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Conteúdo publicado há
1 mês

Álbum de HQ que conta história de menina diabética vira sucesso na França

19/10/2021 07h08

A jornalista e escritora francesa Ana Waalder, diabética do tipo 1 desde os três anos de idade, acaba de lançar, em parceria com o marido quadrinista Mikhael Allouche, o álbum "Escroqueuse - Quand l'Hypo Frappe" (A Feiticeira que dribla as hipoglicemias, em tradução livre).

A jornalista e escritora francesa Ana Waalder, diabética do tipo 1 desde os três anos de idade, acaba de lançar, em parceria com o marido quadrinista Mikhael Allouche, o álbum "Escroqueuse - Quand l'Hypo Frappe" (A Feiticeira que dribla as hipoglicemias, em tradução livre).

Taíssa Stivanin, da RFI

Em suas 186 páginas, o livro em formato de quadrinhos coloca o leitor na pele de Ana, que convive com a doença desde pequena. "Queríamos mergulhar o leitor no mundo do diabetes, para que percebesse o impacto que a doença tem na vida de alguém que acaba sendo obrigado a se controlar de maneira permanente, e que tem crises de hipoglicemia que literalmente derrubam a pessoa", disse Ana Waalder à RFI Brasil. Essas crises podem provocar, por exemplo, desmaios em lugares públicos.

De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), o número de diabéticos no mundo aumentou de 108 milhões em 1980 para 422 milhões em 2014. O diabetes se manifesta de várias formas. Os mais conhecidos são os do tipo 1 e 2, mas há muitos outros.

No diabetes de tipo 1, um grupo de células do pâncreas conhecidas como ilhotas de Langershans, que produzem insulina e glucagon, são destruídas por anticorpos fabricados pelo próprio corpo. É uma doença autoimune que aparece em indivíduos predispostos geneticamente, e sua aparição não está ligada aos maus hábitos e fatores como a obesidade, que podem desencadear o tipo 2.

O tratamento exige a injeção cotidiana de insulina e o monitoramento constante do nível de açúcar no sangue, para evitar a hiperglicemia ou a hipoglicemia e o risco de graves consequências para a saúde. Manter a glicemia sob controle exige uma grande disciplina - o que afeta a qualidade de vida do paciente em todos seus aspectos.

"Quando falamos de diabetes, sempre imaginamos um cotidiano que nos obriga a prestar atenção no que comemos. Na realidade, o diabetes é bem mais complexo do que isso, principalmente quando a gente é obrigada a injetar insulina. Com esse livro, queríamos contar uma história emocionante, que prendesse o leitor, e também despertasse o desejo de saber mais sobre essa doença", explica a escritora.

A aposta deu certo: a emocionante história de Ana captura a atenção do leitor, acostumado ou não ao convívio com a doença. De forma romanceada, a jornalista narra como sua família descobriu que ela tinha diabetes, aos três anos, depois de uma festa de família em que ela passou mal e acabou sendo internada.

Ana foi uma criança privada de doces, que passava boa parte da vida em hospitais. Sua família, para protegê-la, decidiu fazer da doença um segredo, escondendo-a inclusive do próprio irmão. Reviver a história familiar no livro de Ana foi um momento difícil para seus pais, mas hoje, segundo ela, eles até fazem propaganda do álbum, que demorou três anos para ser terminado.

Na pele de um diabético

A jornalista e escritora é casada há 15 anos com o quadrinista Mikhael Allouche, que ilustrou o livro. Ele explica que a trajetória de Ana, a menina que descobre que é diabética e se transforma em uma mulher realizada, é o fio condutor do álbum.

"Não é uma história em quadrinhos didática. Aprendemos muito, mas na realidade, entramos em uma história, emocionante, que nos faz mergulhar de cabeça na dificuldade de ser ter um diabetes. É como se o leitor entrasse na pele do personagem ", ressalta. "O álbum é uma história investigativa, imersiva, mas antes de tudo uma história em quadrinhos onde vivemos uma trajetória e, sem perceber, aprendemos muitas coisas. "

No álbum também existe, muitos elementos gráficos simbólicos, explica Mikhael, que serão interpretados de forma diferentes pelos leitores. "A maneira como o leitor vai vivenciar o livro é uma experiência muito pessoal. ", resume.

"Esse quadrinho é uma busca, que também traz uma investigação jornalística sobre os desafios sanitários e políticos da doença. Não falamos apenas sobre a patologia, mas também sobre a maneira como os pacientes são tratados nos hospitais e como o sistema de saúde se organiza em torno do Diabetes", explica.

Em busca da cura

A obra traz, paralelamente, uma investigação jornalística sobre os limites dos tratamentos e a falta de investimento da indústria farmacêutica para buscar a cura para uma patologia que movimenta bilhões de dólares em insulina, agulhas e sistema de monitoramento da glicose no sangue.

"O que eu quis mostrar no livro é a necessidade de ter como objetivo não a criação de novos dispositivos de tratamento, mas a descoberta de um remédio para o diabetes. Sem estabelecer essa meta, continuaremos a nos dar por satisfeitos com ferramentas de gestão da doença. Não queremos mais ferramentas. Queremos um remédio", defende Ana.

Segundo ela, há décadas os especialistas falam sobre o surgimento uma molécula que poderá revolucionar a vida dos pacientes, o que nunca ocorreu. "Não sabemos se é possível encontrar esse remédio. Mas é necessário um financiamento para a pesquisa, para que possamos descobrir, investindo na pesquisa fundamental e em setores como a imunologia. "Pensamos que é nesse sentido que as coisas devem ir. Mas, não somos médicos, ou pesquisadores. Apenas interrogamos muitos deles para perguntar qual era sua opinião", ressalta Ana, que espera que o álbum ajude a tornar a doença mais conhecida pelo grande público.