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"Espero que o Brasil desperte desse pesadelo", diz Hamilton de Holanda na França

16/09/2021 13h30

O multi-instrumentista e gênio do bandolim Hamilton de Holanda seduz orquestras e plateias por onde passa. Não foi diferente durante sua participação pelo Passages Transfestival em Metz no leste da França, no início de setembro. O mestre e músico virtuose conversou com a RFI sobre o momento brasileiro, seu jeito de criar e sua relação privilegiada com alguns dos grandes nomes da música brasileira e internacional.

O multi-instrumentista e gênio do bandolim Hamilton de Holanda seduz orquestras e plateias por onde passa. Não foi diferente durante sua participação pelo Passages Transfestival em Metz no leste da França, no início de setembro. O mestre e músico virtuose conversou com a RFI sobre o momento brasileiro, seu jeito de criar e sua relação privilegiada com alguns dos grandes nomes da música brasileira e internacional.

Em Metz, Hamilton de Holanda celebrou não apenas os 21 anos de sua prodigiosa invenção - o bandolim de 10 cordas - mas também a chegada de um disco novo, construído numa parceria com uma cantora indiana. "Ela se chama Varyjashe e canta lindamente, parece um anjo", diz o músico. "O disco tem também a participação do saxofonista norte-americano Chris Porter, André Vasconcelos no baixo, o André Siqueira na percussão e o Antônio Neves na bateria, então pode esperar que vem coisa boa", brinca.

No Passages Transfestival, Hamilton de Holanda apresentou uma dobradinha de shows, "Saudade do Brasil" e "Casa de Bituca". Perguntado sobre que Brasil ele sentia falta, o também compositor não titubeou: "Eu tenho saudade daquele Brasil que seria o país do futuro e que chegaria um dia que a gente teria a justiça social, a igualdade, assim como as divisas da França, a fraternidade".

"Estamos vivendo um período bem turbulento, espero que o povo brasileiro, que é muito forte, resista e que, em breve, possamos viver um novo momento", afirmou nos bastidores da tradicional casa de shows Arsenal, em Metz.

O "momento turbulento" afetou a produção criativa de Holanda, mas não o paralisou. "Afeta, mas não de uma maneira negativa, depressiva, triste, mas de uma maneira realista. A minha música é muito ligada ao mundo real no sentido de que sofremos, mas temos muita força para crescer, para renascer. O povo brasileiro tem essa força, e eu sinto que minha música parte dessa lugar comum a todas as pessoas, que é a esperança", diz.

"A França é um país com quem tenho uma relação muito forte", diz Hamilton. "Morei aqui no início dos anos 2000, tenho muitos amigos, toquei em várias cidades. Os concertos em Metz foram uma renovação de votos de amizade e de colaboração que temos entre o Brasil e a França", contextualiza.

Homenagem a Bituca

Hamilton de Holanda diz que resolveu homenagear Milton Nascimento ("Bituca") no festival de Metz porque "é um manancial sem fim de criatividade, de beleza, é uma força da natureza", derrete-se. "Eu me liguei muito na música do Milton justamente no período em que morei na França. Entre os discos que colocava para tocar quando tinha muita saudade do Brasil, destaco o 'Angelus', um disco de 1993 do Bituca. Tenho uma relação musical, técnica e de aprendizado, claro, mas também afetiva com ele", declara. "O disco Casa de Bituca, de 2017, retrata exatamente essa relação e foi um pedido especial da organização de Metz", revela.

Para o Brasil, Hamilton de Holanda deseja "paz e união" nesse momento. "É importante o encontro com aquilo que é realmente importante na vida do povo brasileiro, a justiça social, cuidar das pessoas, a coletividade. Desejo que o Brasil desperte desse pesadelo que ele tem vivido, principalmente no aspecto político e econômico. Os brasileiros são um povo forte que usa a palavra esperança no dia-a-dia", concluiu o bandolinista.