PUBLICIDADE
Topo

Expulsão de haitianos é "repetição inacreditável" da política migratória de Trump, diz especialista

24/09/2021 10h30

As imagens de haitianos sendo capturados por agentes a cavalo no Texas causam revolta no eleitorado democrata, que havia aplaudido as promessas de Joe Biden de "apagar a vergonha moral" da política migratória de seu predecessor no cargo, Donald Trump. As expulsões de milhares de migrantes concentrados do lado americano do Rio Grande, na fronteira com o México, mostram que os Estados Unidos mantêm a linha dura do republicano nesta questão.

As imagens de haitianos sendo capturados por agentes a cavalo no Texas causam revolta no eleitorado democrata, que havia aplaudido as promessas de Joe Biden de "apagar a vergonha moral" da política migratória de seu predecessor no cargo, Donald Trump. As expulsões de milhares de migrantes concentrados do lado americano do Rio Grande, na fronteira com o México, mostram que os Estados Unidos mantêm a linha dura do republicano nesta questão.

"Assistimos a uma repetição inacreditável da política migratória de Trump", constata Elisabeth Vallet, diretora do Observatório de Geopolítica da Universidade do Quebec em Montreal e do grupo de reflexões Borders in Globalization no Canadá.

Em entrevista à RFI, ela avalia que, ao escolher o caminho das expulsões em massa, o presidente visa limitar os danos dessa crise nas eleições de meio-mandato, disputadas em 2022 no país. Embora a medida decepcione o campo democrata, o cálculo é que a linha dura poderá evitar uma debandada do eleitorado para os Republicanos, mais sensível ao tema da imigração.

"A mise-en-scène de cavaleiros brancos avançando sobre os migrantes indica que Biden busca minimizar as consequências políticas do que está acontecendo. Há uma vontade de evitar certas imagens [de imigrantes ingressando no país] porque ele sabe que isso será usado contra ele e ele quer evitar de ser acusado de ser responsável por isso, nas eleições", explica Vallet.

"O Texas há anos enfrenta essa questão, com uma estratégia de dissuadir os migrantes com discursos contrários à imigração ou a construção de muros, além de proteções naturais como o próprio Rio Grande, as montanhas, o deserto. Mas a pressão migratória tem se acentuado, as coisas não estão bem na América Central e as mudanças climáticas pioram o drama, com tantos desastres climáticos como os terremotos no Haiti", contextualiza a pesquisadora.

Covid como desculpa para expulsões rápidas

É por isso, ressalta a especialista, que Biden continuou a adotar o dispositivo apelidado de "título 42", criado por Trump. A medida determina que os Estados Unidos podem expulsar candidatos à imigração sem sequer analisar os pedidos, com a justificativa da ameaça da Covid-19. Washington acaba de apelar de uma decisão judicial para que esse instrumento jurídico seja abandonado em no máximo 15 dias.

"Essa gestão de crise humanitária na fronteira americana foi criada pelo presidente Trump e continuou com Joe Biden. Eles aproveitam a crise da Covid para expulsar as pessoas mais rapidamente", complementa Olivier Richomme, professor de civilização americana na Universidade de Lyon 2.

O pesquisador frisa que o tema "sempre foi um quebra-cabeças" para os governos americanos, sejam democratas ou republicanos. Mas para Richomme, Biden pode estar subestimando o impacto dentro do seu próprio campo. "Do ponto de vista eleitoral, é muito ruim porque já vemos muito democratas bastante críticos. Os democratas têm plena clareza de que essa situação é contrária aos valores deles", avalia o professor francês. "Poderíamos ter uma política mais humana e que fosse mais transparente com a população americana, no sentido de que 'não poderemos aceitar todos, mas podemos ter medidas fortes', para que o eleitorado democrata se identifique também."  

Renúncia de emissário cristaliza críticas no plano interno 

Nesse sentido, a renúncia do enviado especial dos Estados Unidos para o Haiti Daniel Foote, nesta quinta-feira (23), foi um alerta. Ele estava no cargo havia apenas dois meses.

"Não irei me associar à decisão desumana e contraproducente dos Estados Unidos de deportar milhares de refugiados haitianos e imigrantes ilegais ao Haiti ", afirmou Foote, em sua carta de renúncia. "Imersa na pobreza, refém do terror", a população haitiana "simplesmente não pode suportar o fluxo forçado de milhares de migrantes, que retornam sem comida, abrigo e dinheiro, sem provocar uma tragédia humana adicional que poderia ser evitada", escreveu o ex-emissário, ao secretário de Estado Antony Blinken.

Para Robert Fatton, professor de política externa da Universidade da Virginia, a carta simboliza "o fracasso dos americanos e é um ataque direto ao governo Biden, o secretário de Estado e, também, o governo no Haiti de Ariel Henry". "Foote constatou que a política americana para o Haiti não mudou e vai continuar como foi nos últimos 15 anos", sublinhou Fatton.

Na carta, Foote também menciona que Estados Unidos deveriam cessar de tentar determinar quem será o presidente ou o primeiro-ministro no Haiti, como se os haitianos fossem marionetes - criando "um problema de legitimidade" dos governos haitianos e acentuando as crises políticas no país caribenho.

"Vamos ver se vai mudar alguma coisa, mas eu duvido porque o governo americano agora está com muitos problemas para resolver", disse Fatton, à RFI.