OMS alerta para risco de epidemia de poliomielite em Gaza; vírus pode atingir outros países na fronteira

O último caso de poliomielite foi registrado há mais 25 anos nos territórios palestinos ocupados, mas a descoberta do vírus nas águas residuais do enclave é preocupante, alerta a Organização Mundial da Saúde (OMS). Segundo a entidade, se nada for feito, o risco de a doença se espalhar para Gaza e outros países da fronteira é alto.  

 

Jérémie Lanche, correspondente da RFI em Genebra

Antes da guerra, a taxa de vacinação contra a poliomielite em Gaza estava próxima de 90%. Desde então, a situação mudou. Menos da metade dos hospitais do enclave ainda estão funcionando, e para muitos habitantes, é praticamente impossível chegar até os estabelecimentos para obter atendimento. 

Para a população, também é difícil evitar a contaminação, já que a poliomielite é uma doença que se transmite pela água não-tratada, principalmente em áreas sem saneamento básico. Em alguns casos, a doença, que atinge principalmente crianças de menos de cinco anos, pode causar uma paralisia irreversível.

"Diante da dificuldade de acesso à água tratada em Gaza, será muito complicado para os moradores seguirem as recomendações básicas para lutar contra a doença, como lavar as mãos ou beber água limpa", explicou Yadil Saparbekov, representante da Organização Mundial da Saúde (OMS) na região durante uma coletiva de imprensa, nesta terça-feira (23). 

"Isso é impossível quando você mora em lugares onde um banheiro é dividido entre 600 pessoas", diz Saparbekov.

"Com o sistema de saúde paralisado, a falta de água e saneamento, e a falta de acesso da população aos serviços de saúde, a situação parece muito complexa", enfatizou.   

O vírus encontrado em Gaza é um poliovírus, que sofreu mutação da fonte contida na vacina oral contra a poliomielite, a OPV. Esta sigla em inglês designa o imunizante que contém o vírus vivo em forma atenuada. A IPV utiliza o vírus inativado.

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Quando se replicam no trato digestivo, as cepas de OPV mudam geneticamente e podem se espalhar em comunidades que não estão totalmente vacinadas contra a poliomielite, especialmente em áreas com más condições de higiene e saneamento ou em áreas superlotadas.    

Em 16 de julho, a Rede Global de Laboratórios de Pólio isolou o poliovírus tipo 2, derivado da vacina (cVDPV2) de seis amostras de águas residuais em Deir al-Balah e Khan Younis.

Por enquanto, nenhuma amostra humana foi coletada em Gaza, o que a impede a OMS de confirmar uma infecção pelo poliovírus. A OMS e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) esperam coletar as primeiras amostras humanas esta semana.

A organização alertou que há "um alto risco" de propagação do poliovírus em Gaza e em outros países "se este surto não for mitigado" de "forma rápida e otimizada". A expectativa é que as recomendações possam ser publicadas no domingo (28).   

O Exército israelense anunciou no dia 21 o lançamento de uma campanha de vacinação para seus soldados contra a poliomielite.

Sistema de saúde está destruído

Apenas 16 dos 36 hospitais em Gaza estão operacionais, mas parcialmente, de acordo com a OMS, que relata um "fluxo intenso de feridos" no complexo médico de Nasser após um novo bombardeio ocorrido na segunda-feira (22) em Khan Younis. O ataque acontece em um contexto de "grave escassez de reservas de sangue, suprimentos médicos e leitos hospitalares".

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Antes do conflito em Gaza, que começou em 7 de outubro de 2023 com ataques do Hamas, havia cerca de 3.500 leitos hospitalares no território palestino. Hoje, a OMS estima que existam 1.532.

Apenas 45 das 105 unidades de atenção primária à saúde estão operacionais, bem como oito dos dez hospitais de campanha, sendo que quatro deles funcionam apenas parcialmente. Diante da situação, "pode ser que mais pessoas morram mais de doenças transmissíveis do que de ferimentos" relacionados à guerra, alertou Saparbekov. De acordo com o funcionário da OMS, "até 14.000 pessoas" podem precisar de evacuação médica para fora de Gaza.

(RFI e AFP)

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