aos tribunais até a reativação da lei e é possível contar os casos ocorridos (o último nos anos 90) de polígamos presos.

Abu Rabia considera que Israel não tem levado a sério a luta contra a poligamia porque a população mais afetada, a beduína, é pequena (cerca de 250 mil pessoas, 4% da população) e pela rejeição de enfrentar esse setor árabe.

Nas primeiras décadas de existência de Israel, os judeus que chegavam do norte da África e do Iêmen também praticavam a poligamia, mas a aplicação estrita da lei e o olhar social hostil acabou rapidamente com ela.

Hoje estima-se que 40% das famílias beduínas do Neguev sejam polígamas, e Abu Rabia afirmou que esse número foi aumentando de modo ininterrupto, não só entre os beduínos, mas também entre os árabes do norte do país.

"Minha mãe é a primeira mulher do meu pai e não lembro da minha infância com carinho. O meu pai não tratava minha mãe bem e nós, os filhos da primeira, não éramos amigos dos filhos da segunda", recordou Mwafaq Z., um árabe-israelense, descendente dos palestinos que ficaram dentro de Israel após a criação em 1948.

Abu Shareb destacou que o fenômeno frequentemente está acompanhado de violência doméstica, estupros e pobreza, e em sua associação, Itaj, atende muitas beduínas vítimas de violência doméstica, em sua maioria casada com polígamos.

É o caso de Aisha, um dos poucos que chegou a ser discutido nos últimos anos. Esta beduína aceitou o casamento de seu marido com uma segunda mulher, depois que ele a convenceu de que não deixaria de cuidá-la, mas dois meses depois, começaram os maus-tratos e ela e seus filhos foram expulsos de casa.

Abu Shareb denunciou que, cada vez mais, nas comunidades beduínas um homem se casa, tem filhos e em um dado momento decide ter uma segunda esposa, deixando a primeira e os filhos para trás e sem meios de sustento.

A primeira esposa não pode se divorciar, por risco de sofrer ostracismo social, nem se casar de novo, e deve permanecer disponível caso o homem decida voltar com ela.

"No passado só os ricos podiam ter mais de uma mulher, mas hoje em dia é só um assunto de ego e de controle, para mostrar que são machos", explicou a advogada de 35 anos.

Embora praticada sobretudo nas áreas isoladas do Neguev, a poligamia também está presente na vida cotidiana israelense: o parlamentar beduíno Taleb Abu Arar, por exemplo, é bígamo.

Os especialistas indicam que a situação é extrema pelo isolamento geográfico e cultural dos beduínos do resto de Israel, já que as meninas frequentemente não vão ao colégio por ser misto.

"A educação e a aplicação da lei são as únicas soluções a esta praga, que torna as mulheres infelizes em um país onde não deveria existir nem o rastro deste fenômeno", destaciy a advogada Abu Shareb.

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