PUBLICIDADE
Topo

Governo francês flexibiliza regras de confinamento de autistas durante epidemia do coronavírus

02/04/2020 15h35

O distanciamento social e as regras rígidas de confinamento adotadas na França para frear a epidemia do coronavírus criaram um desafio adicional aos pais de crianças autistas. Ficou mais difícil manter a rotina pontuada por rituais que os autistas precisam para se sentir seguros, evitando frustrações e crises de angústia. Para dar um pouco de oxigênio a essas famílias, o presidente Emmanuel Macron anunciou nesta quinta-feira (2) uma flexibilização das medidas de isolamento desse público especial.

O distanciamento social e as regras rígidas de confinamento adotadas na França para frear a epidemia do coronavírus criaram um desafio adicional aos pais de crianças autistas. Ficou mais difícil manter a rotina pontuada por rituais que os autistas precisam para se sentir seguros, evitando frustrações e crises de angústia. Para dar um pouco de oxigênio a essas famílias, o presidente Emmanuel Macron anunciou nesta quinta-feira (2) uma flexibilização das medidas de isolamento desse público especial.

Neste Dia Mundial de Conscientização do Autismo, o chefe de Estado francês declarou que os 700.000 autistas da França poderão sair de casa com mais frequência, "para ir aos locais que representam referências tranquilizadoras" para eles. Macron enviou uma mensagem de vídeo para as pessoas que sofrem de distúrbios do espectro do autismo e seus cuidadores, que estão passando por um período "difícil" com a crise de coronavírus.

"Desde o confinamento que começou em 16 de março, seus hábitos mudaram e você pode estar um pouco perdido", disse Macron falando diretamente aos autistas. "Você costumava ir trabalhar ou estudar todos os dias em algum lugar, e da noite para o dia não foi mais possível. (...) Eu sei que você só quer uma coisa: recuperar a vida que tinha antes", acrescentou. "Para alguns de vocês, ficar trancado em casa é uma provação que às vezes provoca uma ansiedade difícil de controlar, tanto para você quanto para suas relações próximas", ponderou o presidente.

Para tornar esse período menos desgastante, o governo criou um formulário especial que permitirá aos autistas sair de casa com mais frequência. O chefe de Estado insistiu, no entanto, nos cuidados que as famílias devem ter para respeitar o distanciamento de um metro em relação a outras pessoas e a lavagem frequente das mãos, entre outras recomendações sanitárias.

O ator Samuel Le Bihan, presidente-adjunto da associação "Autisme Info Service" e pai de uma menina autista de 8 anos de idade, disse que as famílias têm vivido "situações de grande angústia". Desde o início do confinamento, a plataforma que ele dirige "tem recebido quatro vezes mais ligações do que no ano todo". O ator conta que os principais pedidos dos pais de autistas são "poder sair para tomar um pouco de ar fresco e desestressar".

Centros de atendimento paralisados

Na França, crianças e adolescentes autistas costumam frequentar unidades do Instituto Médico-Educativo (IME), uma instituição pública que oferece atendimento multidisciplinar durante o dia. Nesses estabelecimentos, os autistas fazem atividades de terapia ocupacional, são atendidos por psiquiatras, psicólogos e assistentes de educação. Muitos conseguem adquirir autonomia e trabalhar na vida adulta. Existe uma carência crônica de vagas, mas aqueles que conseguem acesso a esse atendimento especializado proporcionam um grande alívio às famílias.  

Porém, com a crise sanitária do coronavírus, as atividades foram suspensas. "Tudo o que havia para aliviar as famílias está paralisado", constata Le Bihan. "Uma criança autista requer muita energia e o fato de não termos mais nenhum descanso torna as coisas muito complicadas", afirma.

A flexibilização anunciada hoje pelo presidente Macron "era aguardada com ansiedade por associações e famílias", reagiu Christine Meignien, presidente da federação "Sesame Autism". "Quando você altera os horários de uma pessoa com autismo, gera ansiedade e problemas comportamentais que podem ser extremamente violentos", disse ela. "Tivemos casos em que equipes de paramédicos tiveram de intervir em crises violentas", relatou. "Para alguns, o que vai agradá-los é um passeio de carro ou uma caminhada de várias horas a pé. Por isso, dissemos desde o início que precisávamos de permissão para ir a lugares mais distantes do que o quilômetro autorizado perto de casa, para correr ou gritar em uma floresta. Caso contrário, não seria sustentável para as famílias nem para os estabelecimentos", disse Meignien.