Após onda de assassinatos em 2010, AL já contabiliza quatro mortes de moradores de rua este ano
Carlos Madeiro
Especial para o UOL Notícias
Em Maceió (AL)
Depois de registrar 36 assassinatos de moradores em situação de rua em 2010, Alagoas começou o ano enfrentando o mesmo problema. Em menos de 20 dias, quatro mortes já foram registradas pelas autoridades, sendo duas delas na capital, Maceió, e duas no município de São Miguel dos Campos.
O último crime ocorreu na quarta-feira (19) e vitimou Nataniel Iraktan da Silva, 17. Ele foi morto enquanto dormia embaixo de uma marquise no bairro do Trapiche, vizinho ao centro da capital alagoana. Segundo a polícia, homens armados chegaram em um carro, durante a noite, e dispararam contra o adolescente, que morreu no local. A esposa de Iraktan confirmou que o adolescente tinha dívidas com traficantes de drogas
Os novos casos de violência chamaram a atenção das autoridades e especialistas em direitos humanos, que cobraram investigação policial investimento para evitar novos crimes. “Nós vemos essas novas mortes com grande preocupação. Virou moda dizer que o problema ou é só da União ou é do Estado ou é da prefeitura. A vida é maior que isso e precisamos de soluções efetivas. Não importa que tome ação”, afirmou o presidente do Conselho de Direitos Humanos de Alagoas, Everaldo Patriota.
Para ele, a prevenção de novas mortes poderia ser feita de forma rápida com a adoção de uma medida simples. “O prudente seriam destinar abrigos, com proteção policial, para que os moradores de rua dormissem com segurança. É preciso que se aponte se há algum grupo agindo, quem são os assassinos, senão, vamos continuar em situação de vulnerabilidade extrema”, assegurou. Atualmente, a prefeitura de Maceió oferece apenas um abrigo aos moradores de rua, com capacidade para 100 pessoas.
O MP (Ministério Público Estadual) cobrou investigação rápida da polícia a fim de se identificar e punir os autores dos crimes. “É preciso que seja apurado de forma rápida para evitarmos uma nova onda de mortes como no ano passado”, disse o promotor especial dos Direitos Humanos, Flávio Gomes da Costa.
Segundo ele, a prevenção de novos crimes é “complexa” e envolve questões sociais e sanitárias. Para o promotor, o mais importante agora é que o Estado financie com eficiência o tratamento de dependentes químicos. “Os moradores de rua são pessoas que estão em situação de risco social, e normalmente são dependentes químicos. O estado precisa com urgência investir no tratamento involuntário desses viciados, já que hoje se é feito para aqueles voluntários. Nem todo mundo que está no mundo das drogas quer se tratar, já que é mais vantagem para ele continuar na droga. Tem que entrar com uma medida de força, pois uma pessoa dessas está com suas capacidades comprometidas”, destacou o promotor.
O UOL Notícias solicitou à polícia civil, por meio de sua assessoria de comunicação, informações sobre como está o andamento das investigações, mas até o início da tarde de sexta-feira (21) não obteve resposta. O secretário municipal de Cidadania, Direitos Humanos e Segurança Comunitária, Pedro Montenegro, também foi procurado, mas a assessoria de comunicação do órgão informou que ele está de ferias no mês de janeiro.
Mortes em 2010
As mortes de moradores de rua em Alagoas tiveram repercussão nacional e internacional. Em novembro, o Ministério da Justiça designou a Força Nacional da Polícia Judiciária para ajudar na investigação os casos. Um relatório apresentado no dia 22 apontou que das 36 vítimas em situação de rua assassinadas, 23 tiveram os autores identificados. Ainda de acordo com as investigações, das vítimas, 24 eram moradoras de rua e 12 se tratavam de pessoas em situação de rua (que passavam dias nas ruas, mas possuíam casas).
O principal motivo apontado no relatório para as mortes é a dívida com traficantes de drogas. Do total de vítimas, 83% tinha dependência química. Algumas mortes também teriam motivações distintas, como briga por território, outras dívidas e crimes passionais.
A polícia informou ainda, à época, que as investigações apontaram para “alguns casos com características de grupo de extermínio”, mas descobriu que os crimes foram praticados por uma só pessoa. O vigilante Luiz Carlos Soares da Silva Santos é apontado pela polícia como autor de quatro assassinatos contra pessoas vulneráveis no bairro da Levada. Ele e mais seis pessoas foram presas durante as investigações.
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