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Uma vida sem raízes: o que esperam os imigrantes depois da jornada?

O escritor de origem nigeriana Okey Ndibe - Holly Williams/The New York Times
O escritor de origem nigeriana Okey Ndibe Imagem: Holly Williams/The New York Times

Okey Ndibe*

14/12/2015 06h01

Quando o povo Igbo, do sudeste da Nigéria, precisa descrever um evento humano cataclísmico, muitas vezes recorrem a um provérbio. "Uma coisa mais poderosa que o grilo invadiu sua toca", dizem. Derrotado por seu adversário, as opções do grilo são abandonar seu lar e correr para a segurança ou morrer lutando.

Como milhões de outro igbos, meus pais enfrentaram essa escolha cruel em 1967, quando o governo nigeriano iniciou uma guerra civil contra a região sudeste, rica em petróleo, onde vivíamos, para sufocar a liderança local que queria se separar e criar uma nova nação chamada Biafra.

Eu tinha apenas sete anos quando pegamos um dos últimos barcos que saíam de Yola, uma cidade na fronteira nordeste, rumo a Onitsha, grande cidade comercial no sudeste. Meus pais fizeram o possível para nos proteger, seus quatro filhos, dos horrores da Guerra de Biafra, mas não dava para esconder a tragédia.

Encontramos abrigo temporário na cidade natal de meu pai, Amawbia. Porém, conforme a guerra aumentava e ficava mais mortal, tropas federais às vezes atacavam civis por ar e por terra, e acabamos nos tornando andarilhos em busca de refúgio. Saíamos correndo de uma cidade sitiada rumo a um suposto porto seguro, que descobríamos também ameaçado, nos obrigando a fugir de novo.

O governo nigeriano impôs um bloqueio, a comida era escassa, tão difícil de encontrar quanto a esperança, e não era possível dormir por causa dos incessantes tiros durante a noite. Onde quer que estivéssemos hospedados, meus irmãos e eu nos juntávamos às outras crianças para caçar lagartos, que assávamos em fogueiras improvisada, saboreando a carne branca e macia.

Crianças menos afortunadas, desnutridas, eram uma visão comum: pernas finas, barriga distendida como se estivesse cheia com ar, costelas aparentes, pescoço magro e cabeça com tufos de cabelo ralo e descolorido.

Os adultos também estavam morrendo. Um dia, enquanto eu estava com meus pais em uma longa fila em um centro que distribuía alimentos e outros artigos, vi um homem cair no chão. Meus pais tentaram bloquear minha visão, mas já era tarde. Alguns homens apareceram para carregar seu corpo fraco, pendurado. Durante a guerra, aproximadamente um milhão de pessoas morreram, muitos de fome — uma fome que o governo deliberadamente impôs.

Recentemente, da segurança de minha casa nos Estados Unidos, vi aquele inferno novamente. Ao redor do mundo, pessoas estão sendo forçadas a deixar suas casas, e estão tão desesperadas para encontrar um refúgio seguro quanto minha família estava.

A escala da miséria é imensa. Em 2015, a Agência das Nações Unidas para Refugiados informou que 60 milhões de pessoas foram deslocadas globalmente, de acordo com dados reunidos no final do ano anterior — o número mais alto desde a Segunda Guerra Mundial. A palavra "crise" não é forte o suficiente.

Homens, mulheres e crianças fogem de guerras, conflitos e perseguições em lugares como a Síria (11,6 milhões), Iraque (4,1 milhões), República Democrática do Congo (4 milhões), Afeganistão (3,7 milhões), Sudão (2,9 milhões), Somália (2,3 milhões), Ucrânia (1,3 milhão) e Mianmar (907 mil) de acordo com as Nações Unidas.

Emocionalmente mais próximo a mim, a ONU disse em setembro que mais de 2,3 milhões de pessoas na zona nordeste da Nigéria haviam sido deslocados desde maio de 2013 — vítimas do Boko Haram, os insurgentes islâmicos.

Atualmente, a Turquia abriga aproximadamente 1,6 milhão de refugiados. Alguns outros países nas mesmas condições podem surpreender alguns, pois não são ricos nem europeus: Paquistão (1,5 milhão de refugiados), Líbano (1,2 milhão), Irã (982 mil), Etiópia (660 mil) e Jordânia (654 mil). Em outubro, 643 mil refugiados e migrantes haviam chegado à costa europeia através do Mediterrâneo desde o início do ano.

Não importa de que lugar os refugiados tenham vindo, todos conhecem a situação do grilo. Quando você é forçado a pegar seus filhos e fugir, não há tempo para vistos e passaportes. A grande preocupação é como atravessar o Saara sem morrer de sede, ou como sobreviver no Mediterrâneo em uma balsa. Cada um que morre tentando alcançar segurança é um testemunho que, de fato, algumas mortes — por exemplo, por afogamento perto de uma praia italiana — são melhores que outras.

Muitos dos que sobrevivem se veem encurralados, tentadoramente perto da segurança: atrás deles, morte e destruição; à frente, arame farpado e policiais. Nesse ponto, é preciso acreditar na compaixão dos burocratas.

