Lindemberg agrediu Eloá várias vezes e se vangloriava da repercussão do caso, diz amiga da vítima

Débora Melo*
Do UOL, em Santo André (SP)

A amiga de Eloá Pimentel, Nayara Rodrigues, que foi feita refém junto com a jovem em 2008 por Lindemberg Alves, afirmou durante o julgamento do caso --que teve início nesta segunda-feira (13)-- que o réu agrediu Eloá durante o período de cativeiro.

"Lindemberg agrediu várias vezes a Eloá enquanto nos mantinha reféns", disse Nayara.

Em outubro de 2008, Lindemberg manteve Eloá, sua ex-namorada, como refém por cerca de cem horas. O caso terminou com a morte da jovem. O julgamento começou hoje no Fórum de Santo André, no ABC Paulista, e pode durar entre três e quatro dias.

O réu é acusado de cometer 12 crimes, entre eles homicídio duplamente qualificado por motivo torpe, tentativa de homicídio (contra Nayara Rodrigues e contra o sargento Atos Valeriano, que participou da ação de resgate), cárcere privado e disparos de arma de fogo. Se for condenado por todos os crimes, a pena pode ser superior a cem anos de prisão --Lindemberg está preso desde 2008.

Durante o cárcere privado, Nayara chegou a ser libertada, mas acabou retornando ao cativeiro. Para a jovem,  o acusado queria se livrar dela para ficar sozinho com Eloá. “Quando eu voltei ao apartamento, ela estava bastante machucada. (...) Eloá dizia o tempo todo que sabia que ia morrer”, declarou Nayara, que foi ferida por um tiro no rosto quando a polícia invadiu o local.

A jovem afirmou que ouviu três disparos no intervalo entre a explosão da porta --estratégia usada pela polícia para invadir o apartamento-- e a entrada dos agentes no local. Na versão da polícia, a invasão foi motivada por um disparo que teria sido dado dentro do cativeiro.

A amiga de Eloá também falou sobre o comportamento do ex-namorado da vítima. “Lindemberg passou a perseguir a Eloá depois que eles terminaram o namoro”, completou. Já sobre o comportamento do réu durante o cárcere, ela afirmou que Lindemberg dava risada e se vangloriava pela repercussão do caso na mídia. "Na televisão só passava isso [relatos do caso]", disse Nayara.

Segundo a jovem, ele a considerava uma má influência para Eloá. "Ele tinha raiva de mim e da minha mãe porque a Eloá andava dormindo lá em casa e a gente saia bastante. Ele dizia que eu a influenciava diretamente", relembrou.

Durante o depoimento, o réu foi tirado da sala a pedido de Nayara, que terminou de falar por volta das 17h. Foi decretado um intervalo de dez minutos antes da próxima testemunha ser ouvida.

Mãe e irmão como testemunhas

Após uma pausa para o almoço, o julgamento foi retomando por volta das 14h30 desta segunda. Antes disso, foram exibidas reportagens de diversas emissoras de televisão, incluindo uma entrevista com o réu e trechos das negociações com a polícia. O júri, que foi sorteado momentos antes de início do julgamento na manhã de hoje, é formado por seis homens e uma mulher

Durante esse período inicial, Lindemberg manteve o olhar sempre fixo para frente --onde ficam os jurados, que assistiam aos vídeos-- e as mãos juntas entre as pernas, sem esboçar nenhuma reação.

De acordo com a advogada de defesa, Ana Lúcia Assad, o acusado vai falar pela primeira vez sobre o caso. "Dessa vez ele vai falar, Lindemberg vai expor a versão dele dos fatos", comentou.

Questionada se a tática de exibir horas e horas de vídeos seria uma tentativa de cansar os jurados, Assad negou e acrescentou que "todos, do meu ponto de vista, são corresponsáveis [pelo crime], até mesmo a sociedade". A linha da defesa é que a imprensa --que realizou entrevistas com o réu durante o período do cárcere-- e a polícia também contribuíram para a tragédia.

Lindemberg chegou ao fórum por volta das 8h15. “Ele está calmo, mas ao mesmo tempo nervoso”, disse a advogada sobre o réu.

No começo do julgamento, a juíza Milena Dias aceitou um pedido da defesa e autorizou a inclusão da mãe e do irmão mais novo da jovem como testemunhas.

Dias também aceitou que fossem retiradas as algemas de Lindemberg --outra solicitação da defesa. A promotora Daniela Hashimoto se manifestou contrária aos dois pedidos.

Com as alterações, Ana Cristina Pimentel, mãe de Eloá, será ouvida no lugar do perito Nelson Gonçalves. O irmão mais novo da vítima, Everton Douglas, que também era amigo de Lindemberg, será ouvido no lugar da jornalista Ana Paula Neves. Os jornalistas Sonia Abrão, Roberto Cabrini e Gotino, e o perito Ricardo Molina foram dispensados.

Mais cedo, a advogada de defesa Ana Lúcia Assad chegou a ameaçar deixar o plenário caso a mãe de Eloá não fosse relacionada como testemunha. Ao chegar ao fórum, Assad afirmou esperar que o júri escute o que o réu tem a dizer. “Espero que os jurados venham desarmados, prontos para receber a versão do menino. Ele é um bom rapaz”, afirmou.

