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Buenos Aires não dormiu: velório de Maradona é comparado ao de Perón ou Gardel

26/11/2020 06h09

Uma multidão passou a noite em vigília e festa na Praça de Maio à espera do melhor lugar para entrar no Palácio do Governo argentino para se despedir o ídolo. Antes, durante a madrugada desta quinta-feira (26), o corpo do ex-jogador atravessou a cidade enquanto as pessoas aplaudiam a caravana pelo caminho, assim como quando Maradona voltou campeão em 1986 ou vice, em 1990. Todos os estádios do país acenderam as luzes e as pessoas foram às janelas a aplaudir.

Uma multidão passou a noite em vigília e festa na Praça de Maio à espera do melhor lugar para entrar no Palácio do Governo argentino para se despedir o ídolo. Antes, durante a madrugada desta quinta-feira (26), o corpo do ex-jogador atravessou a cidade enquanto as pessoas aplaudiam a caravana pelo caminho, assim como quando Maradona voltou campeão em 1986 ou vice, em 1990. Todos os estádios do país acenderam as luzes e as pessoas foram às janelas a aplaudir.

Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires

Durante a madrugada portenha, o corpo de Diego Armando Maradona chegou à Casa Rosada, o palácio do governo, onde nesta quinta-feira (26) uma multidão calculada em um milhão de pessoas pretende despedir-se do maior ídolo do futebol argentino.

Os portões serão abertos às 6 da manhã e fechados às 16 horas, embora não se tenha certeza se o horário não será estendido ou mesmo se haverá um segundo dia para a despedida popular.

"Tudo vai depender da decisão da família, de Claudia Villafañe (ex-esposa) e de Dalma e Giannina (filhas). Elas vão definir a duração do velório", anunciou o presidente Alberto Fernández.

O horário de abertura estava previsto para as 8h da manhã, mas foi antecipado. Um movimento que poderia indicar que o objetivo da família é limitar o velório a apenas um dia.

Antes da abertura dos portões da Casa Rosada, durante a madrugada, a família velou o corpo em companhia dos amigos mais íntimos e de ex-técnicos e jogadores, como os campeões de 1986.

Praça de Maio explodiu em cânticos

Quando o cortejo fúnebre chegou, a multidão na Praça de Maio, em frente à Casa Rosada, explodiu em cânticos, gritos e fogos de artifício. Ao longo de toda a noite e madrugada, a Praça, transformada numa gigantesca arquibancada popular agitou bandeiras, faixas e gritos em torno de duas palavras repetidas incessantemente: Diego e Maradona.

Apesar de a Argentina ser um dos países com mais contágio e mortes por coronavírus do mundo, não houve distanciamento social e muitos não usaram a máscara obrigatória em Buenos Aires.

A previsão é que a fila para despedir Maradona estenda-se por mais de 1 Km num momento histórico só comparável com as mortes de Carlos Gardel, Juan Domingo Perón ou Eva Duarte de Perón, a Evita.

Como Perón ou Gardel

"A morte de Maradona poderia ser comparada com a morte de Perón ou mesmo de Gardel. Sempre se imaginou que o funeral de Maradona geraria algo muito forte no país. Não sabemos o que vai acontecer neste período de pandemia, mas o funeral de Maradona é um fenômeno de massas. Estamos falando dos grandes mitos populares argentinos", compara em entrevista à RFI o sociólogo Pablo Alabarces, um dos fundadores da sociologia do esporte na América Latina e considerado um "maradoniano" por seus estudos sobre o fenômeno popular em torno do ex-jogador.

Antes de chegar à Casa Rosada, o corpo de Maradona foi do necrotério a uma casa funerária para a preparação final. O trajeto de 24 Km foi acompanhado por uma esteira de torcedores. À medida que a caravana atravessava a capital argentina, as pessoas à beira de ruas e avenidas aplaudiam e emocionavam-se com a homenagem derradeira.

Foi o mesmo comportamento visto em 1986, quando a seleção argentina de futebol, liderada pelo capitão Maradona, voltou vitoriosa do México. Também quando a seleção retornou vice-campeã da Itália em 1990.

Estádios acesos e aplausos das janelas

Ao longo da noite, em pontos estratégicos e representativos da história de Maradona as pessoas deixaram oferendas e preces. Aconteceu, por exemplo, na porta do clube Argentinos Jrs. onde pequenos altares com velas, flores, fotos e bandeiras foram armados pelo acúmulo de homenagens.

O tradicional "D10s" por "Dios" em espanhol (Deus) e o número 10 de Maradona tornou-se "Ad10s" (Adeus).

Às dez da noite, o estádio onde Maradona estreou em 1976 e que hoje tem o seu nome soltou fogos de artifício e abriu as portas para milhares de fãs que não paravam de cantar.

Todos os estádios da Argentina acenderam as luzes como se iluminassem o palco para mais um espetáculo do futebol comandado por Maradona.

Das janelas, as pessoas aplaudiam, assim como faziam nos primeiros meses da pandemia em homenagem ao pessoal de saúde.

O que Maradona esperava do seu funeral

Em 2005, no programa "La noche del 10" (A noite do 10) apresentado por Maradona, o jogador fez uma entrevista consigo mesmo, usando um sósia.

"Se você tivesse que dizer umas palavras no cemitério ao Maradona, o que diria?", perguntou Maradona a si mesmo. "Obrigado por ter jogado futebol, porque é o esporte que mais alegria me deu. Foi como tocar o céu com as mãos, graças à bola", respondeu o próprio Maradona, acrescentando: "Eu colocaria na lápide: Obrigado à bola".

"E o que você gostaria que a Claudia (ex-esposa) dissesse nessa despedida?", indagou Maradona a si mesmo. "Ainda que estejas morto, continuo a te amar", respondeu Maradona. "E o que você gostaria que as suas filhas dissessem?", avançou Maradona a si mesmo. "Nós te amamos, pai", respondeu Maradona sobre o dia do seu próprio funeral.