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O Povo da Praça, parte 1

Thomas L. Friedman

Em Hanói, no Vietnã

16/05/2014 00h01

Acho que vou planejar mais viagens de Kiev a Hanói. Apenas quando você vai a dois lugares aparentemente desconexos que você vê as grandes tendências, e uma dessas que eu notei foi o surgimento do “Povo da Praça”.

Em 2004, o cientista político de Harvard Samuel Huntington escreveu sobre uma “superclasse” emergente global de “Homens de Davos” –em uma alusão aos participantes do Fórum Econômico Mundial de Davos- uma elite transnacional e cosmopolita, vinda dos setores de alta tecnologia, de finanças, de empresas multinacionais, da academia e de ONGs. Os Homens Davos têm “pouca lealdade nacional” e mais em comum uns com os outros do que com os seus concidadãos, argumentou Huntington. Eles também têm a capacidade de se beneficiar desproporcionalmente com a nova globalização dos mercados e das tecnologias de informação.

Bem, uma década depois, na medida em que a revolução da TI e a globalização foram democratizadas e difundidas -quando passamos de uma situação em que as elites tinham laptops e hoje há smartphones para todos; em que a Internet era para os poucos sortudos em Davos e hoje há Facebook para todos; e quando só os ricos eram ouvidos nos corredores do poder e hoje todos podem falar com seus líderes pelo Twitter- uma nova força política global está nascendo, maior e mais importante do que os Homens de Davos. Eu chamo essa força de Povo da Praça.

Em sua maioria, são jovens que aspiram a uma melhor qualidade de vida e mais liberdade, por meio de reforma ou revolução (dependendo do governo existente), conectados uns aos outros por reuniões nas praças reais ou virtuais ou ambas e unidos mais por um sentido compartilhado da direção que querem dar à sua sociedade do que por um programa comum. Nós os vimos nas praças de Túnis, Cairo, Istambul, Nova Déli, Damasco, Trípoli, Beirute, Sanaa, Teerã, Moscou, Rio, Tel Aviv e Kiev, assim como nas praças virtuais da Arábia Saudita, China e Vietnã.

Os três últimos países têm um número extraordinariamente grande de usuários de Facebook, Twitter e YouTube, ou seus equivalentes chineses, que juntos constituem uma praça virtual, onde eles se conectam, promovem mudanças e questionam a autoridade. O blogueiro vietnamita mais popular, Nguyen Quang Lap, tem mais seguidores do que qualquer jornal do governo. Na Arábia Saudita, uma das hashtags mais populares do Twitter é: # Se eu encontrasse o Rei eu diria.

E o Povo da Praça está se tornando mais numeroso e mais capacitado. “Nosso objetivo é que, em três anos, todos os vietnamitas tenham um smartphone”, disse Nguyen Manh Hung, que preside o Grupo Viettel, uma empresa de telecomunicações vietnamita. “Estamos fabricando um smartphone por menos de US$ 40 (em torno de R$ 100) e nossa meta é chegar a US$ 35. Nós cobramos US$ 2 por mês para conexão com a Internet para um PC e US$ 2,50 para voz a partir de um smartphone”. Como a mídia vietnamita é fortemente censurada, não é por acaso que 22 milhões dos 90 milhões de vietnamitas estão no Facebook. Apenas dois anos atrás, havia apenas 8 milhões. O Vietnã tem cerca de 100.000 alunos que estudam no exterior; uma década atrás era um décimo disso. Todos vão engrossar o Povo da Praça.

Com certeza, o Povo da Praça representa uma diversidade política, incluindo a Irmandade Muçulmana no Egito e ultranacionalistas, em Kiev. Mas a tendência dominante que atravessa todos eles é esta: “Agora temos as ferramentas para ver como todo mundo está vivendo, incluindo oportunidades no exterior e líderes corruptos em casa, e não vamos tolerar indefinidamente viver em um contexto em que não podemos realizar nosso potencial. E agora também temos as ferramentas de colaboração para fazer algo a respeito disso”.

Como disse um especialista em política externa vietnamita, o Povo da Praça, de uma forma ou de outra, “está exigindo um novo contrato social” com a velha guarda que sempre dominou a política. “As pessoas querem que sua voz seja ouvida em todo debate importante”, além de melhores escolas, estradas e Estado de direito. E se comparam com os outros facilmente: “Por que aqueles tailandeses podem se manifestar, e nós, não?”

O Povo da Praça da Ucrânia deseja se associar com a União Europeia -não apenas porque acha que é a chave para a prosperidade, mas porque acredita que as regras europeias, as normas jurídicas e os requerimentos de transparência vão forçar as mudanças desejadas em casa, mas que não podem ser promovidas de cima ou de baixo. Os reformadores vietnamitas querem aderir à Parceria Trans-Pacífica pelas mesmas razões. Ao contrário dos Homens de Davos, o Povo da Praça quer usar a economia global para reformar seus países, e não para ficar acima deles.

Eu dei uma palestra sobre globalização na Universidade Nacional, em Hanói. Depois, conversei com uma jovem, Anh Nguyen, 19, estudante que tinha feito várias boas perguntas. Sua conversa era salpicada com o discurso da Praça: “Eu me sinto confiante... Acho que o Vietnã pode mudar... Por favor, fale ao mundo sobre o grande caso de corrupção (em uma companhia de navegação estatal) descoberto aqui. Antes, as pessoas teriam ficado em silêncio, mas saiu o veredito e condenaram os mandantes à morte... Realmente surpreendeu as pessoas. Hoje, nem todo chefão é protegido pelo governo... Temos muitas fontes diferentes de informação no mundo. Isso abre os olhos”. Ela tem uma chance muito maior de alcançar seu potencial do que seus pais, mas ainda assim acrescentou: “Não tanto quanto eu quero”.

Saiam da frente, Homens de Davos, o Povo da Praça está chegando.