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Relato da mídia sobre UPPs reforçou visão binária da segurança pública, analisa pesquisadora

17/05/2022 11h52

A pesquisadora brasileira Camila Cabral Salles, doutora em Ciências da Informação e da Comunicação na universidade Sorbonne Nouvelle - Paris III, dá detalhes sobre a tese que desenvolveu na França a partir das narrativas midiáticas sobre a atuação das UPPs no Rio, as Unidades da Polícia Pacificadora, criadas em 2008. Ela disserta sobre como a representação das UPPs na mídia brasileira evoluiu ao longo do tempo e de que forma ela moldou a opinião brasileira nesse período.

A pesquisadora brasileira Camila Cabral Salles, doutora em Ciências da Informação e da Comunicação na universidade Sorbonne Nouvelle - Paris III, dá detalhes sobre a tese que desenvolveu na França a partir das narrativas midiáticas sobre a atuação das UPPs no Rio, as Unidades da Polícia Pacificadora, criadas em 2008. Ela disserta sobre como a representação das UPPs na mídia brasileira evoluiu ao longo do tempo e de que forma ela moldou a opinião brasileira nesse período.

"Desenvolvi esse trabalho na minha tese de doutorado, ele se chama 'Segurança para quem, e a que preço?' nas Unidades de Polícia Pacificadora no jornal O Globo, analisando um período de 10 anos", conta a pesquisadora Camila Cabral Salles. "Analisei como o principal jornal do Rio de Janeiro narrou essa política de pacificação implementada nas favelas cariocas que, no início foram apresentadas - tanto midiaticamente quanto pelo governo - como uma política que traria paz e cidadania, e que hoje em dia está em decadência", explica.

"O que foi priorizado na minha pesquisa foi uma questão temporal, que eu analisei de 2008 a 2018: como essas UPPs foram apresentadas midiaticamente por esse jornal carioca", detalha Salles.

História das UPPs e o desaparecimento de Amarildo

"Estas unidades foram muito bem recebidas no início do projeto em 2008, desde seu lançamento, assim que a primeira UPP foi inaugurada na favela Dona Marta, o jornal O Globo anunciou em título 'Dona Marta livre dos bandidos'. Foi uma política recebida midiaticamente com uma grande efervescência, e que de fato mostrou resultados muito positivos, principalmente neste início do projeto, mas que, a partir de 2013, com o desaparecimento do Amarildo na favela da Rocinha, começou a ser questionada", conta.

"De fato era uma política que prometia muitos benefícios para os moradores das favelas, e não só o braço policial. Foi a partir do desaparecimento de Amarildo que eu consegui identificar, na minha pesquisa, através dessa narrativa de O Globo, que as UPPs começaram a ser questionadas. As pessoas começaram a se perguntar o que aconteceria a partir dali... Como um morador de uma favela é solicitado a entrar no carro da polícia, é levado à UPP na Rocinha e nunca mais volta para casa?", questiona a pesquisadora.

Instrumentalização da questão securitária pela mídia

"O que pude observar um pouco nesse estudo é que as narrativas midiáticas reforçam uma certa concepção em relação à segurança pública de uma forma um pouco binária. É o bom versus mal, a polícia versus o bandido, a favela versus o asfalto. Esse tipo de narrativa corrobora esse pensamento que tem um nós versus eu, e que isso serviria para justificar políticas que são opressoras e que servem para um controle social, que colocam certas populações - favelas, negros, indígenas - como sendo inimigos, um 'outro' que não é reconhecido pelo sistema", analisa.

*Para assistir à entrevista na íntegra, clique na foto da matéria