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França: Militares que criticam o governo devem "deixar a instituição", diz chefe do Estado-Maior

13/05/2021 15h46

Após dois textos de militares publicados na imprensa francesa, com duras críticas ao governo Macron e até ameaças de "intervenção" no país, o general François Lecointre, chefe do Estado-Maior, enviou uma carta às tropas pedindo mais união. Ele sugere àqueles que desejam se exprimir livremente sobre a política, sem respeitar o direito de reserva, que deixem as Forças Armadas. O primeiro manifesto dos militares foi assinado, enquanto o segundo permaneceu anônimo.

Após dois textos de militares publicados na imprensa francesa, com duras críticas ao governo Macron e até ameaças de "intervenção" no país, o general François Lecointre, chefe do Estado-Maior, enviou uma carta às tropas pedindo mais união. Ele sugere àqueles que desejam se exprimir livremente sobre a política, sem respeitar o direito de reserva, que deixem as Forças Armadas. O primeiro manifesto dos militares foi assinado, enquanto o segundo permaneceu anônimo.

De acordo com o jornal Le Monde, a longa carta de Lecointre às tropas foi enviada no dia 10 de maio. No documento, cujos trechos foram publicados pelo vespertino, o general aborda vários temas. Mas o fio condutor é uma espécie de puxão de orelhas coletivo, no qual ele pede mais responsabilidade aos soldados, "em um momento em que percebemos, de forma nítida, as tentativas de instrumentalização da instituição militar".

Essa é a primeira vez que um chefe do Estado-Maior envia uma carta desse tipo aos militares franceses. No documento, Lecointre ressalta a importância do direito de reserva, uma obrigação que alguns, "por diferentes razões, e talvez por ingenuidade", esqueceram.

"Cada militar é livre de pensar o que quiser. Mas cabe a ele distinguir, sem ambiguidade, o que diz respeito à sua reponsabilidade de cidadão e o que diz respeito à sua responsabilidade militar", lança o general.

Lecointre critica de forma explícita uma coluna publicada em 9 de maio na revista conservadora Valeurs Actuelles, na qual os autores - anônimos - diziam que a "sobrevivência" da França estava em jogo, após as "concessões" feitas ao islamismo. O chefe do Estado-Maior também visa os militares da reserva que assinaram, alguns dias antes, um texto na mesma revista, no qual afirmavam estar prontos "para fazer o necessário para salvar a nação". Caso nada fosse feito, escreveram, "a frouxidão continuará a se espalhar inexoravelmente na sociedade, acabando por causar uma explosão e a intervenção de nossos companheiros da ativa em uma missão perigosa para proteger nossos valores civilizacionais".

O rompante dos militares da reserva chegou a ser apoiado pela líder da extrema direita francesa, Marine Le Pen. A candidata à presidência em 2022 ainda colocou lenha na fogueira ao dizer que compartilhava a "aflição" manifestada pelos militares.

Segundo o chefe do Estado-Maior, esse tipo de declaração de membros das tropas, sejam eles da ativa ou da reserva, representa um perigo. "Em nome da defesa de convicções pessoais, eles contribuíram para arrastar as Forças Armadas para debates políticos nos quais ela não tem nem a legitimidade, nem a vocação de intervir", disse Lecointre.

"Todo indivíduo é também [o espelho de] suas convicções. E quando essas convicções conduzem a uma reivindicação política incompatível com o estado militar (...) ou até um questionamento da subordinação estrita ao poder político republicano, democraticamente eleito, o mais sensato é certamente deixar a instituição", concluiu o chefe do Estado-Maior francês.