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A fórmula para perder uma eleição

Jorge Ramos

14/11/2012 00h01

Esta é a fórmula para perder uma eleição presidencial nos EUA: use palavras que insultem muitos latinos (como "illegal aliens"), apoie a lei mais racista do país (a controversa legislação anti-imigração do Arizona), diga que é a favor da "autodeportação" (que tornaria impossível a vida de milhões de imigrantes) e anuncie que vetaria a Lei do Sonho (que beneficiaria os estudantes sem documentos).

Se você fizer tudo isso junto, vai perder o voto latino e vai perder a eleição presidencial. Com certeza. Sempre.

Foi exatamente o que fizeram o candidato Mitt Romney e o Partido Republicano. E perderam a Casa Branca e os eleitores hispânicos. O presidente Barack Obama teve 71% do voto latino e Romney apenas alcançou 27%, segundo pesquisa da ABC News. Os republicanos estão em queda com os latinos.

Compare os resultados obtidos por Romney com os do presidente George W. Bush em 2004, quando recebeu 44% da votação, estabelecendo um recorde para os republicanos e convencendo os líderes de que promover sua agenda conservadora bastaria para atrair os eleitores hispânicos. Mas estavam enganados. Em 2008, o candidato republicano John McCain convenceu somente 31% dos hispânicos a votar nele. Desde 1996 os republicanos não iam tão mal com os latinos. Não basta sua agenda conservadora - contra o aborto, contra os abusos do governo e pelo pagamento de menos impostos -, precisam também de uma política migratória mais realista.

Os republicanos desperdiçaram uma oportunidade histórica de recuperar o voto hispânico. Enfrentaram um presidente que deportou mais de 1,5 milhão de sem documentos e que não cumpriu sua promessa migratória. Mas em vez de propor soluções concretas atacaram os hispânicos e os imigrantes como se fossem seus inimigos. Esqueceram-se de que a questão migratória é algo pessoal para nós, latinos.

Romney poderia ser um novo Bush com os hispânicos. Mas não quis. Em troca, será lembrado como o primeiro candidato republicano desde 1986 que se opôs a dar aos sem documentos um caminho para a cidadania. Assim, Romney perdeu os latinos em Estados chaves como Colorado, Nevada e Flórida. E se continuarem assim os republicanos também perderão o Texas daqui a algumas eleições. A partir daí será tudo ladeira abaixo.

A lição é claríssima: se os republicanos não melhorarem sua relação com os latinos, vão perder a Casa Branca por gerações. E para melhorar essa relação a única coisa que podem fazer é demonstrar, com fatos e com leis, que realmente se importam com os latinos. Todos. Não só os legais.

Os congressistas republicanos ficaram no passado. São contrários, em sua maioria, a uma legalização dos sem documentos, quando 65% dos americanos a apoiam, segundo uma pesquisa feita pela Fox News no dia da eleição.

O primeiro passo concreto que os republicanos devem dar é cooperar em 2013 com os democratas e com o presidente Barack Obama para negociar uma legalização dos sem documentos. Não se trata de abrir a fronteira. Trata-se de ser justos e de resolver a situação de 11 milhões de pessoas que vivem na obscuridade e com medo. Para os republicanos é uma simples questão de sobrevivência política. Se não o fizerem, o voto latino os fará desaparecer do mapa.

No Partido Republicano há figuras de muito peso - como Jeb Bush, o ex-governador da Flórida e possível candidato presidencial em 2016 - que favorecem uma reforma migratória integral. Há muitos como ele que compreendem que o Partido Republicano não tem futuro sem os hispânicos. É uma simples questão de números. Somos mais de 50 milhões e em 2050 seremos 150 milhões; um em cada três norte-americanos será latino.

O país está mudando demograficamente. Como disse Tom Davis, um ex-congressista republicano da Virgínia em um artigo publicado em "The New York Times" um dia depois da eleição: "Simplesmente não há homens brancos suficientes em idade média que possamos reunir para ganhar". Se não aumentarem seu apoio entre os latinos, os republicanos estarão condenados ao fracasso.

Para demonstrar sua boa vontade, os republicanos poderiam começar controlando sua linguagem. Quando o governador Romney foi ao fórum da Univision em setembro, chamou de "illegal aliens" os jovens sem documentos que foram trazidos ainda crianças para os EUA por seus pais e cujo único crime é querer ir para a universidade. Mas para muitos latinos esse termo é um insulto. Nenhum ser humano é ilegal, dizia o sobrevivente do holocausto Elie Wiesel. Por coisas assim, Romney teve o menor apoio entre os eleitores latinos em 16 anos.

A nova regra da política nos EUA é que ninguém chega à Casa Branca sem o voto latino. Mas parece que nesta eleição ninguém disse isso a Mitt Romney.