Polícia francesa prende guru ligado à seita de Tantra Yoga na região de Paris

A polícia francesa prendeu nesta terça-feira (28), na região de Paris, o guru de uma seita internacional ligada à prática de tantra ioga, a Federação de Yoga Atman, acusado de doutrinar seguidoras de sua organização para fins de exploração sexual. De acordo com informações confirmadas ao jornal Libération e à RFI pela Procuradoria de Paris, Gregorian Bivolaru foi preso durante uma operação em grande escala contra a sua rede de tráfico de mulheres.

No total, 175 agentes participaram da ação realizada simultaneamente em Paris, Seine-et-Marne, Val-de-Marne e Alpes-Maritimes, em que 41 pessoas foram detidas. 

Gregorian Bivolaru, um romeno de 71 anos, é o líder desta rede que funcionava sob o pretexto do tantrismo, filosofia que tem sua origem na Índia no primeiro milênio d.C. Bivolaru foi detido numa residência em Ivry-sur-Seine, em Val-de-Marne onde, segundo os depoimentos das vítimas, ele teria trazido seus seguidores para "iniciações sexuais" da ioga tântrica. 

Já condenado na Romênia pelo estupro de uma menor e procurado pela Interpol por tráfico de mulheres, o guru é alvo de uma investigação judicial desde julho de 2023 por tráfico de seres humanos, rapto por associação criminosa, estupro e abuso de incapazes em grupo organizado e por membros de uma seita. 

Gregorian Bivolaru é considerado o "líder espiritual" da federação de ioga Atman, uma entidade que se dedica ao ensino da Tantra Yoga, uma prática inspirada na filosofia hindu para autoconhecimento e estimulação da energia, unificando o masculino e o feminino. De acordo com seus praticantes, o desenvolvimento da energia sexual não é o intuito da prática, mas pode ser influenciada por ela.  

A Atman está presente em 31 países, incluindo a maioria dos países europeus. Na França, ele opera através da associação Yoga Integral, presente em Paris, Nice e Poitiers. 

Dezenas de mulheres sequestradas 

Os primeiros relatos significativos destes supostos crimes foram registrados em julho de 2022, por doze antigas seguidoras de Bivolaru, ao Miviludes, o organismo público responsável por abusos sectários. A investigação foi então realizada pelo Gabinete Central de Repressão à Violência contra as Pessoas, e através da sua Unidade de Assistências e Intervenção em Matéria de Derivas Sectárias (Caimades), especializada no controle mental das vítimas. Uma investigação judicial foi aberta pelo Ministério Público de Paris em julho de 2023, com base, entre outros indícios, nas queixas de três pessoas.

Segundo os depoimentos de três vítimas de Gregorian Bivolaru, recolhidos nas últimas semanas pela RFI, cerca de dez mulheres eram regularmente sequestradas ao mesmo tempo, durante dias, em vários alojamentos na região de Paris, a fim de satisfazer os apetites sexuais do guru romeno. No momento da prisão, 26 mulheres estavam em condições precárias e de higiene deplorável. 

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Gregorian Bivolaru, chamado de "Grieg" pelos seus seguidores, fundou a federação na Romênia. No início era a associação Movimento para a Integração Espiritual no Absoluto, ou Misa, fundada em 1990, durante o renascimento cultural que se seguiu à queda do ditador Ceausescu. Um culto à personalidade deste "guru" é então estabelecido, incluindo orgias em sua homenagem. Ao mesmo tempo, as autoridades romenas acusam Gregorian Bivolaru de tráfico de seres humanos e de evasão fiscal, o que o leva ao exílio.  

Gregorian Bivolaru obteve asilo político na Suécia, em 2005, onde criou uma nova identidade, sob o sobrenome de Magnus Aurolsson. Dois deputados dinamarqueses do Parlamento Europeu defenderam Gregorian Bivolaru perante as autoridades europeias, alegando que estes processos eram políticos e que o sistema judicial romeno não era independente.  

Ulla Sandbaek, eurodeputada até 2004 e no Parlamento dinamarquês até 2019, era uma seguidora regular na seção dinamarquesa da federação, Natha. Numa entrevista transmitida há cerca de dez anos, ela afirmou que Gregorian Bivolaru era "um homem de Deus que trabalha em benefício da humanidade". Ulla Sandbaek não respondeu aos pedidos de entrevista da RFI. 

Um guru procurado pela Interpol 

A associação Atman e os seus professores foram excluídos das federações internacionais e europeias de ioga em 2008 por atividades "pornográficas".

A federação Atman, por sua vez, afirma que os serviços secretos romenos alegadamente torturaram seguidores para testemunharem contra o seu fundador e refuta todas as acusações. 

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Gregorian Bivolaru foi condenado a seis anos de prisão na Romênia pelo estupro de uma menor e extraditado da França, em 2016. Passou apenas um ano detido, antes de regressar à Escandinávia, onde foram abertos novos processos contra ele. 

Seis seguidores finlandeses apresentaram uma queixa contra Gregorian Bivolaru por tráfico de seres humanos, e Helsinque emitiu um mandado de busca internacional através da Interpol, em 2017. Desde então, Gregorian Bivolaru continuou a atrair seus seguidores com pregações tântricas, em Paris e na região parisiense. 

A organização dele tem vários meios de financiamento: de acordo com testemunhos de antigos seguidores, membros das associações de Atman foram forçados a trabalhar gratuitamente em "clubes de strip-tease", casas de massagens, ou a fazer filmes pornográficos comerciais na Romênia, na Hungria e na República Tcheca, diversas formas de prostituição que permitiriam ao movimento se financiar. Alguns membros também doam parte do seu salário para a organização, ou fizeram grandes doações para construir novos "ashrams" (locais de retiro) 

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