Temer articula "sprint" para aprovar Previdência, mas analistas estão reticentes quanto a sucesso

Por Ricardo Brito

BRASÍLIA (Reuters) - O presidente Michel Temer decidiu assumir pessoalmente as articulações para aprovar o novo texto da reforma da Previdência ainda este ano e terá uma série de reuniões decisivas nos próximos dias a fim de conquistar os apoios necessários para votar a proposta na Câmara dos Deputados.

No sábado, Temer vai se reunir com o governador de São Paulo e provável futuro presidente do PSDB, Geraldo Alckmin, para tratar do apoio dos tucanos à matéria. No dia seguinte, o presidente será o principal convidado de um jantar, a ser promovido pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), com líderes e presidentes de partidos em busca de apoios.

"Temer é o grande comandante, é ele quem define", afirmou o vice-líder do governo na Câmara, Darcísio Perondi (PMDB-RS), ao avaliar que a participação direta do presidente nessa reta final das negociações vai ajudar a conquistar os votos para aprovar o texto.

Para Perondi, a probabilidade de aprovação da proposta ainda este ano é de 60 por cento e "está crescendo". Contudo, em público, ele e nenhum dos governistas querem falar sobre os apoios que o governo tem hoje e dizem ser "prematuro" falar sobre isso -são necessários ao menos 308 votos. Em privado, todos admitem não ter os votos suficientes para aprovar a versão enxuta da matéria.

O vice-líder não quis se manifestar sobre o comentário feito pelo presidente da Câmara de que está "muito longe" do número de votos para aprovar a Previdência. Disse apenas que Maia é um "grande líder da reforma".

Por ora, segundo uma fonte governista, a ordem é publicamente afirmar que vai manter a votação em primeiro turno para a próxima semana e dizer que não vai haver novas concessões para passar o texto, conforme reafirmou mais cedo nesta quinta-feira o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha. Mas já há quem defenda mudanças, desde que não se mexam no eixo da versão enxuta, para angariar apoios.

Três analistas entrevistas pela Reuters, entretanto, estão reticentes quanto a possibilidade de sucesso na aprovação da reforma na Câmara ainda em 2017. Eles contabilizam a probabilidade de a proposta passar pelos deputados entre 10 a 40 por cento, mesmo diante da mobilização que o governo está fazendo na reta final do debate da proposta.

De maneira geral, a avaliação é que o governo passou boa parte do ano trabalhando na defesa de Temer das duas denúncias feitas pelo ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot, o que encurtou o tempo de apreciação da reforma.

"TIMING PERDIDO"

A proposta, dizem, ainda é vista como impopular pelos parlamentares que, em sua maioria, vão concorrer a cargos eletivos no próximo ano e não querem endossá-la. O governo, apesar dos ajustes, ainda não conseguiu convencer a sua base com a nova estratégia de comunicação.

"O governo pode até tentar uma articulação final, se tiver uma mobilização quase sem precedentes para colocar em votação. Mas os sinais são de que jogou a toalha", afirmou o cientista político Cláudio Couto, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), ao destacar as idas e vindas de Temer e de integrantes do governo sobre a votação da matéria.

"O timing para a votação dessa reforma já foi perdido", completou, ao ver chances de apenas 10 por centro de passar na Câmara em 2017, numa perspectiva "otimista".

Pouco mais confiante, o cientista político David Fleischer, da Universidade de Brasília, vê chances de 40 por cento de a reforma ser aprovada pelos deputados. Mas cita que o governo precisará se defender com maior contundência das críticas da reforma.

"Até agora a propaganda do governo é muito suave", considerou. Ele descarta a possibilidade de a proposta ser votada em primeiro turno na próxima semana e lembrou que na terça-feira, véspera da provável data que o governo quer apreciar o texto, está marcada uma greve nacional convocada por grandes centrais sindicais contra a reforma.

O diretor do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) Antônio Augusto de Queiroz, que também só prevê 40 por cento de chances de o texto passar, levantou ainda uma dificuldade adicional: as mudanças que o relator fez à proposta, por meio de emenda aglutinativa, terão de passar por votações prévias de admissibilidade no plenário. Isso, em sua avaliação, praticamente inviabiliza votar o mérito da nova versão na quarta.

Para Queiroz, uma das maneiras de o texto passar é se ele for ainda mais desidratado, levando-se apenas para a votação a adoção de uma idade mínima. Ele disse que o governo corre um risco no final de 2017, de não aprovar a reforma e, ao se concentrar nessa matéria, ser derrotado em votações de projetos que terão impacto direto no Orçamento do próximo ano, como a proposta de reoneração da folha de pagamento.

"Pode ser o pior cenário de todos", alertou Queiroz, que há mais de 20 anos acompanha a atuação legislativa.

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