Imprensa alemã é cética em relação ao acordo Mercosul-UE, defendido por Lula em Berlim

Será que o acordo econômico com o Mercosul virá mesmo? Essa pergunta, manchete de alguns dos maiores portais de notícia da Alemanha, resume a tônica da cobertura da imprensa do país europeu sobre a visita a Berlim do presidente Luís Inácio Lula da Silva, iniciada nesta segunda-feira (04/12).

 

Márcio Damasceno, correspondente da RFI na Alemanha

O governo alemão tem interesse no fechamento do pacto, que está em suspenso desde o fim das negociações em 2019, após cerca de 20 anos de conversas entre o bloco sul-americano e a União Europeia. Caso vire realidade, será uma das maiores zonas de livre comércio do mundo, com 700 milhões de habitantes.

"Estamos fortemente empenhados em garantir que o acordo agora seja rapidamente finalizado", disse o chanceler alemão, Olaf Scholz, em coletiva após reunião com Lula.

Os empresários alemães também fazem pressão pelo rápido fechamento do contrato comercial, depositando grandes esperanças no encontro dos dois governos. "Precisamos do acordo ainda este ano. Caso contrário, existe o risco de se tornar uma 'história sem fim'", afirmou um representante das indústrias alemãs citado pela mídia do país.

Não é para menos. Brasil e Alemanha mantêm relações densas em comércio e investimentos. O comércio bilateral chegou a US$ 19 bilhões no ano passado, tendo somado, entre janeiro e outubro de 2023, US$ 15,9 bilhões. Mais de mil empresas alemãs atuam no Brasil. Uma das principais preocupações do empresariado do país europeu é que eles percam ainda mais  terreno não só para os EUA, mas sobretudo para investimentos chineses no Brasil, tendência crescente nos últimos anos.

Entretanto, parece que o acordo fica cada dia mais longe. As críticas vêm de ambos os lados, o presidente francês afirmou que o documento está "mal emendado" durante entrevista na COP28, se referindo a preocupações com o meio ambiente e o desmatamento florestal. Os governos de Argentina e Paraguai também expressaram ceticismo nos últimos dias, apontando para as barreiras europeias aos produtos sul-americanos.

Ceticismo europeu

A imprensa alemã também é cética quando ao sucesso do pacto UE-Mercosul e aponta para uma Europa em momento de decadente importância econômica em comparação com outros players globais e a fragilidade da atual posição de negociação dos europeus, em comparação com anos atrás. Críticos ressaltam que parceiros como EUA e China fazem menos perguntas do que os europeus quando se trata da política interna brasileira, além de apresentarem crescimento mais forte no longo prazo.

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"Se a Europa não quiser se automarginalizar em termos de política comercial, terá de enfrentar a nova realidade geopolítica", alerta o influente jornal especializado em economia Handelsblatt. "O fato de os europeus não terem conseguido concluir precocemente o acordo que reúne mais de 700 milhões de pessoas e, em vez disso, sobrecarregá-lo com exigências adicionais foi um grande erro estratégico. Há muito que está claro que já não são as democracias ocidentais que determinam as regras da política comercial global. Os europeus, em particular, estão perdendo cada vez mais o seu poder e o peso da política comercial, não só devido à sua crônica falta de unidade, mas também devido às suas fracas perspectivas de crescimento", ressalta o jornal.

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