"Anarquia total": em Gaza, apesar da trégua frágil, o desastre humanitário continua

Desde o acordo de trégua na Faixa de Gaza, a ajuda humanitária tem conseguido entrar com mais regularidade na localidade. Mas "o volume de ajuda que chega aos palestinos ainda é totalmente insuficiente", denunciou o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, na quarta-feira (29), e a população está passando por "uma catástrofe humanitária monumental". Os repórteres da RFI em Gaza e Jerusalém conversaram com moradores locais sobre a situação.

 

Rami Al Meghari, enviado especial a Gaza, e Sami Boukhelifa, correspondente da RFI em Jerusalém

São 20h e Aabir, uma mãe palestina, está na fila desde as 6h para conseguir algo para comer. Cansada, esta noite ela perde a esperança. "É uma anarquia total. As pessoas estão pisando umas nas outras. E eu sou a única que conseguiu entrar na fila: meu irmão morreu em um bombardeio e seus filhos ficaram órfãos", explica ela. "Os outros membros da família dividem as tarefas: alguns fazem fila para comprar farinha, outros para comprar água. Essa guerra nos arrasou. É humilhante", diz à reportagem da RFI.

Volume insuficiente

Cerca de 80% da população de Gaza foi desalojada pelos bombardeios israelenses. "O sistema alimentar entrou em colapso e a fome está se espalhando", enfatizou o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, na quarta-feira.

O acordo de trégua acelerou o fluxo de ajuda humanitária, que antes chegava aos poucos, mas o volume ainda é insuficiente. "Acreditamos que precisamos de um cessar-fogo humanitário genuíno", defendeu o chefe da ONU. "O povo de Gaza está vivendo em meio a uma catástrofe humanitária monumental, diante dos olhos do mundo. Não podemos fechar os olhos", alertou.

Encontrando gás

Para os sortudos que conseguiram um pequeno saco de farinha para fazer pão, o desafio é encontrar gás para cozinhá-lo. Mohaned está exausto. "Minha família tem cinco membros. Como tenho uma casa grande, acolhi pessoas desabrigadas. Somos 21 aqui dentro", diz ele.

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"Fiquei na fila por 26 horas para conseguir gás. Dormi do lado de fora, aqui, no frio e na chuva. Fiquei doente. Dada a escala das necessidades, os comboios de ajuda humanitária que entram em Gaza todos os dias estão longe de ser suficientes", suspira o pai de família.

Ataque em Jerusalém

O movimento islâmico Hamas reivindicou a responsabilidade, nesta quinta-feira (30), por um ataque em Jerusalém que deixou três pessoas mortas, depois de concordar em estender uma frágil trégua com Israel por um dia e libertar mais reféns israelenses em troca de prisioneiros palestinos.

O secretário de Estado americano, Antony Blinken, conclamou o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, a proteger "imperativamente" os civis no sul da Faixa de Gaza, caso a trégua fosse interrompida.

A trégua, que deveria durar até 7h de sexta-feira, entrou em vigor em 24 de novembro, após mais de sete semanas de bombardeios israelenses devastadores na Faixa de Gaza, em retaliação a um ataque sem precedentes lançado em 7 de outubro pelo movimento islâmico Hamas em solo israelense.

Além da volatilidade da situação, três israelenses, incluindo duas mulheres, foram mortos nesta quinta-feira em um ataque a um ponto de ônibus em Jerusalém Ocidental, realizado por dois palestinos afiliados ao Hamas, de acordo com a polícia israelense.

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O movimento palestino, considerado terrorista pelos Estados Unidos, pela União Europeia e por Israel, disse estar por trás do ataque. Em um comunicado, o Hamas informou que os dois agressores eram membros de seu braço armado e de Sur Baher, um distrito de Jerusalém Oriental, a parte palestina da cidade ocupada e anexada por Israel.

A polícia israelense confirmou que os agressores, dois irmãos, foram mortos a tiros. Dois soldados israelenses também ficaram levemente feridos em um ataque com carro-bomba em um posto de controle na Cisjordânia ocupada, de acordo com o exército.

Poucos minutos antes de a trégua expirar nesta quinta-feira, o exército israelense anunciou que "a pausa operacional" continuaria, dizendo que havia recebido uma nova "lista" de mulheres e crianças a serem libertadas mais tarde.

(Com AFP)

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