Centro em área rebelde tenta reabilitar jihadistas do EI na Síria

Susana Samhan.

Beirute, 24 dez (EFE).- Ex-combatente do grupo terrorista Estado Islâmico (EI), Ashraf Nasir, de 24 anos, entrou há quase dois meses para o Centro de Luta contra a Ideologia Extremista (CLIE) da cidade síria de Marea, que oferece tratamento a presos e desertores jihadistas.

Em entrevista por telefone à Agência Efe, ele explicou que foi por vontade própria ao CLIE, localizado em uma área sob o controle de facções rebeldes ao norte da cidade de Aleppo. Nasir integrou as fileiras do Estado Islâmico por quatro meses.

"Me uni ao Daesh (acrônimo em árabe para Estado Islâmico com conotação pejorativa) pela pressão que estava exercendo sobre a Frente al Nusra (antigo nome da filial da Al Qaeda). Comecei a seguir suas publicações (do EI) pela internet em 2014", lembrou.

Desta forma, Nasir deixou no início de 2016 as áreas dominadas por grupos como a Frente al Nusra e outras facções em Dael, na província de Deraa, para ir a zonas próximas em poder do EI.

Uma vez dentro dessa organização, Nasir contou que foi "combatente de armas pesadas", embora poucos meses depois tenha decidido desertar porque viu "a colaboração do 'Daesh' com o regime sírio e Israel e outras partes estrangeiras".

Além disso, desagradava ao jovem o fato de o EI enfrentar "os muçulmanos e derramar o sangue dos jovens".

Após sair do grupo, ele conseguiu chegar à Turquia, onde permaneceu por algum tempo até retornar à Síria, onde decidiu entrar no CLIE quando o local foi inaugurado, no final de outubro.

O diretor do centro, Hussein Naser, afirmou à Efe que a chave para a reabilitação dos antigos membros do EI é o sentimento de "compaixão".

"Através da compaixão, eles podem compreender o que causaram com seu pensamento extremista", disse Naser, além de acrescentar que os ex-combatentes são submetidos um programa de seis meses aplicado por psicólogos e especialistas religiosos e legais.

O próprio Naser foi o artífice deste centro, que considera "necessário" devido à expansão da ideologia radical na região, sobretudo a do EI, embora não descarte tratar ex-militantes de outras organizações como a ex-filial da Al Qaeda no futuro.

Atualmente, o CLIE tem 100 ex-guerrilheiros do EI, em sua maioria sírios, embora também haja um ou outro estrangeiro procedente da antiga Iugoslávia e de países da Europa Oriental e da Ásia Central, bem como de outros países árabes, como Tunísia e Iraque.

"Nesta região, pode haver cerca de 2 mil combatentes do 'Daesh' mas não temos capacidade para hospedar mais", declarou Naser, que é jornalista de profissão, especializado em organizações islamitas.

O diretor do CLIE acrescentou que não foi constatada a presença de milicianas no EI, mas quatro esposas de jihadistas foram acolhidas com os seus filhos menores de idade, todas provenientes da Ucrânia e do Uzbequistão.

Trabalham no CLIE aproximadamente 50 pessoas, entre médicos, psicólogos, juristas, religiosos e guardas, "que são voluntários", ressaltou Naser.

Além das sessões teóricas, bate-papos e debates, os participantes também têm à disposição atividades esportivas e lúdicas, como xadrez.

Dependente de doações privadas, por ser "independente", segundo Naser, o centro tem duas seções, uma para os sírios e outra para estrangeiros.

"A maioria dos estrangeiros tem uma ideologia de combate. Eles vieram para esta região para lutar, e aqui tentamos tratá-los, enquanto os sírios não têm uma ideologia tão perigosa, e às vezes podem se recuperar pelos próprios meios", explicou.

Depois de cursar o programa de seis meses, os especialistas do centro avaliam cada indivíduo e elaboram um relatório que mandam, no caso dos membros do EI detidos, a um tribunal não oficial, para que decida se pode ser liberado ou se deve se submeter a uma nova terapia mais longa.

Apesar de reconhecer que ainda tem pela frente uma tarefa árdua, Ashraf Nasir é otimista sobre seu futuro e pensa que os caminhos estão abertos.

"Talvez eu possa trabalhar ou ajudar as pessoas. A maioria das que estão aqui cometeu erros e está aprendendo a ideologia correta e que a religião é misericórdia, e não matar as pessoas. Não pode haver mentiras", frisou.

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