Ao todo e com as dispensas, serão ouvidas 15 testemunhas. As testemunhas de acusação convocadas pelo Ministério Público são Nayara Rodrigues; Vitor Lopes de Campos e Iago Vilela de Oliveira, amigos de Eloá que estavam no apartamento dela quando Lindemberg o invadiu; Ronickson Pimentel, irmão mais velho da vítima; e o sargento Atos Valeriano, que participou da negociação para libertação das reféns.

As testemunhas da defesa são: a mãe e o irmão mais novo de Eloá, Marcos Antonio Cabello (advogado que participou das negociações), Rodrigo Hidalgo, Márcio Campos, Dairse Aparecida Pereira Lopes, Hélio Rodrigues Ramacciotti, Sergio Luditza, Adriano Giovanini e Paulo Sergio Squiavo.

Linha de acusação

Durante o julgamento, a promotora Daniela Hashimoto irá sustentar que Lindemberg é um jovem agressivo e possessivo, e que premeditou o assassinato de Eloá. “Ele foi até lá com a intenção de matar. A história começou dias antes daquele 13 de outubro [quando Lindemberg invadiu o apartamento]. Ele já vinha a ameaçando, tanto que 15 dias antes chegou a agredi-la, sempre com aquele papo de que ‘se não vai ser minha, não vai ser de mais ninguém’”, disse.

Para a promotora, Lindemberg só não cometeu o crime assim que chegou à casa de Eloá porque queria explicações dela sobre o motivo do fim do relacionamento.

Daniela disse ainda que o fato de Lindemberg ter tido a preocupação de retirar do apartamento o irmão mais novo de Eloá, Douglas, que era seu amigo, é mais uma indicação de que o crime foi premeditado --as gravações telefônicas da tentativa de negociação entre Douglas e Lindemberg serão usadas pela promotoria, bem como um laudo que comprovaria que as balas que mataram Eloá foram disparadas pela arma de Lindemberg.

O julgamento

O julgamento começou nesta segunda-feira, com o sorteio dos jurados --de um grupo de 25 pessoas, sete foram sorteadas para compor o júri.

Depois da escolha dos jurados, serão chamadas as testemunhas convocadas pelo Ministério Público e, na sequência, as testemunhas da defesa. Após os depoimentos, o réu, então, será interrogado --Lindemberg, que até agora se recusou a falar, poderá permanecer calado. Após essa etapa, os debates são abertos, com uma hora e meia para a acusação e uma hora e meia para a defesa (além da réplica e da tréplica). 

Entenda o caso

Lindemberg Fernandes Alves, então com 22 anos, invadiu o apartamento de sua ex-namorada Eloá Cristina Pimentel, 15, no segundo andar de um conjunto habitacional na periferia de Santo André, na Grande São Paulo, no dia 13 de outubro de 2008. Armado, ele fez reféns a ex-namorada e outros três amigos dela, que estavam reunidos para fazer um trabalho da escola.

Em mais de cem horas de tensão, Lindemberg chegou a libertar todos os amigos, mas Nayara Rodrigues acabou voltando ao cativeiro, no ponto mais polêmico da tragédia --a polícia, que trabalhava nas negociações, foi bastante criticada por ter permitido o retorno.

Em depoimento, Nayara afirmou que, após ter sido liberada, foi procurada por policiais que queriam que ela tentasse convencer Lindemberg a libertar Eloá pelo telefone. Então ela os acompanhou até o local do sequestro e foi orientada pelo rapaz ao celular a subir as escadas. Nayara disse que Lindemberg prometeu que os três desceriam juntos, mas, quando chegou à porta, viu que ele estava com a arma apontada para a cabeça de Eloá. Então, ele puxou Nayara para dentro do apartamento e não a libertou mais.

Mais tarde, policiais militares do Gate (Grupo de Ações Táticas Especiais) invadiram o apartamento, afirmando que ouviram um estampido do local. Em seguida, foram ouvidos tiros. Dois deles atingiram Eloá, um na cabeça e outro na virilha, e outro atingiu o nariz de Nayara. Eloá morreu horas depois. Lindemberg foi preso.

Imbróglio judicial

A primeira audiência do caso, realizada em janeiro de 2009, decidiu que Lindemberg iria a júri popular, inicialmente marcado para fevereiro de 2011. Foram quase dez horas de depoimentos --cinco testemunhas de acusação e nove de defesa. A primeira a ser ouvida foi Nayara Rodrigues, que afirmou que o ex-namorado de Eloá entrou no apartamento com a intenção de matar. Já Lindemberg permaneceu em silêncio.

A advogada de defesa, no entanto, pediu a anulação do interrogatório alegando cerceamento de defesa. E por reconhecer que houve falhas no procedimento, o STJ (Superior Tribunal de Justiça) aceitou o pedido e anulou a audiência realizada em 2009.

O processo foi recomeçado em março de 2011. Todas as testemunhas foram ouvidas novamente. E em agosto de 2011, a Justiça de Santo André confirmou que Lindemberg deveria ir a júri popular.

*Com colaboração de Larissa Leiros Baroni

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