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Trinta anos de Lia Rodrigues, um encontro sempre renovado com a dança contemporânea

27/09/2021 14h43

Expoente da dança contemporânea, a companhia independente de dança Lia Rodrigues completou 30 anos em 2020. Essa trajetória de produções e encontros, interlocuções entre a dança, a literatura, a antropologia, e "tudo o que é interessante", é retomada no livro "La Passion des Possibles" (Editions l'Attribut), organizado pelas pesquisadoras Isabelle Launay, da Université Paris 8, e Silvia Soter, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Expoente da dança contemporânea, a companhia independente de dança Lia Rodrigues completou 30 anos em 2020. Essa trajetória de produções e encontros, interlocuções entre a dança, a literatura, a antropologia, e "tudo o que é interessante", é retomada no livro "La Passion des Possibles" (Editions l'Attribut), organizado pelas pesquisadoras Isabelle Launay, da Université Paris 8, e Silvia Soter, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

O livro tem a dimensão da paixão, e reúne a experiência e as trocas de vidas inteiras dedicadas à dança, aos espetáculos, à educação e a engajamentos plurais. 

"A tentativa não foi de fazer uma cronologia", explica Isabelle. "A questão era de [transpor] a energia do trabalho. Este livro tem a cara do trabalho [da Lia], é um livro sobre o coletivo, com muito diálogo e sem hierarquia entre os participantes."

Ao longo dos anos, os espetáculos de Lia trouxeram produtos interdisciplinares, colocaram em cena o cruzamento entre a dança, a literatura, a antropologia em um espírito de que "tudo o que é interessante pode ser útil", explica a professora da Université Paris 8. "No trabalho, ela pega tudo o que é possível, coloca tudo junto e depois tem a composição coletiva."

Disso saíram tantos espetáculos, como o mais recente "Encantado", produzido no contexto de crise sanitária e que leva ao palco a ideia de magia, mas também remete a entidades existentes em culturas afro-indígenas. 

A Maré e Lia

A expressão "dos possíveis", no título, vem de Eliana Sousa Silva, da Rede Maré, comunidade no Rio de Janeiro onde está sediada a Lia Rodrigues Companhia de Danças desde 2009, com um centro de cultura e uma escola de dança.

"Essa força de pensar que é possível é uma maneira de costurar a vida e de prestar atenção aos detalhes", analisa Isabelle.

Parceira de Lia Rodrigues de longa data, Silvia Soter diz que na produção da coreógrafa brasileira "o sentido do trabalho sempre é muito mais amplo do que o que se manifesta na cena".

Os espetáculos produzidos no centro de arte da Maré podem ser um exemplo disso. Além do centro de arte e da escola materializarem um espaço de cultura no centro de uma comunidade de 140 mil habitantes em alta vulnerabilidade, eles são mais do que isso.

Durante a pandemia, "o centro de artes virou quartel general do projeto "Maré contra o coronavirus", uma campanha muito feliz e muito eficaz dentro do que é possivel de assistência à saude e de segurança alimentar durante a pandemia. O centro de artes ganhou um desdobramento completamente inesperado. Neste lugar aconteceu a campanha de vacinação, a distribuição de cestas básicas", explica a professora da UFRJ.

A escola de dança, em tempos normais, recebe de 200 a 300 alunos e os introduz a um novo mundo cultural. Alguns, mais tarde, tornam-se dançarinos nos espetáculos de Lia, que fazem turnê pela Europa.

Este é outro ponto de destaque para Silvia. Após fazer sua turnê europeia, os trabalhos de Lia Rodrigues fazem sua estreia brasileira sempre na Maré.

"É um gesto político muito forte porque impõe ao público que quer conhecer as obras da Lia, que acompanha dança contemporânea, em geral bastante elitizado, a se deslocar até a Maré, que é uma favela onde eles muitas vezes nem imaginariam ir", sublinha.

Neste ano, em Paris, Lia será a homenageada do Festival de Outuno e vai apresentar "Encantado", "Nonoroca", "Exército M, de movimento e de Maré" e "Contra os que têm gosto difícil", além de abrir o espaço para dez outros artistas brasileiros.