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Sergio Moro pede demissão do Ministério da Justiça e denuncia interferência política na PF

24/04/2020 12h52

O agora ex-ministro da Justiça do Brasil, Sergio Moro, pediu demissão nesta sexta-feira (24). A saída do ex-juiz da Lava Jato do governo já era esperada desde a exoneração do diretor-geral da PF pelo presidente Jair Bolsonaro. Moro confirmou a demissão em uma entrevista coletiva no final desta manhã em Brasília.

O agora ex-ministro da Justiça do Brasil, Sergio Moro, pediu demissão nesta sexta-feira (24). A saída do ex-juiz da Lava Jato do governo já era esperada desde a exoneração do diretor-geral da PF pelo presidente Jair Bolsonaro. Moro confirmou a demissão em uma entrevista coletiva no final desta manhã em Brasília.

A agência AFP lembra que Sergio Moro era o mais popular ministro do governo Bolsonaro. O ex-juiz, de 47 anos, era visto como o herói da luta anticorrupção no país por ter dirigido a importante operação Lava Jato. Moro não foi avisado e ficou indignado com a exoneração de seu braço direito e homem de confiança, Mauricio Leite Valeixo. A saída do diretor-geral da PF, publicada no Diário Oficial desta sexta-feira, não foi "a pedido" como consta do decreto, confirmou Moro durante o pronunciamento à imprensa.

Moro lembrou sua carreira e disse que abriu mão de 22 anos de Ministério Público para integrar o governo. O ex-ministro disse que decidiu assumir a pasta de Justiça porque Bolsonaro lhe fez várias promessas. O presidente de extrema direita deu carta branca ao ex-juiz e garantiu que não influenciaria em nada na gestão da pasta.

"Não é só uma questão de nomes"

Moro disse que até buscou soluções alternativas para evitar uma crise em plena pandemia de coronavírus. Na quinta-feira (23), conversou com Bolsonaro para propor outros nomes que dessem continuidade ao trabalho. "Não é só uma questão de nomes. Há outros delegados competentes. Mas há a violação de uma promessa que me foi feita de que não haveria interferência política na PF. Isso gera um abalo na minha credibilidade e na do governo". Ele ressaltou que nem "na época da Lava Jato, a despeito de todos escândalos de corrupção", isso não aconteceu.

O ex-ministro declarou que em hora nenhuma o presidente deu uma causa grave ou apontou um erro relevante para tirar Valeixo que, segundo Moro, vinha "realizando um trabalho bem feito, positivo". Ele revelou que Bolsonaro quer um diretor-geral da PF da confiança dele, uma pessoa a quem poderia telefonar para ter informações e saber o andamento das investigações. "As investigações têm que ser preservadas. A autonomia da Polícia Federal na aplicação da lei tem valor fundamental dentro do Estado de Direito", disse o ex-ministro.

Moro reafirmou que não foi informado do decreto de exoneração de Valeixo e que isso "indica que o presidente não me quer mais presente no cargo". "Não me senti confortável. Tenho que preservar minha biografia e o compromisso que assumi com o presidente de que teríamos de combater a corrupção, o crime organizado e garantir o respeito à lei. Ele poderia ter alterado o diretor-geral, desde que tivesse uma causa consistente. A interferência pode levar a relações impróprias e eu não posso concordar." No final do pronunciamento, o ex-ministro foi aplaudido pelas pessoas presentes na sala.

Valeixo, que tinha grandes poderes para realizar investigações judiciais, era visado por Bolsonaro desde o ano passado.

Segunda demissão em oito dias

Ao assumir o poder em janeiro de 2019,  o presidente de extrema direita ganhou pontos com a população ao nomear Moro, uma das personalidades mais populares do país, no Ministério da Justiça. Sua imagem ficou arranhada no ano passado, após as revelações do site The Intercept de sua imparcialidade nas investigações da Lava Jato para condenar, sem provas, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva por corrupção. Mesmo assim, continuava popular. A imprensa brasileira acredita que muitos eleitores de Bolsonaro ficarão decepcionados com sua saída e que o governo irá perder popularidade.

A demissão de Moro, em plena epidemia do coronavírus, acontece oito dias após a exoneração por Bolsonaro de um outro ministro popular, o médico Henrique Mandetta. O ex-ministro da Saúde era favorável à quarentena, ao contrário do presidente Bolsonaro, e acabou caindo.