Mas a Hungria ergueu cercas para manter os refugiados afastados. Patrulhas da Malásia e da Tailândia mandam barcos lotados de esquálidos rohingyas, minoria muçulmana perseguida em Mianmar, de volta para o mar. A Austrália não tem cercas, mas mantém muitos refugiados em quarentena na Ilha Christmas, em Nauru e em Papua Nova Guiné.

De todas as barreiras, a mais difícil de transpor é o modo em que somos rotulados. Quando você é chamado de refugiado ou migrante, essa designação reflete a postura de quem fala, e não a sua própria tentativa de contar sua história. O primeiro-ministro britânico, David Cameron, se referiu às pessoas que chegam às fronteiras europeias como um "enxame".

Alguns analistas europeus observaram que a maioria era de muçulmanos, implicando que se puderem se estabelecer, eles tentariam minar os valores e tradições locais.

Eu tenho tentado, com dificuldade, entender por que pessoas indefesas, que foram arrancadas de suas vidas e que adorariam voltar para suas casas, inspiram tal medo.

Quando uma família de refugiados viaja para Londres, ou chega ao ponto de ônibus em Amã ou desembarca na costa da Malásia, os acessórios da vida de classe média em geral já se perderam — licenças profissionais são inúteis, amigos e parentes estão afastados, quase todos seus pertences foram deixados para trás. Talvez, quando as pessoas se afastam de um refugiado, elas estão reagindo contra a ideia de que suas vidas tranquilas também podem ser destruídas com balas, que tudo de que dependem poderia ser reduzido a escombros.

Talvez seja porque alguns refugiados viajaram distâncias muito grandes, fugindo não para os países vizinhos, mas para outra região, e então é menos provável que sua situação seja reconhecida e tratada com compaixão.

Ou talvez alguns dos refugiados nos lembrem de acontecimentos que gostaríamos de esquecer. Se americanos ou europeus permitirem que iraquianos ou líbios se estabeleçam em suas nações, seriam lembrados de que a invasão do Iraque liderada pelos EUA e a deposição de Gadaffi apoiada pela Otan trouxeram o caos a esses países, ao invés de paz?

E também existe a ideia de que terroristas se escondem entre os refugiados. Após o ataque em Paris em novembro, um passaporte sírio falso foi encontrado com um dos assassinos que foram mortos. Grupos direitistas por toda a Europa pediram a seus governos que fechassem as fronteiras, e alguns americanos e europeus começaram a misturar imigração com terrorismo.

Mesmo assim, se um refugiado tiver sorte em sua jornada é somente porque vivencia momentos de compaixão e empatia ao longo do caminho. Há tantas pessoas que abrem suas casas, criam instituições de caridade, transportam refugiados através das fronteiras. Raramente isso é o suficiente, mas dá força para que continuemos.

No final da Guerra de Biafra, a sorte apareceu no meu caminho quando uma mulher teve pena de mim ao me ver em uma caótica fila para receber alimentos. Ela me deu um pouco de comida e uma moeda, muito necessária, que levei para casa e dei a meus pais.

Quando você encontra uma casa, enfrenta o desafio de reencontrar sua identidade, de forjar uma comunidade, decidindo quais memórias deve descartar. Você é forçado a se reconstruir, molécula por molécula. Alguns não conseguirão se adaptar. Para outros, a memória da passagem para o exílio sempre trará fantasmas vingativos — parentes perdidos ou abandonados, ou aqueles que pereceram no caminho.

Algumas das minhas memórias mais vivas são do fim da Guerra de Biafra. Meus pais tendo de ver tudo que foi perdido: parentes que haviam morrido ou foram mutilados mental ou fisicamente, nossa casa em ruínas, com fotos e outras recordações perdidas para sempre. Mas estávamos vivos.

Alguns parentes ajudaram meus pais a consertar parte do telhado da nossa casa, e nos mudamos. Meu pai retomou seu trabalho no correio e minha mãe voltou a lecionar.

Meus irmãos e eu voltamos às aulas com uma certa paixão. Não importava que as tropas nigerianas houvessem bombardeado nossa escola, forçando-nos a ter aulas ao ar livre, sob sol e chuva. Frequentar a escola era um ritual de nossa vida anterior e parecia oferecer a chance de recuperá-la.

Quando você sabe o que é estar com fome e sem abrigo e ter perdido tudo, sabe que outros podem passar pela mesma situação. Você só espera que o burocrata a quem pede assistência compreenda que ele poderia estar do outro lado da mesa. E de fato, muitos o fazem.

Nós é que precisamos aprender. Refugiados não ameaçam estilos de vida: muitos sabem o valor da compaixão, e quando se tornam nossos vizinhos, amigos e colegas, vão nos ensinar a empatia. Parte da nossa dívida para com eles é lhes oferecer a assistência que eles nos dariam. E até encontrar em nós mesmos a capacidade de ajudar a restaurar a ordem, a normalidade ou a harmonia em suas casas originais, que de repente foram destruídas, não tendo mais condição para habitação.

*Okey Ndibe, atualmente na Universidade de Nevada, em Las Vegas, é autor dos romances "Foreign Gods, Inc." e "Arrows of Rain"